Matinê dos Enxutos: O Doutrinador

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Político bom é político mor….


Salve, salve, cambada de Enxutos e Enxutetes corruptos até o último fio de cabelo. Eu poderia ter assistido Venom, Quebra-Nozes, Bohemian Rapsody… mas decidi usar as prerrogativas da Lei Rouanet (enquanto ela ainda existe) para avaliar se o seu, o nosso suado dinheiro foi bem investido. Ok, é um paradoxo “financiar” obras nacionais duas vezes, seja pela elisão fiscal ou pagando, no entanto esse é um tema para outro post e de polêmica pouca, meu pirão, digo, análise “do” O Doutrinador, vai primeiro …

Não irei pagar de intelectual antenado, pois quem acompanha estas mal digitadas palavras há alguns anos sabe que não sou destes. Em outras palavras: conhecia o Doutrinador de ouvir falar, entretanto não cheguei a ler o material “ao vivo” ou por vias digitais. As impressões da película, neste caso, não ficam contaminadas pela análise comparativa com o material original, focando apenas nas impressões que tive ao assistir na tela grande. Em suma, o resumo cooptado de algum rincão da internet na cara dura mesmo:

Um vigilante mascarado surge para atacar a impunidade que permite que políticos e donos de empreiteiras enriqueçam às custas da miséria e do trabalho da população brasileira. A história do homem por trás do disfarce de Doutrinador envolve uma jornada pessoal de vingança na qual um agente traumatizado decide fazer justiça com as próprias mãos.

Vamos inverter a tradicional ordem? Comecemos pelos pontos fracos. Apesar de não incomodar tanto, o enredo base é aquele batido para os fãs de quadrinhos: filha é assassinada e herói parte para a vingança. Qualquer semelhança com o Justiceiro não é mera coincidência. Ou com o Bátemã. Ou com o Aranha… enfim, entenderam meu ponto. Agora, realmente foi um ato falho a falta de um antagonista, um vilão que pudesse ser uma real ameaça ao Doutrinador. Os vilões são políticos estereotipados ao extremo, sempre reunidos em almoços ou encontros, rindo da desgraça da população e da sua esperteza ladina. Não há um desafio empolgante. Simplesmente Doutrinador vai lá e mata, somente tendo seus requisitos físicos e as dificuldades inerentes aos capangas e que tais. Há somente inimigos bidimensionais e isso incomodou ao longo da película. Saca Wilson Fisk na série Netflix? Nem precisava tanto, mas nunca fez tanta falta.

Considerando que sou um velho chato e reclamão, estes problemas acima mencionados podem nem ser considerados para os nobres bacharéis leitores. Por outro lado, tivemos algumas gratas surpresas. A ação é bem desenhada e fluida. Não deixa nada a dever para filmes com mais recursos financeiros norte-americanos. A fotografia também foi algo bem interessante, novamente guardando as devidas proporções financeiras, a ambientação na fictícia Santa Cruz (ou São Paulo) ficou bem caracterizada com um clima “distópico”. O uso de neons nas cenas noturnas, fazem com que a cidade seja um “personagem” no contexto geral. Faz você querer saber mais sobre ou se aprofundar mais naquele universo “brasileiro”, com uma “polícia federal” especializada em desbaratar crimes do colarinho branco e com muita ação.

Em relação aos atores, não há um grande destaque. Kiko Pissolato se destaca nas cenas de ação e faz um Miguel/Doutrinador correto. Tainá Medina (Nina) cumpre bem o papel, sem grande brilho. Por sinal, a “polêmica” quadrinística poderia ser que este personagem é uma criatura do sexo masculino nos quadrinhos e, por questões de “empatia” para com o público, adotou-se uma mulher do sexo feminino. Os demais atores estão lá, alguns mais caricatos, outros com participações especiais, sem nada muito digno de nota.

Considerando o potencial do filme, acredito que poderia ter ido um pouco além. Não digo na linha “discussão filosófica sobre a violência nas grandes cidades e sua correlação com a corrupção”. É um filme pipoca nacional, buscando entreter o público e com a intenção de ser ao menos rentável em bilheteria. Não havia de se esperar realmente que uma película baseada em quadrinho nacional fosse tentar ser um novo “Cidade de Deus” ou “Tropa de Elite” (se bem que o último, teoricamente seria uma crítica social e virou um blockbuster). Navegando pelas águas dos protestos de 2013 e desaguando em um anseio popular por justiça contra corruptos, ficou aquela sensação de que poderia “assistir mais disso daí” e que “precisava desenvolver melhor o contexto”, trazendo um vilão que fosse de fato uma ameaça ao herói. Seja física ou psicologicamente.

Enfim, eu curti. Não é um filmaço imperdível, entretanto é um bom pipoca nacional. Que venham mais deste tipo. Por sinal, Doutrinador virará série e ganhará uma chance deste vosso escriba.

Nota 7,5 de 10.

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