Ratos nunca foram tão humanos.

Olá, Enxutos, que só leem quadrinhos, se houver aranhas ou morcegos nas histórias!

Nosso talentoso, agreste e querido amigo, Hellbolha, fez uma análise emocionante dum clássico dos quadrinhos, também emocionante, que é Maus: A História de Um Sobrevivente. Confira:

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Você já leu uma história que te deixou inquieto? Já leu uma história que te fez chorar? Já leu uma história que te fez torcer pelo protagonista? Já leu uma história que, de um momento para o outro, te fez ODIAR esse mesmo protagonista? Pois é… transitei por todas essas experiências em uma HQ, que levei anos para finalmente ler, e o fiz com uma expectativa muito alta e que maravilhosa surpresa, quando essa expectativa consegue ser superada. Este é o caso de Maus, de Art Spiegelman.

Para uma pessoa que não conheça a obra, ou mesmo não seja inteirada no mundo dos quadrinhos, ver Maus nas prateleiras de uma livraria, com um selo de “Ganhador do Pulitzer”, deve ser uma experiência um tanto curiosa. Afinal, a capa traz dois ratinhos simpaticamente desenhados, num traço até simples, em frente a uma suástica e com um gato emulando Adolph Hitler. Para muitos desses desavisados pode passar a impressão de paródia. Mal sabem eles a força escondida por trás dos traços simples, espalhados nas 300 páginas de uma das mais emocionantes histórias já contadas no mundo da arte sequencial. Após lê-la, você entende o porquê de ter ganho um Pulitzer, mas fica se questionando “Por que não ganhou um Eisner?” até que para e pensa que talvez fosse injusto com os outros concorrentes.

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Se estou rasgando tanta seda até agora, acredite, é por que Maus merece. A obra, criada pelo supracitado Art Spiegelman, acompanha a jornada de seu pai, Vladek Spiegelman, um judeu que vivia na pequena cidade de Sosnowiec na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial. Não precisa ser um gênio historiador para saber o quanto os judeus sofreram nessa época, mas acompanhar a trajetória de Vladek nos dá uma visão mais intimista dos horrores pelos quais eles passaram.

Dar qualquer detalhe da trama é dar um spoiler em uma obra que MERECE ser lida. O que realmente vale citar aqui é o quão genial Art Spiegelman foi, ao se desviar da fórmula que muitos autores seguiriam, fazendo uma história linear, que seguiria com uma narração em off do próprio autor ou de seu pai, e que se passaria unicamente naquela época. Ao invés disso, Spiegelman nos entrega praticamente um documentário em quadrinhos, pois ele não só nos conta a história de seu pai, como divide o papel de narrador com o mesmo, sendo que Spiegelman assume tal papel, quando resolve esmiuçar o relacionamento difícil com seu pai:

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Romantizar seria muito fácil. Tornar Vladek Spiegelman um homem (ou rato, no caso) virtuoso seria uma saída simples demais. Enalteceria o homem e a história. No entanto, Art Spiegelman faz questão de nos mostrar que, por mais admiração que tivesse pelo seu pai, devido a tudo o que ele enfrentou, num período tão negro como aquele, o velho Vladek era um sujeito difícil de se conviver, cheio de defeitos e até um tanto odioso, de tão implicante. Quem tem pai, com mais de 60 anos, poderá se identificar prontamente com todas as peripécias que o velho Vladek apronta. Inclusive, em certo trecho da história, Art diz a sua esposa, a francesa Françoise, que se converteu ao judaísmo só pra agradar o próprio Vladek, que está preocupado em colocar nos quadrinhos o modo como seu pai vive, já que ele é, em toda a acepção da palavra, um RETRATO REAL de todos os esteriótipos preconceituosos que os judeus carregam até hoje. O velho é sovina, muquirana e encrenqueiro, quando se trata de dinheiro, além de ser extremamente racista e manipulador. Em certa parte da trama, Vladek obriga Art e Françoise a o levarem até o supermercado, para DEVOLVER comida PELA METADE e não perder dinheiro. O mais impressionante… ELE CONSEGUE! Claro, depois de aprontar um espetáculo dentro do estabelecimento, do qual Art e Françoise fizeram questão de assistir BEEEM de longe.

