Gotham não é uma série sobre os quadrinhos

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Como assim que não? Não, não é, e vou explicar o porquê.

Não sei se tem (muita) gente vendo Gotham ainda, mas eu tenho meus dois pés atrás com a série. Independente da sua fanbase, que diz que é uma série de origem, e blábláblá, eu não consigo gostar do que ela faz com os personagens e suas histórias. E isso tem muito a ver com seu diretor, Bruno Heller.

Desde o princípio, a premissa da série era mostrar os primórdios de James Gordon, como um policial jovem e idealista, chegando numa corrupta e decadente Gotham City. A premissa não é nova. Se for considerar sua matriz original, estamos falando do capítulo um de Batman: Ano Um, onde temos exatamente esse contraste. Gordon chegando em Gotham, para tentar fazer o seu melhor, e Bruce Wayne chegando em Gotham, para mostrar o seu “pior”…

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E para por aí, pois, em menos de duas temporadas, já tivemos quase que toda a galeria de vilões do Morcego, sendo que nessa série Bruce Wayne ainda nem começou a sua jornada clássica em busca do seu famoso “preparo”. Ele é apenas um moleque rico e que vive com seu mordomo. Apesar das tramas e sub-tramas tentarem lhe inserir na série, apesar da forçada relação pré-adolescente entre Bruce e Selina Kyle, nada justifica a presença de Bruce nessa narrativa. Ainda mais porque o foco principal deveria ser a ascensão de James Gordon em sua árdua e brilhante carreira como um homem da lei em uma cidade sem lei.

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Gotham tomou o caminho fácil das séries de tv, colocando a máscara (tum dum diss) de série policial e tentando deixar de lado a sua origem de história em quadrinhos.

E por que eu disse que a culpa é de Bruno Heller, o diretor do seriado?

Porque ele mesmo admitiu isso. Em uma entrevista para o Holywood Reporter no Edinburgh Television Festival, o cabra revelou certas “verdades” que todo mundo que acompanha a série já sabia.

“TV is about real people and faces, and not so much about magic and the supernatural things … [Gotham] has to be both a crime procedural and a mythic, epic, grand comic book saga. It’s a tricky combination, because you have to keep it real and unreal at the same time.

The comic book constituency has become so large and visible with the whole Comic-Con thing that it is very easy to assume that the audience is purely comic book enthusiasts. But I operate the show on the basis that it is a mistake to just go there.

What we are trying to do is always give little Easter eggs, little gifts every episode to the real cognoscenti, but you don’t need to know more than the basic Batman myth.”

E para quem não entende a língua do bardo, a tradução é a seguinte:

“Shows de TV são sobre pessoas e rostos reais, não muito sobre magia e coisas supernaturais… [Gotham] tem que ser ao mesmo tempo um seriado sobre crimes e uma saga de quadrinhos épica, mítica, grandiosa. É uma combinação complicada, pois você tem que mantê-la real e irreal ao mesmo tempo.

O eleitorado de quadrinhos se tornou tão grande e visível, com a situação das “Comicons”, que é fácil assumir que a audiência é unicamente composta de entusiastas dos quadrinhos. Mas eu conduzo o show me baseando que é um erro seguir esse caminho.

O que estamos tentando é dar pequenos easter eggs, pequenos presentes em cada episódio para os reais entendedores, mas você não precisa saber nada além do básico da mitologia do Batman.”

Traduzindo: o pica grossa desse show disse em auto e bom tom que essa série não é para os leitores de quadrinhos. Uma série baseada em um personagem de quadrinhos, que não é direcionada especificamente para leitores de quadrinhos, por isso, eles podem mudar todas as características principais, cânones e elementos chaves dos personagens, porque, afinal, o público alvo “não lê quadrinhos”.

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Eu realmente repudio essa mentalidade. Seria como transformar os deuses do Olimpo em personagens de uma novela e retirar todo o viés sobrenatural e divino deles, porque “deuses e magia não funcionam em séries de TV”. Temos muitos exemplos por aí que mostram como Heller está errado. Supergirl. Arrow. Flash. Agents of SHIELD. Smallville, antes desses citados. A ideia, de retirar os elementos fantasiosos do Batman na série, apenas porque o público não é majoritariamente leitor de quadrinhos, me soa burra e arrogante. Essa parece ser uma caraterística de todas as pessoas que encabeçam produtos dos personagens da DC no live action, vide Zack Snyder.

Parece que essas pessoas não conhecem, não gostam ou nem sequer querem conhecer ou gostar dos personagens. Isso simplesmente os faz deixarem de ser quem são. Retira suas essências. Claro que adaptações são necessárias, pois as mídias geralmente são diferentes e pedem isso, mas, sem a essência, essas adaptações são vazias.

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Não, isso NÃO VAI ACONTECER!

Minhas considerações finais são que essa série é apenas um uso publicitário de uma marca famosa. A tal “mitologia”, que Heller falou que não é necessário dominar, nem é necessária. É uma série que não foi feita para seu público alvo principal, por mais anti mercadológico que pareça. Se você quer ver algo do Homem Morcego ali, não espere até a décima temporada, como aconteceu com Smallville.

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Minha ideia seria dar um salto no tempo e mostrar esse moleque com seus 20, a cidade MUITO pior, e um Gordon no estilo Capitão Nascimento. Mas… NÃO VAI ACONTECER!

E quanto aqueles que acham que essa critica está embasada pelo fato de “não ser nada da Marvel”, apenas se façam uma pergunta:

Vocês iriam a uma pizzaria, que tem publicidade dizendo que vende pizza, que diz que os ingredientes são de pizza, que no menu tem os nomes das pizzas e que na verdade o que lhe servem é apenas salada?

Não, né? Então por que ir assistir a uma série, que se passa em Gotham, que notoriamente não quer usar e ainda insiste em deturpar a mitologia do Batman?

Mas gosto é gosto e que cada um que se divirta do jeito que for! Peace!

E vou ali!

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