Mais uma lenda se vai.

Len Wein morreu domingo, dia 10 de setembro. Nestes tempos em que a criatividade é item raro nos quadrinhos das grandes editoras, cada vez mais empenhadas em fórmulas de impacto imediato e temporário, é de bom tom lembrar cinco razões pelas quais ele deve e será lembrado por todos os fãs de HQs, principalmente as de super-herói.

01. Monstro do Pântano

Len, ao lado do artista Bernie Wrightson (falecido em 19 de março), criou uma one-shot para o n° 92 do título de terror e fantasia House of Secrets da DC Comics – na qual trabalhava desde 1968, tendo estreado em Teen Titans 18, em uma história co-roteirizada por Marv Wolfman – onde o cientista Alex Olsen sofre um atentado em seu laboratório, se atirando, em chamas, no pântano próximo. Os produtos químicos em que trabalhava e que banharam seu corpo entraram em reação com a flora local e o transformaram numa criatura deformada, com força anormal: o Monstro do Pântano. Com a boa repercussão, foi pedido à dupla que iniciasse um título regular com o personagem, mas que o mesmo fosse atualizado e ganhasse uma personalidade mais heroica, ainda que trágica. A origem da criatura foi recontada pela dupla em Swamp Thing 1, de novembro de 1972. Como solicitado, a história foi atualizada para os anos 70, o cientista teve seu nome alterado para Alec Holland e a criatura em que ele se transforma, apesar de ainda ser assustadora, ganhou mais altura e contornos musculosos.

Recomendação do Sorg

Anos depois, em 1984, Len Wein, como editor, entregou uma nova encarnação do título do Monstro do Pântano ao novato Alan Moore. Sem ficar cheio de dedos com a própria criação, Wein aceitou as profundas mudanças implementadas pelo inglês não apenas nos poderes, como na própria origem do personagem, que não apenas trouxeram de volta o clima de terror para suas histórias, como também transformaram The Saga of Swamp Thing em um dos títulos mais discutidos e de sucesso na época, chamando a atenção de uma série de pessoas que há um bom tempo haviam deixado de ler HQs.

02. Wolverine

Em 1974, Len sucedeu Roy Thomas como editor da linha de revistas coloridas da Marvel. Ele aliou este trabalho ao de roteirista, tendo escrito para um grande número de publicações da Casa das Ideias. Em Incredible Hulk 180, de outubro daquele ano, ele criou um coadjuvante que, anos depois, se tornaria um dos personagens mais famosos da editora: o mutante baixinho,falastrão e invocado Wolverine. Apesar da história ser desenhada por Herb Trimpe, foi John Romita, diretor de arte da editora, quem desenvolveu o visual do Carcaju, que só algum tempo depois seria mostrado sem a sua máscara.

Conceito visual de Wolverine,por John Romita. Quando Wein soube que Hugh Jackman, intérprete do personagem nos cinemas, havia feito um agradecimento público aos criadores do personagem, ele misturou mágoa e bom humor ao retrucar que tal reconhecimento era bem vindo, mas seria melhor se fosse “acompanhado por um cheque”.

03. X-Men

Ainda durante esta passagem pela Marvel, Wein se aliou ao artista Dave Cockrum e escreveu Giant-Size X-Men 1, de maio de 1975, onde eles reformularam a equipe mutante, criando a formação que finalmente “daria certo” e tornaria o grupo um dos carros-chefe da editora anos depois, ao lado de um certo Amigão da Vizinhança. A grande sacada de Wein foi criar uma formação com personagens de diferentes nacionalidades e etnias, cada um com sua própria personalidade e com idades variadas, fugindo do padrão “equipe adolescente certinha”. Assim, havia o japonês Solaris, a queniana Tempestade, o russo Colossus, o irlandês Banshee, o alemão Noturno, o índio apache Pássaro Trovejante e, claro, o canadense Wolverine. Wein escreveu ainda duas histórias com o grupo e passou a titularidade dos textos para seu assistente, Chris Claremont.

Na criação do visual nova equipe, Cockrum utilizou conceitos rejeitados que ele havia criado para a Legião dos Super-Heróis, da DC.