No entanto, todas essas falhas de Vladek só o tornam ainda mais humano e é quando voltamos no tempo e nos juntamos a ele em sua saga para sobreviver aos horrores da guerra e aos campos de concentração, que chegamos até a entender de onde ele tira essa supervalorização por pequenos objetos, dinheiro e comida. Nesse ponto, eu devo confessar que jamais chorei lendo uma história em quadrinhos. No máximo fiquei com um nó na garganta e olhe lá, mas uma cena em particular em Maus me arrancou lágrimas de um modo brutal. Como disse, falar da trama é dar spoiler de algo que merece ser lido. Direi apenas que um cinto, um sapato e uma colher jamais tiveram tamanho poder dramático, quanto nessa passagem:

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A raiva e até mesmo a simpatia, que o velho Vladek te faz sentir, devido ao seu jeito caricato e encrenqueiro, rapidamente se torna admiração e reverência, quando voltamos no tempo e vemos como o jovem Vladek usou de todas as artimanhas possíveis, não somente para sobreviver aos horrores a que era constante e interminavelmente exposto, mas também para ajudar seus iguais e, acima de tudo, para tentar proteger Anja, seu grande amor e mãe de Art Spiegelman. Anja sempre foi a força motriz por trás das atitudes de Vladek, bem como o inverso também se torna verdadeiro. No entanto, tanto para o velho Vladek, quanto para Art, Anja acabou se tornando uma cicatriz que não se fecha. Em Vladek, Anja causou uma ferida chamada solidão, em Art, uma ferida chamada remorso. O que houve com ela? Mais uma vez cabe evitar spoilers. Basta dizer que ela foi uma mulher que tinha tudo para fraquejar desde o incio, mas conseguiu ser forte até o limite. Mas o limite sempre chega…

Ainda sobre o casal, um dos momentos mais dramáticos se deu quando ambos foram mandados para Auschwitz e, por consequência, separados. Enquanto Vladek era um homem sagaz e forte, como ele mesmo faz questão de frisar o tempo todo, podendo fazer trabalho braçal e usando de sua inteligência para se manter assim (afinal, pra ficar forte é preciso comer e, para um judeu, comer naquela época era coisa complicada…), Anja era uma mulher de psicológico abalado, devido às inúmeras perdas e isso acabou afetando sua saúde física. Forçada a fazer trabalho braçal, ela era constantemente espancada, o que não contribuía em nada com sua saúde. Mesmo sem saber desses acontecimentos, Vladek temia pela vida da mulher por conhecer tão bem sua fragilidade, mas era na esperança de reencontrar Vladek que Anja buscava forças para continuar seguindo. A cena em que Vladek tem a confirmação, através de uma terceira pessoa, que Anja está viva, é outro dos pontos onde as lágrimas vem aos olhos.

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A força da obra de Arte Spiegelman poderia facilmente se perder em meio aos seus desenhos simplórios e mais ainda em meio a sua escolha de transformar os personagens em animais antropomórficos, sendo judeus representados como ratos, alemães, como gatos, poloneses, como porcos, americanos, como cães e franceses, como sapos. No entanto, a metáfora dá muito mais força a história e o traço simpático, com que Spiegelman preenche as páginas, só torna ainda mais brutal e chocante, quando as atrocidades começam a acontecer. A simplicidade trás complexidade embutida e força enraizada.

Como eu disse no inicio, a narrativa não é totalmente linear, devido ao fato de Art Spiegelman usar anotações e gravações, do próprio Vladek, para compor seu roteiro. E, como todo mundo sabe, pessoas de mais idade, quando contam uma história, sempre falam coisas como “Ah, lembro que conheci fulano nessa época. Fulano, aquele que morreu em tal ano” e o próprio Vladek nos dá alguns spoilers no começo da trama, mas isso não estraga a história de maneira nenhuma, muito pelo contrário, te faz sentir como se estivesse sentado ali, junto a Art e Vladek, ouvindo com admiração as histórias do velho judeu. Além do que, mesmo sabendo de antemão o destino de alguns personagens, quando é chegado o ponto, onde seus cruéis destinos são melhor detalhados, o impacto de tal momento está longe de ter se perdido.

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Texto grande, reconheço, mas ainda assim não faz jus a grandiosidade de Maus. Uma história que, infelizmente, sofre preconceito por muita gente, por se apresentar numa mídia ainda considerada “infantil” por tantos, mas que nos entrega uma verdadeira peça literária e um grandioso documento histórico. Se você nunca leu, faça um favor a si mesmo! Deixe os encadernados vagabundamente oportunistas, de preços exorbitantes e que entopem as bancas mensalmente, por apenas um momento e vá em busca de Maus. Garanto que, ao contrário dos tais encadernados, Maus ficará marcado a ferro em sua memória e o fará sentir orgulho de usá-lo como indicação para outros leitores, neófitos ou não. Maus não é sobre ser superpoderoso e salvar o mundo. Maus é sobre ver seu mundo ser despedaçado e, ainda assim, encontrar forças, em meio às suas fraquezas e limitações, para seguir vivendo nele.

Nota: 10.

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