vertigo

Coleção da Vertigo da Ed. Abril

E, sentando em um pub qualquer, eu olho para frente e vejo um sujeito usando um sobretudo e bebendo um pint de cerveja. Ele olha para mim e pisca um olho enquanto sua boca se abre em um sorriso.

Alan Moore

Na década de 90, eu e minha família residíamos na cidade de Franca, localizada no interior paulista. Minha mãe estava às vias de se aposentar e meu pai obtinha renda através de uma banca de jornal. Nesse época, eu lia absolutamente tudo de quadrinhos que conseguia colocar minhas mãos. A internet era um sonho distante, scans nem pensavam em existir e, por morar em uma cidade do interior do estado, estava a mercê da maldita distribuição da Dinap. Quem reclama da distribuição setorizada hoje não fazia ideia de como era o trabalho da Dinap.

Enfim, o mercado de HQs era dominado pela Editora Abril e seus famigerados formatinhos. Eu consumia TUDO que chegava em Franca e isso se resumia basicamente a Marvel e DC. Porém, vez ou outra eu encontrava em sebos algumas edições de HQs diferentes publicada pelo Globo ou por editoras menores. Eu ficava maluco quando encontrava algum gibi em formato americano ou magazine. Porém, por volta de 1994, começou a aparecer uma propaganda peculiar nas revistada Marvel / DC da Abril.

Recomendação do Sorg

Um homem com um zíper na cabeça. O mesmo abria o zíper e serpentes ameaçadoras saíam de sua mente. Vertigo: Para leitores adultos ou alguma coisa assim dizia a propaganda. Formatão, histórias de terror fodaspracarai diziam meus colegas que foram afortunados o bastante para colocar suas juvenis mãos em um exemplar. Aquilo me deixava maluco e eu sepava obsessivamente uma parte do meu salário para comprar essa revista. Mas, só tinha um problema: SAPORRA NÃO ERA DISTRIBUÍDA PARA A CIDADE QUE EU MORAVA. Meu pai viaja à São Paulo a trabalho poucas vezes, não tinha como comprar pela internet (interhã?) e solicitar através da distribuidora era tão burocrático que era mais fácil eu ir a pé para a capital.

Mas, sei lá porque cargas d’água, um dia qualquer, em um carregamento de revistas qualquer, aparece, do nada, Vertigo n°05. Acho que enchi tanto o saco do meu pai e ele, por sua vez, encheu tanto o saco da distribuidora (não sei se foi isso que aconteceu, não lembro muito bem) só sei que meu Santo Graal da época apareceu em na minha frente.

(Forçando um pouco a memória, eu me lembro que a distribuição era tão aleatória para certas publicações que vira e mexe aparecia números soltos de algumas revistas. Foi assim que consegui minhas primeiras Heavy Metal, Druuna, Ranxerox, etc. Segue o baile).

Pulei na prateleira e agarrei a HQ. Aquela capa maravilhosa (que, penso eu, é obra de Dave McKean), aqueles dizeres Edição Especial com Hellblazer, o homem que desafia o demônio, aquele título vermelho VERTIGO… foi amor a primeira vista. Foi com essa edição que entrei em contato com John Constantine pela primeira vez e que me vez entrar de cabeça em um mundo cheio de sangue, seres infernais, acordos macabros e finais nem um pouco felizes, onde as pessoas pagavam pelos seus pecados e nem sempre o super herói colorido ganhava no final.

A edição continha três histórias do mago inglês, duas escritas pelo fantástico Garth Ennis e uma de autoria de Jamie Delano:

  • O Senhor da Dança: Garth Ennis / Steve Dillon, é uma história OK e nada demais. Constantine se encontra com um ancestral deus pagão na véspera do Natal.
  • Newcastle: Jamie Delano / Richard Piers Rayner e Mark Buckingham: a maldita noite em Newcastle onde tudo da merda e que assombrou Constantine durante o resto de sua existência. Já disse isso aqui uma vez: respeito Jamie Delano por tudo que criou em Hellblazer e acho algumas de suas ideias sensacionais mas a forma como ele desenvolve seu roteiro é por demais sacal. Céu cinzento sangrando amargura num vento azedado pelo odor de ferrugem. Como um velho elefante, estou de volta ao lugar de morrer. Porra, haja paciência.
  • A Confissão: Garth Ennis / Steve Dillon. De longe, uma das minhas histórias preferidas de toda a cronologia de Hellblazer. John reencontra um velho padre que tentou abusar sexualmente dele na adolescência. Por fim, ele descobre que o sacerdote passou anos no manicômio ouvindo diariamente a confissão dos pecados de Lúcifer.

A Confissão me deixou embasbacado. Li, reli e ainda releio essa história por vários anos e ela continua sendo perturbadora como a primeira vez.

Nos meses seguintes, as outras edições começaram a aparecer na banca do meu pai, assim como as 4 primeiras. Infelizmente, a publicação morreu no número 12 e eu passei um bom tempo órfão de histórias do velho mago assim como de algo fora dos colantes coloridos. Mas, por fim, consegui outros meios de adquirir mais coisas do selo Vertigo mas isso fica para a próxima.

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