04. Crise nas Infinitas Terras

Len Wein retornou a DC no fim dos anos 70 e não demorou a ganhar destaque, principalmente por seu trabalho como editor da minissérie Camelot 3.000 (de Mike W. Barr e Brian Bolland) e na reformulação dos Novos Titãs, comandada por Marv Wolfman e George Pérez.  Logo, ele foi envolvido no planejamento para as comemorações dos cinquenta anos da editora, em 1985. Len aceitava a tese de que o principal motivo para o desinteresse do jovem público pelos títulos da casa de Superman, Batman e Cia. era a confusa cronologia que se havia criado ao longo do anos, com um sem número de realidades e “terras” diferentes. Por isso, ele aproveitou a data e, ao lado de Marv Wolfman, Paul Levitz, Dick Giordano e todo o corpo editorial da DC, coordenou a maxissérie Crise nas Infinitas Terras, um mega-acontecimento como nunca visto antes, com repercussões em todos os demais títulos. O conceito de multiverso perdeu sua exagerada relevância e a cronologia foi reiniciada, abrindo caminho para que os personagens fossem reformulados, inclusive a Trindade: Superman ganhou uma nova origem por John Byrne, Batman teve a sua recontada por Frank Miller e David Mazzuchelli e o artista de Crise George Pérez, com a ajuda de Wein, recriou a Mulher-Maravilha.

Lendas teve diálogos escritos por Len Wein.

Além da Princesa de Temyscira, Len também teve importante participação em Lendas – minissérie que reintroduziu a personagem na cronologia da DC – e refez o Besouro Azul, que se tornaria um dos personagens de segundo escalão mais querido pelos fãs com o passar dos anos. Ainda na área editorial, Wein esteve diretamente envolvido em A Piada Mortal, inclusive tendo, segundo as palavras de Alan Moore, participação direta na decisão de aleijar a personagem Bárbara Gordon, a Batgirl. “Ok, pode aleijar a vadia”, teria dito Wein, após receber o aval de Dick Giordano e Paul Levitz, segundo as palavras de Moore, que escreveu a história que foi desenhada por Brian Bolland.

“Culpe o Len Wein, queridinha!”

05. Watchmen

Não há como mensurar a importância de Watchmen para os quadrinhos, principalmente por ter sido, ao lado de O Cavaleiro das Trevas, um dos títulos que sedimentou o mercado de venda direta que terminou por salvar a indústria das HQs na segunda metade dos anos 80. O que surgiu como um desejo de Alan Moore de escrever uma história com os personagens da Charlton Comics – que tinham sido adquiridos pela DC – terminou se tornando um acontecimento que até hoje ganha seguidas republicações e se tornou um dos principais focos do conflito entre a DC e o escritor britânico, que se recusa a trabalhar para a editora ou colaborar de qualquer forma com a mesma enquanto não receber a propriedade intelectual de tudo aquilo que ele criou para ela e que considera “moralmente” seu.

Len Wein criou o personagem Lucius Fox, que administra os negócios das Empresas Wayne enquanto o dono vaga pela noite combatendo o crime. Nos filmes de Christopher Nolan, o personagem ganhou destaque e o talento de Morgan Freeman.

Curiosamente, foi aqui que também se deu o rompimento da dupla roteirista-editor – tão marcante nos anos 80 quanto a outra, formada por Dennis O’Neil e Frank Miller. Wein desaprovou o final, por ser um plágio do episódio The Architects of Fear  da série A Quinta Dimensão (The Outer Limits). Wein pediu que Moore reescrevesse o final, com uma nova conclusão. Com a recusa do escritor, o editor saiu do projeto.

O polêmico desfecho da história entre Tristão e sua amada Isolda, em Camelot 3.000. Ao fazer o destemido cavaleiro renascer com o sexo feminino, a série teve a oportunidade de abordar não apenas o preconceito contra a homossexualidade como também contra a própria mulher.

Bom, espero que estes pequenos tópicos mostrem um pouco o valor que Len Wein DEVE ter para todos os fãs de quadrinhos e seus derivados. Seu talento, sua versatilidade e, principalmente, sua ousadia não apenas como criador como também como coordenador ou editor, ao apostar em novos talentos e bancar suas ideias o fizeram um dos grandes arquitetos de muito do que se fez de qualidade nesta mídia querida dos anos 70 para os 80.

Len numa Comic-Con nos anos 80.

De um fã (quase) quarentão: Obrigado, Len!

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