Audaciosamente indo onde nenhuma Sonequa jamais esteve…

Salve, salve cambada de Enxutos e Enxutetes. Eis que em um ritmo próprio, sem atropelar e em desespero para sair na pole position das resenhas, este vosso escriba, a la Rubinho, tenta aos poucos retornar a labuta de ‘escrevinhar’ para este não tão nobre espaço. E para mais um recomeço, vamos de um recomeço nas telinhas da NetFlix: Star TrekDiscovery.

Antes de qualquer coisa, um breve contexto com alguns spoilers que não comprometerão sua experiência ao assistir a série. O ponto de partida nos posiciona uma década antes de Kirk, Spock e McCoy iniciarem suas altas aventuras e confusões no espaço sideral, justamente no ponto onde se conflagrou o famoso conflito entre a Federação e os Klingons. Ao se deparar com um sinal estranho no espaço distante, a nave Shenzhou e sua capitã  Han Bo entram em um dilema quando descobrem se tratar de uma antiga nave Klingon com um tipo de camuflagem imperceptível aos seus sensores. Cabe a oficial Michael Burnham, uma humana criada por vulcanos, a tarefa de encontrar uma saída para a situação, mas sua atuação acaba gerando um conflito de proporções intergalácticas…

Bom, vamos às análises. Começando pelo roteiro. A ideia, inicialmente, causará estranheza aos fãs mais ardorosos da série clássica e seus derivados que seguem linha similar. Ao contrário do clima mais otimista e mais ‘preto e branco’, a série da Soneca carrega em tons ‘cinzas’ o seu discurso. Sim, eu sei, mesmo a série clássica possui um paradoxo na sua essência que é levar uma mensagem de paz em uma nave de guerra, mas em Discovery o cinismo e a dualidade dos dias atuais chegam ao universo de Kirk e seus comparsas. E faz todo o sentido, afinal a Federação dos Planetas está em guerra com uma raça aparentemente cruel. Entretanto, mesmo entre os Klingons, percebe-se que há uma razão de ser que os motiva a ter as atitudes mais belicistas. Interessante também ao levar ao Império Klingon a luta entre as casas e um certo ‘clima político’, se é que podemos dizer isso em lutas internas que resultam em morte e mudanças nas lideranças e status quo.

Voltando a Federação, as atitudes do capitão Lorca, este sim o líder da nave que dá nome a série, jamais poderiam ser consideradas livres de quaisquer críticas e poderiam fazer Kirk e sua ‘rebeldia’ parecerem juvenis. A própria Soneca, na sua irracionalidade racional (explico mais adiante), toma decisões que, mesmo possuindo boas intenções, podem ser questionadas a luz de um ‘bom mocismo’ clássico. Considerando estes fatos (ou ‘apesar de’, caso seja um fã radical),  a série apresenta as características que marcaram época e gerações: a hoje incensada inclusão de minorias (vale lembrar que este tópico foi originado na Star Trek nos anos 60!), o explorar o desconhecido com um ‘quê’ de realidade e usar as parábolas para discutir assuntos mais próximos de nós do que supõe a nossa vã filosofia.

No tocante às atuações, em linhas gerais, todos os protagonistas estão bem e convencem em seus respectivos papéis. Anthony Rapp como o cientista ‘frio’, mas nem tanto, Jason Isaacs e seu capitão Lorca moralmente dúbio, onde os fins justificam os meios, e Michelle Yeoh com participação inicial que marca a série toda são para mim os grandes destaques. Doug Jones (sob pesada maquiagem e o seu Saru) e James Frain (como Sarek, pai de Spock) merecem também menção honrosa. E a Soneca? Merece um parágrafo a parte…

Sonequa Martin-Green gera opiniões conflitantes neste vosso escriba. Em alguns momentos, não tenho convicção se ela está atuando ou se de fato é uma atriz com recursos limitados. Explico: Michael Burnham é uma personagem difícil, por se tratar (spoiler) de uma humana criada por vulcanos. Teoricamente deveria ser uma pessoa mais centrada e controlada, fato este que poderia sugerir a ‘mesma cara de pastel’ que a dita cuja tem em quase toda a série.  Entretanto, suas ações tem uma lógica um tanto torta, tomando decisões por impulso e com poucos resquícios de lógica. Para alguém que poderia (spoiler) ter sido aceita na academia vulcana, há de se ressaltar que em tese deveria ser muito mais próxima da lógica vulcana do que a ‘lógica’ humana. Suas ações, neste sentido, acabam não fazendo sentido mesmo dentro do contexto da história. Ok, mas King, isso é independente da atriz. É um conceito do personagem. Sim, concordo. E vou além: a dubiedade acaba sendo mal explorado, talvez, pela incapacidade da dita cuja em conseguir passar isso. Enfim, não curti justamente a atriz que é a protagonista da série. E, por favor, sem discursos moralistas de que estou escrevendo isso por ser negra, mimimimi, bobobobó….

Um breve parágrafo sobre os efeitos visuais. Dentro das limitações orçamentárias quando se comparada a filmes, a Discovery funciona bem. Interessante que não é tão ‘clean’ quanto as séries clássicas, tendo um tom mais escuro nas cenas. Pode ser até para ‘esconder’ eventuais limitações financeiras, mas funciona dentro do contexto da história. Não é a melhor coisa do mundo da última semana, entretanto cumpre com honras o seu papel.

Enfim, pesando os prós e contras, é uma série bem interessante. Obrigatória para os fãs, pois acaba levando a outros limites não explorados deste universo. E este não é o objetivo, nos levar audaciosamente onde nunca estivemos?

Nota 8 de 10

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