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A História brasileira por si só possui histórias e personagens interessantes. E se aquela que conhecemos fosse apenas uma parte da verdade? Será que o Brasil do Estado Novo esconde algo mais fantástico que a própria realidade? Ou será apenas um devaneio de um pobre escritor? Este é um relato que nos mostra ser possível, mesmo no Brasil, termos uma história escondida dentro da oficial, onde tudo é possível…

Caso esteja lendo esteja lendo esta carta, isto indica que algo aconteceu comigo, mas deixo o registro daquilo que presenciei para a História. Meu nome é José Pereira da Silva, vulgo Zé Cachaça. Nascido e criado em Caruaru até os 12 anos, quando minha família se mudou para o Rio de Janeiro. Estudante aplicado, consegui um emprego como ‘foca’ no Jornal do Brasil na década seguinte. Neste período, rondavam as notícias sobre o Cangaço, um movimento ‘de marginais’ no nordeste brasileiro, muito admirado pelos mais pobres na região. Seu líder, Lampião, tornou-se uma lenda e poucos acreditavam em sua existência, afinal quando iniciei minha jornada fazia mais de dez anos que o cangaceiro jamais fora preso.

Munido de máquina fotográfica, lápis, blocos para anotação e um pouco de dinheiro, usei meus conhecimentos locais para tentar me juntar ao grupo e mostrar ao Brasil sua verdadeira história. Após 2 anos de pesquisas, amizades e encontros desfeitos, minhas esperanças estavam se esgotando (assim como a paciência do meu editor), quando finalmente tive a oportunidade de encontra-lo. Por intermédio de um amigo de longa data e pela afinidade com a devoção ao Padre Cícero, encontrei Virgulino e seu bando em agosto de 1937 em uma pequena igreja de uma cidade esquecida no interior de Pernambuco. Apesar de certa desconfiança inicial, Lampião acaba convencido por Maria Bonita sobre a necessidade de se contar a verdadeira história do grupo para todo o país. E foi assim que me juntei ao Cangaceiro.

No entanto, a maior descoberta não estava no modus operandi dos cangaceiros ou a motivação de um letrado a se tornar um fora da lei. Dois meses depois algo estranho aconteceu. Durante a noite, tradicionalmente, Virgulino se afastava do grupo supostamente para suas preces noturnas. Em uma destas vigílias, acabei não pegando no sono e a curiosidade me venceu… fui atrás de Lampião para um registro de sua devoção. Imaginando uma foto de capa, ainda mais pela bela lua cheia que brilhava nos céus evitando que usasse o barulhento fósforo para o flash, esgueirei-me por entre arbustos espinhentos da caatinga nordestina e presenciei uma cena que mudaria a história até então conhecida. Lampião falava com outra pessoa, um homem alto, com uma capa e máscara negra. Não era possível ver seus olhos, apenas um branco intenso. Sua voz possuía um timbre forte, parecendo rouca e pesada. Seu nome? Jamais soube. Só o conheci como o Cangaceiro das Trevas.

Desde então, fatos extraordinários aconteceram, mas antes preciso relatar o que acontecera a seguir. Consegui sair daquele lugar e voltar para o acampamento, com a certeza de que não fora avistado. Ledo engano. No dia seguinte pela manhã, o próprio Virgulino veio pessoalmente me procurar. ‘Estou acabado’, pensei enquanto caminhava pelo descampado com aquele homem amedrontador e sereno, uma antítese difícil de se explicar. Ao nos afastarmos o suficiente para que nenhum ouvido mais acurado pudesse entender o que se passava, Lampião tira seu característico chapéu. Até então, nenhuma palavra fora dita, apenas o maior dos cangaceiros falara que precisava conversar comigo sobre o que vira na noite anterior. Com um semblante cansado e um olhar firme em minha direção, Virgulino começou assim:

– Zé. Zé Cachaça… quem diria que um dia seria descoberto. Sabia que iria acontecer em algum momento, mas não tão cedo. Há muita coisa neste mundo que acontece a margem da sociedade e poucos têm consciência de tais eventos. O mundo e o Brasil já estiveram próximos a se acabar algumas centenas de vezes e ninguém sabe. Só me acusam de ser um fora da lei e mandam as volantes aqui para me caçar. Estou exausto. Cansei de ser um pária para Getúlio sair como o Pai dos Pobres. – sua voz pela primeira vez demonstra alguma emoção. Raiva? Cansaço? Apreensão? Sinceramente não sei. – Por mim chega. É hora de o mundo saber a verdade. Zé Cachaça, você já ouviu falar da iniciativa Extraordinária?

Passaram-se alguns dias da conversa com Virgulino. Ainda não havia conseguido ‘digerir’ as informações, quando de súbito, no meio da noite, os cangaceiros se agitam e o acampamento é desfeito em poucos minutos. Aquela altura dos acontecimentos, conhecedor das estratégias de Lampião, me juntei ao grupo sem maiores perguntas. Na escuridão da noite, agora sem a lua brilhante no céu, os homens parecem apenas vultos, movendo-se em silêncio. Os jegues carregados de mantimentos e armas parecem conhecer os procedimentos e seguem sem fazer barulho. Ao longe, um tremeluzir de luzes de lamparinas e o que parece ser uma fogueira. Os ‘macacos’, apelido dado aos policiais que os caçavam há alguns anos, chegaram muito perto desta vez. A tensão é palpável e ouve-se apenas a respiração forte dos animais, todos passando sob o olhar atento de uma coruja da caatinga.

No alvorecer, estávamos há alguns quilômetros de distância, seguros de que a volante não havia nos descoberto. Quinta-feira, um dos homens de confiança de Virgulino, seguia a frente e todos afirmavam que fora um de seus informantes que soubera do ataque. Mais uma vez, desta por sorte e sem trocas de tiros, o Rei do Cangaço e seus correligionários conseguiram escapar para viver mais um dia. Mas, apesar de toda a tensão deste momento, as palavras de Lampião ecoavam em minha mente. Não seria possível ser verdade… estes fora-da-lei são homens com propósitos mundanos específicos, tido por muitos como heróis ao tirar da classe mais favorecida, notadamente os coronéis, para dar aos pobres. Ou será que estou enganado e isto é apenas uma parte da verdade?

A minha expressão mostrava esta angústia a tal ponto que o próprio Virgulino, alertado por seus jagunços, se aproximou de mim naquela mesma tarde. Ao seu lado, Maria Bonita apenas observava quando o Cangaceiro disse em tom firme e ameno:

– Desembucha, homem. Para um jornalista, tu pouco fala e menos ainda escreve. O que ainda preciso lhe revelar para que a história seja escrita?

– Capitão… – meço as palavras com calma – não duvido do senhor, como Nosso Senhor Jesus Cristo há de testemunhar. Entretanto…. como escrever sobre isso que me disseste? No Sul, mal acreditam nas proezas do cangaço, pensando apenas que o senhor Capitão é apenas um fora da lei em um recanto esquecido do país. Imagine relatar que a Tropa dos Cangaceiros na verdade reúne figuras do folclore e que estes ainda combatem nazistas infiltrados sob o nariz do Governo Vargas!

E assim começa a Liga Extraordinária da Caatinga. No próximo episódio, o folclore se torna realidade. Saci existe? Curupira é na verdade um herói ou vilão? e mais: a Tropa dos Cangaceiros se revela… (aos mais atentos, trata-se de um conto já publicado aqui no BdE, mas reescrito e com informações adicionais. A ideia é torná-lo uma série de posts como foram aqueles do Aranha: Fim dos Dias e Tocha Humana: Poder e Responsabilidade)

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