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Capitão Nascimento agora joga com as brancas

Então, nobres bacharéis leitores desse amado blog, acho que é unânime que o surgimento da Netflix foi praticamente uma revolução no consumo de conteúdo audiovisual, um canal via internet, barato, sem comerciais e com uma imensidão de títulos a sua disposição, que você pode ver o quanto quiser, na hora que quiser, da forma que quiser, com som original ou dublado, dando ao telespectador uma liberdade no consumo de conteúdo como nunca houve antes. Mas além dessas virtudes, é perceptível que há por parte da Netflix um desejo de ter uma linguagem própria, de se destacar da vala comum que hoje assola os grandes e tradicionais  grupos de comunicação, algo semelhante ao que faz a HBO com sucesso há alguns anos  (embora seja uma ramificação do grupo Time Warner).

E nesse caminho de ter uma linguagem própria, mais autoral e audaciosa do que se costuma fazer na tradicional mídia televisiva, a Netflix deu mais um passo adiante com Narcos, a série que retrata a vida do maior traficante de drogas de todos os tempos, um criminoso que sonhou governar um país inteiro.

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Recomendação do Sorg

Padilha, Wagner Moura, André Nascimento, essa “galerinha do barulho que apronta altas confusões” já nos é velha conhecida. Capitão Nascimento é um personagem inesquecível da filmografia nacional e José Padilha, um diretor de fama internacional, não só por Tropa de Elite e Ônibus 174 como também pelo hollywoodiano Robocop. E mesmo dirigindo filmes engessados a interesses de mega estúdios  como um blockbuster, Padilha consegue imprimir sua marca, sua visões de mundo e estética e sua forma própria de contar uma história.Então como seria a união entre o autoral Padilha e a ‘libertária’ Netflix? Seria Narcos.

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Pablo Emilio Escobar Gaviria não foi só um traficante, não foi só um criminoso, foi mais, ele ambicionou mais. Vindo de família pobre e vivendo de pequenos golpes em uma favela, rapidamente Escobar ganhou fama e dinheiro como contrabandista. Perfumes, cigarros, eletrônicos, tudo que pudesse burlar a alfândega e ser vendido no mercado paralelo de Medellín passava por suas mãos. Até que um dia um fugitivo da polícia chilena chegou à Colômbia e ofereceu a Pablo um produto natural que, refinado e vendido nos mercados certos, daria a ele uma margem de lucro absurdamente alta. E aí começa a saga.

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O realismo fantástico da literatura colombiana, retratada por Gabriel Garcia Marquéz serve bem para explicar a saga de um homem que veio da miséria para se tornar um dos homens mais ricos do mundo. Traficante, assassino, contrabandista, terrorista, deputado federal, ele foi tudo isso, mas queria mais, algo impensável em qualquer outro lugar do mundo, mas que para nós latinos é algo até fácil de entender, esse realismo fantástico que transforma pessoas comuns em mitos é da nossa tradição e Escobar queria mesmo era governar o país, ser aceito pelas elites e amado pelos pobres e para isso ele dava a todos duas opções: plata o plomo (dinheiro ou chumbo). A série então mostra a ascensão desse homem, sem resvalar nas saídas fáceis de satanizar ou endeusar a figura humana, tentando passar as diversas matizes que o compunham. Pablo Escobar ao mesmo tempo que construiu e manteve funcionando hospitais e creches gratuitos para os mais pobres, também ordenou um ataque terrorista que explodiu um avião comercial em pleno voo e matou 107 pessoas. A série tem a coragem de mostrar todas essas facetas e deixar eventuais julgamentos para o espectador.

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Da direção de Padilha, só elogios. A câmera rápida nas cenas de ação, a violência gráfica e visceral, os planos e tomadas espertas, a forma dele de contar a história, todo o seu talento está lá de forma impecável. Das enormes favelas de Medellín, só se consegue ter uma noção de tamanho em tomadas aéreas; nas cenas dentro da Amazônia colombiana fica perceptível a intenção de mostrar um ambiente úmido, sufocante; nas cenas de assassinatos, nenhum pudor em mostrar os buracos de balas em corpos estendidos nas ruas (até porque isso era uma constante nos tempos de atuação do Cartel). Padilha não economiza, nem em recursos técnicos, nem em recursos de estilo. Ele esbanja ambos para mostrar o que de melhor sabe fazer.

Das atuações também nenhuma restrição, pelo contrário. Wager Moura convence como Pablo Escobar, foi até elogiado nos países de língua espanhola, embora não tenha conseguido expressar com perfeição o sotaque da região de Antioquia, onde Escobar nasceu, mas aí também já seria querer muito. A atuação dele ajuda a fugir das saídas fáceis de tornar o personagem raso como um vilão ou um ‘herói do povo’. Wagner Moura construiu um Pablo Escobar que pode ser tanto amoroso quanto implacável, terno e também frio, extremamente cruel e sanguinário e também preocupado com sua gente, humano e também desumano. Outro brasileiro na série é André Nascimento, que fez o deputado apresentador do programa policial em Tropa de Elite 2; e Pedro Pascal, chileno que fez a Víbora Vermelha de Dorne, na quarta temporada de Game of Thrones. O restante do elenco pode ser pouco conhecido do público brasileiro, mas foi bem competente em seus papéis, principalmente Juan Pablo Raba, que faz Gustavo Escobar, primo e braço direito de Pablo, e Stephanie Sigman, que faz Valeria Velez, jornalista e amante de Escobar.

Adivinha quem é?
Adivinha quem é?

E para terminar uma coisa que deixa a série ainda mais interessante: ela é praticamente documental, embora não seja um documentário. A maioria dos personagens da série existiu na vida real. Os outros integrantes do cartel, os presidentes colombianos, os agentes do Departamento Anti-Drogas Americano (DEA) que conduzem a narrativa da série, todos são pessoas que existiram realmente. Os fatos narrados em sua maioria também são verídicos, como o atentado a bomba no avião, a invasão ao Palácio de Justiça (onde metade dos juízes da Suprema Corte colombiana foi assassinada), tudo está lá. E, como que para mostrar que, apesar de parecer pura ficção, foi real, Padilha enxerta em alguns momentos imagens de época, cenas de uma realidade fantástica e ao mesmo tempo terrível.

E, pelo final da série, fica claro que teremos uma segunda temporada.

Imperdível.

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