mooshadow

Olha só, faz muito tempo que eu li essa hq e tô enrolando pra relê-lá e resenhá-la pro BdE mas o nosso leitor Robin Hood acabou se adiantando e passando na frente desse velho cão. Então se liguem na resenha de uma das obras mais marcantes dos anos 80.

Os anos 80, para quem os viveu, foram inesquecíveis. Era uma época em que os machos eram machos e os homossexuais, mais machos ainda… porque só sendo muito macho pra sair do armário naquela época, sabendo que poderia ser linchado na esquina pelo simples fato de ser um cara legal e deixar todas as menininhas para os héteros de plantão fazerem a festa. Mas essa faceta nobre e abnegada dos Ckreed de plantão era completamente incompreendida na época (se bem que até hoje isso não mudou muita coisa). A maioria dos leitores do blog sequer sonhava ainda em nascer. Aliás, suas próprias mães sequer sonhavam que vocês iriam nascer e, se sonhassem, iriam fazer campanha dia e noite pelo direito sagrado de fazerem aborto (Nota do Sorg: gratuÍto mas totalmente verdade).

No Brasil, as rádios tocavam uma infinidade de bandas com nomes esquisitos mas com som de qualidade, tais como Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, João Penca e seus Miquinhos Amestrados, Biquíni Cavadão, RPM, Camisa de Vênus, Ira, Legião Urbana e muito mais. A inflação era galopante e o acesso a notícias e informações do exterior, passível de censura.  Muitas obras artísticas não chegaram ao nosso país senão muito mais tarde do que quando foram originalmente lançadas, mas pelo menos em relação à nona arte foi possível acompanhar, quase ao mesmo tempo, o que de melhor estava sendo lançado lá fora.

Moonshadow e seu pai

Recomendação do Sorg

Em 1986 foram lançados nos States (e, na terra do então – ai Jesuis, cada coisa que a gente teve que aguentar – Presidente Sarney, em 87), quase ao mesmo tempo, The Dark Knight, obra máxima de Frank Miller e Watchmen, supra sumo de Alan Moore, além de Maus, de Art Spielgeman. Sandman sairia em 88 e, alguns anos antes, os leitores puderam acompanhar a saga da Fênix negra de Chris Claremont e John Byrne, Camelot 3000 de Mike W. Barr e eu nem mencionei ainda Crise nas Infinitas Terras de Wolfman e Perez (se você não leu alguma delas, não se preocupe, eu tenho uma gravata que dá certinho pra você se pendurar pelo pescoço no primeiro galho em que encontrar).

Com tantas obras que mais tarde virariam clássicos acontecendo ao mesmo tempo, algumas pérolas do período ficam semi-esquecidas quando se faz um compilado do que de melhor foi lançado naquela época. Esse certamente é o caso de Moonshadow. No entanto, apesar de menos conhecida, a mesma não deixa nada a dever em qualidade para os seus irmãos mais famosos. Além disso, apesar de ser da década de 80, no Brasil só foi lançada no começo dos anos 90.

Quem já leu Stardust, de Neil Gaiman vai achar semelhanças no tom idílico e fantástico da obra. Lançada nos Estados Unidos originalmente em entre os anos de 1985 e 1987, Moonshadow conta a história de um menino cuja mãe foi sequestrada e engravidada por um alienígena (cujo corpo é um globo brilhante com uma cara no meio), dando origem ao personagem título.

Moonshadow2

Ambientada com uma mistura de conto de fadas, drama e ficção, misturado com questões filosóficas, individuais e religiosas, Moonshadow foi escrita por J. M. Dematteis, o mesmo escritor que, anos mais tarde, junto com Keith Giffen, viria a escrever uma das melhores fases da liga da Justiça (se você não leu isso também, fica tranquilo, porque tenho gravatas para todos) e maravilhosamente ilustrada por Jon J. Muth, Kent Willians e George Pratt e foi a primeira história totalmente pintada publicada como quadrinhos. O texto é relatado pelo próprio MoonShadow, já velho, contando suas viagens pelo universo após a morte da sua mãe quando estava com 15 anos, junto com seu gato Frodo (que fora sequestrada junto com ela) e seu amigo, o alienígena Ira. Esse personagem, aliás, merece uma citação a parte. Mesquinho, folgado, irritante, pornográfico e oportunista, Ira é um dos melhores coadjuvantes já feitos para os quadrinhos, muito antes dos anti-heróis virarem modinha.

Ira

Apesar de ser uma obra que perdeu um pouco de sua força original, pois muitos de seus conceitos e estilo literário acabaram sendo copiados e explorados por outros autores menos talentosos (dando um ar de já-vi-isso-antes-em-algum-lugar pra quem for ler agora), Moonshadow é uma daquelas obras que, quando você já estiver de saco cheio de quadrinhos e sua mulher te incomodando o dia inteiro pra se livrar daquele monte de tranqueiras que ficam mofando no seu armário, ainda assim vai guardar num cantinho para mostrar pros seus filhos e falar sobre um tempo em que os autores tinham liberdade para escrever grandes histórias e os superiores da vida seriam apenas pesadelos improváveis de um futuro apocalíptico.

Moonshadow3

PS do Sorg: Vou aproveitar o texto do nosso caro leitor e meter aqui (ui) meu pitacos acerca da obra que pretendia resenhar.

Moonshadow foi uma ideia de quase 10 anos de DeMatteis. Durante esse período, ele recriou, mexeu em contextos já definidos e quase mudou a série toda. Uma das coisas que ele queria fazer era que o protagonista tivesse poderes e, originalmente, ela se chamava Stardust.

O autor chegou a desistir do projeto mas resolveu por fim publicá-lo quando obras mais autorais como Camelot 3000 começaram a sair. Karen Berger, ex editora da DC e criadora do selo Vertigo foi uma das entusiastas que colocaram pilha em DeMatteis para que ele parasse de putice enfim publicasse a obra. DeMatteis chegou a negociar com Berger para publicar a série na DC mas, conversando com Jim Shooter (editor chefe) a respeito do término do seu contrato com a Marvel, o mesmo ofereceu ao autor a publicação da maxi série caso ele renovasse seu contrato com a editora.

Nada tira da minha cabeça que Moonshadow é uma obra mezzo biográfica. Carregada de lirismo quase palpável, a obra tem questionamentos a respeito de religião, filosofia e a vida per se que são muito pessoais. Enfim, recomendo pacaraio dicunforça essa obra.

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