Agradecendo a – e se despedindo de – Jerry Lewis!

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O “Rei” da Sessão da Tarde se foi…

Não vou aqui perder o meu tempo – e o de vocês! – descrevendo a carreira e a vida – bem desinteressante, cheia de problemas de saúde e polêmicas bobas – do astro que se apagou. Também não vou desperdiçar o espaço tratando do ser humano que ele era (ou que as pessoas enxergam, cada qual da sua forma, realçando defeitos ou declarações e ignorando coisas como o próprio zeitgeist). Não, eu quero mesmo é me lembrar de como a minha infância foi boa, em grande parte graças ao trabalho dele.

Um workaholic perfeccionista desde sempre.

Houve uma época em que, por incrível que pareça, a Sessão da Tarde tinha bons filmes! Antes de ir pra escola, eu pedia ao meu pai, que lia o jornal enquanto tomava café, qual era o filme que iria passar naquele dia. Quando ele dizia que era um com Jerry Lewis, eu saía animado e desanimado. A animação, claro, era porque sabia que teria uma excelente tarde. O desânimo, porque nestes dias a manhã simplesmente se arrastava!

Ao lado do amigo Dean Martin e do ícone sexual dos anos 50/60 Marilyn Monroe.

Mesmo para a minha sensibilidade infantil, era fácil notar o abismo que havia entre os filmes de Lewis e os d’Os Trapalhões, meus outros heróis da Sessão da Tarde, o que fez com que o norte-americano ficasse sendo meu preferido. O que não era à toa: Jerry era talentoso, com larga experiência nos palcos, onde fazia o “laboratório” para diversas cenas que terminaram indo parar nos seus filmes. Ele fazia rir não apenas com seu texto afiado e as inevitáveis – mas hilárias! – caras e bocas, mas com uma linguagem corporal que lhe permitia transformar coisas “bobas” em momentos inesquecíveis. Como o trabalho de mímica que é a “máquina de escrever invisível” de Errado pra Cachorro (Who’s Minding the Store?, 1963):

 

Ou mostrando, quase vinte anos antes do punk, que você poderia ser um astro do rock sem saber tocar nada direito, em Bancando a Ama-Seca (Rock-a-Bye Baby, 1958):

 

E como não citar O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy, 1960), a estreia de Lewis na direção, em que o personagem Stanley (o próprio diretor) passa quase todo o filme mudo, fazendo rir apenas com seus gestos e caras? E Jerry Lewis aparecendo no filme como ele mesmo? Lembro que o SBT passou este filme uma vez em um sábado à tarde para combater um novo programa na Globo e… venceu! Por curiosidade, em 2013 Jerry Lewis reviveu o personagem em uma aparição especial em Até que a Sorte nos Separe 2, filme nacional estrelado por Leandro Hassum.

 

Outra vantagem de Jerry era que ele tinha uma sintonia com o contemporâneo que fazia com que seus filmes não tivessem aquele ar antiquado que era passado pelo trabalho de outros comediantes do cinema. Em Artistas & Modelos (Artists and Models, 1955), por exemplo, Lewis viveu Eugene Fullstack, assistente de um artista em baixa (desnecessário dizer que era vivido por Dean Martin). Fullstack é apaixonado por gibis, principalmente os da personagem Bat-Lady, à ponto de ignorar as investidas de Bessie (Shirley McLaine), secretária de uma editora de quadrinhos – onde a dupla busca emplacar uma nova criação, Vincent, o Abutre – e… a modelo utilizada pela desenhista da Bat-Lady para compor as personagem! Mais nerd do que isso, pode?

 

Aliás, Lewis e Martin tiveram sua própria série nos quadrinhos, que durou de 1952 até 1957, quando a parceria se desfez. Com o fim da mesma, a National – futura DC Comics (chupa, Marvel!) – relançou o título, que se tornou apenas de Lewis, onde seu personagem teve a oportunidade de contracenar com diversos ícones da editora, como Mulher-Maravilha, Flash, Superman e, claro, o Batman. Algumas destas histórias foram desenhadas por Neal Adams, talento prodígio que se tornaria uma lenda nos anos 70 por seu trabalho ao lado do roteirista Dennis O’Neil.

Agora, se houve um filme de Lewis que marcou minha vida foi O Professor Aloprado (The Nutty Professor, 1963), dirigido, escrito, produzido e estrelado por ele e, na minha opinião,sua obra máxima. Pegando a deixa da história O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, o filme acompanha o drama de Julius Kelp, um professor desastrado e sem atrativos físicos que desenvolve uma fórmula visando se tornar confiante e atraente, mas que desperta uma personalidade completamente diferente e cada vez mais rebelde, o talentoso, arrogante e vaidoso Buddy Love! Em 1981, esta obra foi umas das principais inspirações – a outra foi a série do Incrível Hulk dos anos 70, estrelado por Bill Bixby e Lou Ferrigno – para O Incrível Monstro Trapalhão, onde Renato Aragão, o eterno Didi, fazia o professor maluco que descobria acidentalmente uma fórmula que provocava no usuário uma severa transformação.

Não posso deixar de lembrar de Nelson Batista. Foi com o trabalho de dublagem dele que Jerry Lewis se tornou inesquecível para milhões de brasileiros que acompanharam a trajetória do artista nas telas de TV. Nelson,que também foi “a voz” do Pateta e dos personagens de Al Pacino, faleceu em 1997. À sua memória, também, meus agradecimentos.

 

Infeliz e inevitavelmente, uma vez, uma única vez, sr. Lewis, você teria que me fazer ficar triste. E este dia foi ontem. Parta em paz e receba meus agradecimentos. Por muitas tardes bacanas, em que meu eu infantil foi poupado de ver filmes chatos com bichos ou crianças graças ao senhor. Por ter podido rir sem receio ao lado do meu pai e da minha mãe, pois seu humor não precisava ter “instrução” para entender a piada (ou fingir que entendeu para não ser chamado de ignorante). Por ter fugido do clichê do “pobre palhaço triste” e ter deixado seus personagens clássicos continuarem sendo os bobocas que tinham um final feliz, independente do quanto foi tensa a sua vida “real”.   Muito obrigado!

 

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