Essa semana foi caprichada.

Eu sou homem. Heterossexual. Branco. De acordo com o Apanhado de Leis Escrotas que Regem o Mundo, eu mando nele. Ok, talvez eu pudesse mandar mais se pudesse acrescentar “rico”, mas ainda assim: eu posso passear de mão dada com a minha esposa sem correr o risco de tomar uma lâmpada na cabeça seguida de uma surra. Eu dificilmente vou ser julgado pelo meu tom de pele ao entrar em qualquer lugar. E certamente posso andar sozinho pela rua sem o temor de ser assediado a cada esquina e acabar estuprado.

No entanto essa foi uma semana difícil para qualquer um que não se enquadre no meu grupo. Digo, mais difícil. Porque nessa semana, capricharam: a taxa de escrotidão humana/intervalo de tempo foi alta como eu não me lembro de ter visto antes. Minha fé na humanidade a essa altura pode ser encontrada no fundo das Fossas das Marianas

“Eu vi passar, mas não desço tão baixo”

De certa forma é bem-feito para mim. Eu sou um ateu, ateísmo esse derivado do meu ceticismo, e fé para mim é crendice disfarçada de virtude, seja em um sujeito mágico que conseguiu criar o universo mas não pensou em fazer uma entrada para o ar e outra para a comida, para não morrermos engasgados, ou seja nas pessoas e seu suposto bom-senso e bom-caráter, então obviamente eu tomei na cabeça. O que é engraçado, porque normalmente, sempre que eu conheço uma pessoa, eu automaticamente assumo que ela é escrota. Assim, nas raras vezes em que ela não é, eu me surpreendo positivamente. Mas estamos falando demais de mim.

Porque eu estou me sentindo assim? Quem cometeu a tolice de ver qualquer notícia sobre qualquer coisa essa semana viu uma série de catástrofes humanísticas de deixar qualquer um de cabelo em pé. Vamos começar com as mulheres.

Recomendação do Sorg

Essa semana passou no Congresso um projeto de lei, de autoria do arauto de Satanás na TerraBastião da moralidade e da família, o senhor Eduardo Cunha que torna crime induzir uma gestante a abortar. Não parece muito longe da legislação atual em um primeiro momento, pois não altera os casos onde ela já é legalizada, mas as novidades que propões são absurdas. Por exemplo: a mulher teria que passar por um exame de corpo de delito para provar o estupro e assim ter acesso à profilaxia da gravidez. O QUE??? A mulher acabou de passar por uma das maiores violências que ela pode imaginar e a atitude do Estado é “ok, deita ali, abra as pernas e vamos ver se aconteceu mesmo, AÍ eu te dou uma pílula do dia seguinte”. Sem B.O., nada feito. Porque obviamente mulheres vão fingir um estupro após transar sem camisinha só pra conseguir a pílula de graça.

O projeto também prevê penalidades a quem induzir a pessoa a métodos abortivos. Por induzir, entenda dizer, “ei, porque você não aborta?” Aliás, a definição de método abortivo não existe. Aberta a interpretações, poderia até incluir a pílula do dia seguinte. Já pensou? Uma situação em que o farmacêutico pode ser preso por fornecer uma pílula? Sim, com esse texto pode acontecer. Ah, mas tudo bem, porque ele pode se recusar a fornecer um medicamento que considere abortivo se considerar moralmente errado. Sério, o texto diz “Nenhum profissional de saúde ou instituição, em nenhum caso, poderá ser obrigado a aconselhar, receitar ou administrar procedimento ou medicamento que considere abortivo”. Segundo o relator do projeto, o verme “pró-vida” Evandro Gussi, do PV de São Paulo, “O projeto quer tratar é da liberdade de consciência. A consciência é inviolável. Não posso obrigar uma pessoa a ser coagida em relação a suas crenças”. Vale lembrar que Gussi, assim como quase metade da Comissão de Constituição e Justiça, que votou o projeto, é da Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família, o pessoal que briga contra o aborto por se dizer pró vida. Pró vida é o meu ovo esquerdo: eles são Pró Parto. Assim que a criança nasceu, ela que se dane – lembre-se que é o mesmo povo que tem como passatempo impedir conquista de direito de homossexuais, incluindo o de adotar crianças.

