Eu fui e vocês não. Seus pobres.

Meus chuchus, neste último fim de semana rolou o Festival Internacional de Quadrinhos  ( FIQ 2015 ) de Belo Horizonte, aquele evento que é simplesmente um luxo e que é o maior evento dedicado a quadrinhos no país. Eu e dona quelônia nos dirigimos a essa bela capital, cheia de salgadinhos ótimos e atendentes péssimos, e trouxemos um pouco do que aconteceu lá para vocês. Só um pouco, porque sou rica, mas nem tanto e só pude ficar sábado e parte do domingo porque temos que trabalhar.

O evento acontece na Serraria Souza Pinto, um espaço para eventos culturais da cidade que basicamente é um grande galpão. O lugar é imenso, e o espaço reservado aos artistas é bem grande. MAAAAS, é um galpão, e de cara temos um grande problema: estamos falando do calor do verão de Belo Horizonte. Enquanto estivemos lá foi até aceitável, pois choveu bastante na sexta a noite e deu uma refrescada. Mas quem ficou lá das 8 às 18 todo dia foi categórico: durante a semana o calor era insuportável. Pessoas passaram mal mesmo. Água? Fique em uma fila de meia hora e torça para pegar uma água não-quente… e isso inclui os artistas, que tinham que se virar para não ficar desidratados no meio de tanta gente. E o sábado, apesar de mais fresco (ui!) tinha o agravante de ser o dia mais cheio, então é um problema que precisa ser visto.

Eu comecei a falar mal logo de cara mesmo? Bom, pelo menos já tirei da frente. Todo FIQ tem um homenageado, e o deste ano foi o falecido Antonio Cedraz, criador da Turma do Xaxado. A turma, roubando a descrição do próprio site, é formada por personagens tipicamente brasileiros, cada um com seu jeito próprio de falar, pensar e agir, passando pelas várias classes econômicas, graus de instrução etc. É uma turminha heterogênea como o povo brasileiro, vivendo historias que falam da nossa terra, encantos e problemas, mas sem perder de vista a universalidade da experiência humana. O sujeito ganhou 6 HQMix (no tempo que o HQMix não fazia ações de marketing esdrúxulas) e um Prêmio Ângelo Agostini de “Mestre do Quadrinho Nacional” Na exposição em homenagem a ele, tínhamos diversas tiras originais, artes de outros artistas desenhando seus personagens. Simplesmente um luxo.

Além da homenagem ao Cedraz, antes de chegarmos nos artistas ainda passamos por 2 exposições. Em Heróica, com curadoria de Ariane Rauber, vemos reinterpretações de 5 personagens femininas dos comics – Mística, Elektra, Hera Venenosa, Psylocke e Feiticeira Escarlate. Basicamente elas são repensadas com características étnicas acentuadas e com uma visão feminina mais calcada em como mulheres de verdade são, ou seja, algo mais como vem sendo escrito Batgirl, Miss Marvel e Capitão Marvel e menos como tudo o que foi escrito nos últimos 80 anos. E não, eu não consegui pegar nenhuma foto das roupas sendo vestidas por mulheres de verdade. Seus punheteiros.

Recomendação do Sorg

Em “A Ciência dos Super Heróis“, temos mais reimaginação de personagens, desta vez tentando pensá-los com base em conceitos científicos mais atuais que os da época de sua criação. Essencialmente vemos a velha discussão de como poderes poderiam funcionar na vida real. Eu não achei tão interessante assim, mas tenho que reconhecer que o Flash/Guepardo/quadrúpede é genial. Finalmente, em Alves: Cerrado em Quadrinhos, temos o trabalho de dissertação de mestrado do cartunista Alves (Cerrado em quadrinhos: experiências e contribuições para o ensino de geografia), que foi acompanhada de uma série de tiras sobre o bioma. Essas tiras, falando do cerrado e de diversos problemas – ambientais inclusive – estavam expostas no local.

Sobrevivendo às exposições, a gente chega ao filé: o espaço dos artistas. A nata dos quadrinhos nacionais comparece ao FIQ, e a variedade e quantidade de material bom lá é notável. Tínhamos 123 mesas de artistas, a maioria dividida por mais de um artista – ou seja, MUITA GENTE. Lá você pode comprar quadrinhos, fanzines, prints, artes em geral feitas na hora ou não, canecas, bottons… tem para todos os gostos. Aliás, qual é o problema das pessoas com bottons? Nosso amiguinho Wesley Stamp vendeu a rodo. O Will Leite também. Eu via pessoas passando com 15, 20 dessas coisas espetadas pelo corpo. Qual o problema de vocês?

