Milo Manara e Frank Cho unem forças contra a censura.

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Ou “A sexualização exagerada da mulher nos quadrinhos e o tribunal implacável da internet”.

Olá, Enxut@s, liberais, porém conservadores!

Era uma vez um desenhista chamado Milo Manara, conhecido por retratar mulheres nos quadrinhos de maneira bem sensual. Então a Marvel Comics o chamou para fazer uma capa para a revista solo da Mulher-Aranha:

spider-woman-manara

Obviamente ele foi muito criticado pelos ativistas de redes sociais, por causa de seu trabalho, devido a pose em que desenhou uma personagem feminina e ao uniforme que lembra mais uma pintura corporal. Sobre isso, Manara disse:

Não é minha culpa se as mulheres são assim. Eu só as desenho. Não é para mim que eu fiz isso: o criador – vamos apenas dizer – é um fator muito mais “importante”, para aqueles que têm fé. Por outro lado, para os evolucionistas (incluindo eu), os corpos das mulheres tem tomado esta forma ao longo de milênios, a fim de evitar a extinção… Se você ir para uma praia agora, você vai ver as meninas que têm pouca roupa de banho, o que lhe permite “ler” totalmente a forma de seus corpos. Claro, para alguns pode ser uma imagem perturbadora, mas não para mim.

Frank Cho é um artista que também tem sido criticado por sua forma de retratar e tratar as mulheres. Ele falou ao Bleeding Cool sobre sua capa variante para o Rebirth da Mulher-Maravilha, que também gerou polêmica por mostrar um pedaço da calcinha da amazona:

Como democrata liberal e defensor da liberdade de expressão e da igualdade de direitos, fascina-me quando os ultraliberais se tornam ultraconservadores, onde vêem injustiças em todos os lugares e deixam de ver a razão e começam a oprimir as pessoas com quem discordam. Graças às mídias sociais, entramos numa era perigosa de julgamento das bruxas de Salem, onde ninguém está a salvo. Tudo está sendo atacado em todos os lugares nesta atmosfera de hipersensibilidade: o filme Nos Tempos da Brilhantina (sexualiza adolescentes), o desenho animado do Papa-Léguas (incentiva a violência contra os animais), Game of Thrones (promove o estupro e as injustiças contra as mulheres.) A lista continua.

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Tenho uma enorme base feminina de fãs. Elas são absolutamente maravilhosas e não compartilham dessas opiniões políticas odiosas de idealistas e de grupos de discussão na internet. Se você olhar para as várias postagens do quadro de mensagens, você verá multidões de notas positivas de apoio para mim e minha arte, especialmente para o meu projeto de capa para a Mulher-Maravilha. Vamos enfrentar isso, eu fui feito para desenhar a Mulher-Maravilha. Eu sou um grande fã de Lynda Carter. Eu me apaixonei por ela quando a vi pela primeira vez em sua série de TV quando criança. De muitas maneiras, Lynda Carter ainda é a principal fonte de inspiração quando eu desenho mulheres.

Só que, logo após isso, Cho saiu do projeto, após o autor da revista, Greg Rucka, fazer várias declarações contrárias ao desenhista.

Frank Cho também desenhou uma paródia da capa do Manara, mas com a Gwen-Aranha, por causa de toda essa indignação online com a obra original, e deixou mais gente furiosa:

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E declarou:

Para ser honesto, achei divertido e fiquei surpreso com o tumulto, uma vez que, na minha opinião, não era nada. Trata-se essencialmente de um pequeno grupo de pessoas irritadas e sem humor, discutindo contra o meu desenho de uma mulher bonita. É um absurdo absoluto. Este mundo seria um lugar melhor e mais feliz, se algumas pessoas apenas desenvolvessem um senso de humor e relaxassem.

E como resposta a toda essa repercussão, Cho fez isso:

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E não parou mais!

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Mas e se Milo Manara e Frank Cho se juntassem?

Isso aconteceu ontem, num festival de artes de quadrinhos e jogos em Lucca, na Itália. Eles deram uma entrevista e uma palestra conjuntas, cujo tema principal era justamente as mulheres:

Frank Cho, Milo Manara e mulheres – um diálogo entre dois mestres.

Frank Cho é capaz, como poucos outros artistas, de evocar a figura feminina, a qual dedicou grande parte de sua carreira. O público italiano vai discutir sua perspectiva sobre as mulheres e os quadrinhos que as retratam a partir de sua série Liberty Meadows.

No evento, Manara deu um presente especial para Cho, que levou o auditório a loucura, em agradecimento pelo apoio na luta contra a censura:

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Vale lembrar que recentemente a Marvel Comics cancelou uma capa variante de J. Scott Campbell para a revista Invencível Homem de Ferro #1, agora com Riri Williams, a substituta de Tony Stark após Guerra Civil II. A capa foi duramente criticada no Twitter, por retratar uma mulher negra, com 15 anos, de forma sexualizada:

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E para fechar essa história, que está rendendo e vai render muito ainda, deixo as seguintes questões:

Ambos os lados não estão exagerando, como tudo hoje em dia, onde tudo ou é preto ou é branco, sem espaço para tons de cinza ou autocrítica?

Não está havendo um pouco de hipocrisia e contradição, ao se defender o protagonismo e a liberação feminina, para depois pedir mais pudor na hora de retratá-las, seja em qual mídia for?

Essas pessoas, que estão reclamando tanto, são o público consumidor desses quadrinhos? Se sim, talvez não fosse a hora de mudar?

Só sei que essa discussão está longe de ter um final feliz e os dois lados dela já começaram a passar dos limites:

CHO-ARANHA
CHO-ARANHA, BY ANA KOEHLER
MANARA-ARANHA
MANARA-ARANHA, BY ANA KOEHLER

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