Agora deixemos esse assunto de lado por um momento, mas não as mulheres. Essa semana estreou o Master Chef Kids, Master Chef Nos Anos Dourados, Master Chef: A Nova Geração, ou seja lá qual for o nome do programa, com criancinhas cozinhando em cadeia nacional com uma produção em volta de olho para que não façam dodói com a faca. Uma dessas meninas, Valentina, tem 12 anos e é maiorzinha perto das demais. Bastou ela aparecer que o pior da humanidade começou a se manifestar nas redes sociais.

Essa foi uma das mais leves

Homens (homens… pfff) de todo lado começaram a fazer os comentários mais sexualizados possíveis sobre a menina, e são incapazes de perceber que estão fazendo algo errado. Mais do que isso: de todo lugar começou a pipocar defesas desse comportamento, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Afinal, segundo um dos muitos gênios, pedofilia é desejo sexual por uma pessoa pré-púbere, e se sabe que a puberdade começa nas meninas aos 12 anos. Então, qual o problema em passar a piroca nela? E esses ainda foram os mais loquazes. O nível geral era mais baixo.


Minha fé na humanidade viu o nível passando e deu tchauzinho

Lógico que isso resultou em muita gente indignada – seu redator aqui inclusive. Dessa indignação, surgiu um movimento/hashtag #primeiroassedio, com mulheres contando como foi a primeira vez que foram assediadas – normalmente na infância ou início da adolescência – porque de repente um pouco de empatia pode colocar um pouco de juízo dentro da cabeça de imbecis, não é?

Não, espera. Não pode.

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Assim que eu vi o #primeiroassedio eu esperei isso acontecer. Não podia ser diferente: é a maldita cultura do estupro. Note o comentário do tal Geraldo Alvez. Ele sumariza o problema de forma tão concisa que é difícil fazer qualquer comentário sobre essa mentalidade. Sabe o que é pior? O problema nem está na pedofilia em si. Calma, eu explico: pedofilia é uma parafilia séria, um comportamento sexual considerado doentio como necrofilia e zoofilia. Essas atrações quando detectadas são tratadas através de terapia. Nunca viu? É porque a pedofilia é mais comum do que você pensa, mas existem pedófilos que não são escrotos, e essas pessoas procuram terapia para sair dessa porque vivem uma culpa tremenda pelos seus desejos e só querem levar uma vida normal. Os que violentam crianças optaram por isso, e são criminosos. Onde eu quero chegar com esse raciocínio? Simples: primeiro, quem violenta uma criança não pode se apoiar em uma condição psicológica, porque ele tem o livre arbítrio para fazer isso ou não independende das suas vontades. E segundo, a maioria das pessoa comentando essas merdas acima não é pedófila, é simplesmente um bando de canalhas que considera que qualquer ser humano com uma vagina está automaticamente pedindo pelo seu pau. Ele não se importa realmente com a idade: o que ele vê e quer é um pedaço de carne indefeso, porque ele tem um pênis e pode tudo.

Claro, para abrilhantar a discussão, nosso superdotado preferido resolveu fazer um comentário sobre o assunto, com sua sensibilidade ímpar:

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De novo: cultura do estupro, sim, isso existe. Culpar a vítima, sim, isso é um problema seríssimo. As pessoas acreditam de verdade que a culpa do estupro é da estuprada e não conseguem enxergar qualquer problema na forma de pensar. Então vamos sumarizar: pegamos uma menina qualquer, pré-adolescente, uns 13 anos. Ela está passeando, e depois de ser assediada até dizer chega, ela é pega de surpresa e é estuprada. Afinal, está vestida como uma vagabunda, então obviamente está pedindo. consegue chegar em causa, arruinada e traumatizada e é levada ao posto de saúde. Antes de fornecer uma pílula do dia seguinte para evitar que fique grávida, mandam que ela deite e abra as pernas para que outra pessoa futrique no interior das suas parte pela segunda vez no intervalo de algumas horas, justamente o que ela está precisando no momento. A pessoa fica meio desconfiada – afinal, só hoje ela já pegou 3 “estupros” que na verdade eram meninas querendo a pílula porque são umas vadias que não se cuidam – mas ok, ela reconhece que foi um estupro mesmo. Só que ela não consegue tomar a pílula em tempo hábil, porque alguém botou impecilho por achar que é abortivo. Falando em aborto, como houve fecundação e ela acabou grávida, esse se torna sua única opção. Ah, mas é uma pena que aborto vá contra a religião de todos os “médicos” a quem ela recorre, e a coisa demora tanto que a criança acaba nascendo. Um dia ela pergunta quem é o papai dela e não entende porque a mão desaba em choro. E isso é o final feliz: a minha versão do diretor envolve ela fazendo um aborto clandestino – eu mencionei que ela é pobre? Não tem grana para ir em uma clínica que pelo menos desinfete o chão – e morre de uma mistura de hemorragia e infecção. Fim.