Bom, estou divagando. O que deixamos de dinheiro lá não foi brincadeira. Se deixasse, dona Quelônia teria pego O Monstro – Filhos de Quíron (que não é O Monstro 2 – leitores de Mentirinhas entenderão) do Fábio Coala no quarto do hotel. Compramos também Êxodo, escrito por Carlos Ruas e desenhado pelo Leonardo Maciel, que mal saiu do Catarse – como eles não são bestas, imprimiram algumas cópias por fora para vender lá. Caio Oliveira estava com uma versão impressa de sua geniais All Hipster Marvel, além de Panza, uma história com o primeiro sidekick da história. Basicamente levamos a coleção completa de tudo dos amiguinhos do Café com HQRafael Marçal, Wesley Samp e Digo Freitas. Gnut, de Paulo Crumbim. Quando Tudo Começou, de Bruna Vieira e Lu Cafaggi (puta que pariu, que arte linda). Duo.Tone, de Vitor Cafaggi. Sentiu o drama? Existe uma razão para o FIQ ser próximo do décimo terceiro.

Diversas editoras também estavam no evento. Basicamente vendiam obras que podiam ser autografadas pelos seus autores nas mesas. Alguns deles só ficavam ali – Shiko por exemplo. No caso dele é compreensível: Shiko não dá autógrafos, ele faz artes. Aquareladas. Que demoram. Muito. Isso quando ele não sai aleatoriamente para fumar. O pessoal do estande até dava senhas com horários sugeridos para voltarmos. Mas no fim das contas valeu a pena. Nos estandes de suas editoras tínhamos gente como Fernanda Nia, Danilo Beiyruth, Marcatti, Bá e Moon (dizem as más línguas que sendo insuportáveis como sempre). Também um sebo, a onipresente Comix e a Casa dos Quadrinhos com suas estátuas inacessíveis para meros mortais.

Ao lado (e com ar condicionado decente, enfim) ficava a praça de autógrafos. Todos os dias tinha alguém, inclusive gente boa de fora. Babs Tarr e Cameron Stewart cansaram de autografar Batgirls, mostrando que uma personagem feminina bem escrita faz sucesso sim. Gail Simone também estava lá dando muitos autógrafos, mostrando que se você não pode fazer uma personagem feminina bem escrita, um grupo de mulheres com sugestões de bondage por todas as edições também resolvem. O pessoal do Universo HQ estava lá autografando seu recém-lançado livro, e também teve a obrigatória mesa com todos os autores das Graphics MSP. Menos o Shiko, por razões óbvias.

Falando em Graphic MSP, o único painel do qual participamos foi o sobre elas. Sidney Gusman, o editor pop, tinha anunciado que revelaria 3 novas edições, e isso fez desse o painel mais esperado. O Maurício de Souza estava lá – pessoas esperaram horas pela sessão de autógrafos com ele – e tudo começou com a apresentação dos autores das Graphics MSP presentes – menos o Shiko, dã –  além de histórias dos bastidores das publicações. Finalmente, nos contaram quais eram essas novas histórias: Mais uma do Astronauta, pelo Danilo Beiruth, mais uma do Bidu, por Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho, e a única novidade: Mônica, por Bianca Pinheiro, autora do elogiadíssimo Bear. Chamada ao palco, ela chorou muito. Aí o Maurício chorou. Aí o público chorou. Como essas pessoas conseguem lidar com papel sem estragar? Também soubemos da boca do próprio Maurício que teremos em alguns anos a Turma da Mônica adulta, com os personagens crescendo em tempo real. Terão eles culhões para em 50 anos publicarem as aventuras da turminha no asilo? Só o tempo dirá.

Crianças, quando puderem, vão ao FIQ. Sério. O clima do evento é incrível, cheio de gente que realmente gosta de quadrinhos, conhecendo autores novos, discutindo o que gosta. Você pode acabar amigo do seu artista preferido (no meu caso, isso aconteceu por mérito da minha esposa, que faz amizade até em confronto de torcidas, mas ainda assim). Apesar do calor insuportável e do inevitável rombo na conta bancária, vale muito a visita. Apenas levem muita água, usem roupas leves e não comam lá, porque a comida é uma ofensa. Vão à Cantina do Lucas. Sexta-feira, à meia-noite, estávamos lá comendo tutu a mineira.

Sim, eu sei que somos gordos.

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