Portrait of a cute girl playing transverse flute. Isolated on a white background
Mas… mas… olha como ela segura da flauta! A vagabunda queria!

Vamos voltar ao congresso um minuto? Nosso heróivilão Eduardo Cunha criou um projeto de lei que caracteriza, com pena de prisão, a “heterofobia”. Felizmente, graças ao voto da relatora Erika Kokay, nem foi para votação. Eu preciso mesmo falar do quanto isso é errado? Quando foi a última vez que você viu uma gangue de homossexuais ver um sujeito passeando com a namorada na rua e resolver dar uma surra nele por isso. E vejam, eu sou um sujeito que não se importa com raça, credo ou sexualidade de ninguém, pois eu basicamente odeio todo mundo. Isso significa que sim, considero possíveis coisas como negros discriminarem brancos por serem brancos – não vou entrar no mérito do contexto sócio-cultural que os levou a fazer isso, apenas ao fato – pois eu já vi acontecer. Agora, essa maldita bancada evangélica deliberadamente procura minar qualquer avanço social que homossexuais possam almejar, e esse projeto é mais uma forma de fazer isso. Aparentemente o eleitorado crente adora, porque a ditadura gayzista bolivariana quer acabar com seu modo de vida hétero e cristão.

Aliás, falando em gays, façamos mais um loop e vamos voltar para Master Chef Kids. Tem um guri no programa, o Hytalo, que tem uma constituição mais, digamos, delicada. O nome é de péssimo gosto, concordo, mas o moleque é apenas uma criança tentando cozinhar para três pessoas que até um ano atrás ninguém sabia quem era. Mas claro, a internet não perdoa. Não importa se você ainda não tem idade para ter pelos no saco. Se demonstra o menor sinal de delicadeza, obviamente é viado. E lá vamos nós de novo às redes sociais com dezenas de pessoas falando merda a respeito da sexualidade do moleque. Gente que não sabe como nossa sexualidade funciona, que não sabe a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual e PUTAQUEPARIU, NADA DISSO IMPORTA PORQUE É A PORRA DE UMA CRIANÇA.

“Mas Leonardo, vocês zoam o Ckreed por ser viado”. Sim, pequeno mancebo, porque ele é um adulto perfeitamente confortável com a própria sexualidade, e somos adultos confortáveis com a sexualidade dele, além de todos sermos amigos. Para nós, fazer uma brincadeira com ele por ser gay não é muito diferente de encher o saco de um amigo por ser careca. Ele não é discriminado. Agora, postar em massa que uma criança é homossexual, em um momento em que ela está construindo a própria identidade, e sem que ela sequer compreenda o que é isso, é de uma escrotidão tremenda.

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E no caso do Ckreed, de qualquer forma, ele gostcha

Eu não aguento mais. Eu poderia escrever sobre tanta coisa que brilhou ainda nos últimos dias… brutalidade policial, racismo, fechamento de escolas… Sério mesmo, não tenho perspectiva nenhuma de melhora, a ponto de pensar se quero mesmo fazer um pequeno guri/guria insolente com a minha esposa. A gente reclama do governo, mas olha só como nós, como sociedade, nos comportamos. Desculpem, mulheres, não vai melhorar. Provavelmente vai piorar bastante. Talvez dentro de uns 300 anos, melhore um pouco para vocês. Desculpem gays e afins, mas também não vai melhorar. Vocês vão continuar apanhando e sendo discriminados por muitas gerações ainda. Desculpem negros e afins. Não preciso nem falar, né? Em cerca de 120 anos o melhor que conseguimos foi vocês não serem chicoteados em público – pelo menos não literalmente – e receberem algum cascalho pelo trabalho. Pelo menos não podem vender os seus filhos, acho. Não estou duvidando de mais nada.

E desculpe caro leitor por ler toda essa texto completamente desconexo. Isso foi um desabafo sincero. Eu estou de saco cheio. Mas não, não vou para a Suécia. Vou ficar, porque sou um brasileiro e não desisto nunca. Quem sabe, educando meu filho, você educando o seu, não consigamos melhorar o cenário, um pouquinho de cada vez?

Ah, droga, a quem eu estou querendo enganar?

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