O Povo Esquecido

Capítulo Segundo: Gênese.

Sam encheu o copo do homem do outro lado do balcão. Havia algo de estranho na voz dele… não. Não era na sua voz… era na forma de falar. As palavras fluíam dele de maneira pausada e suave. Era fácil de entender o que ele queria dizer.
Atendeu mais um cliente que pediu a conta, pagou e foi embora. Levou mais uma garrafa de vinho para o casal da mesa do fundo e depois se sentou em frente ao forasteiro.
– E então? – perguntou Sam.
– Estou pronto. E você?
– Eu também.
O forasteiro levou o copo até a boca e deu um longo gole. Deixou que o gosto da bebida e o álcool penetrassem lentamente em seu corpo e fechou os olhos.
Sam olhava para ele. Parecia que se concentrava. Ficou assim durante alguns segundos e depois, vagarosamente, abriu os olhos. Tomou mais um gole e então começou.
– Tudo começou com o ser humano. A evolução fez com que essa espécie se destacasse das demais, mas eram ainda bastante primitivos e irracionais. Agiam baseado no seu instinto de auto-preservação e sobrevivência. Com o tempo, eles começaram a se organizar e a se reunirem em grupos para assegurarem a sua sobrevivência. Ali, começaria o que tornaria aqueles seres diferentes de todos os outros: a capacidade de pensar. Eles começaram a desenvolver inteligência em um nível bem básico e foi nesse momento que o conceito de divindade surgiu, antes mesmo da própria fala ou escrita.
Sam absorvia tudo. O forasteiro parecia ser uma pessoa muito bem informada e que estudara tudo aquilo que dizia. Por isso, falava com tanta autoridade e propriedade. Além disso, havia um magnetismo nele que cativara a atenção de Sam.
– Aqueles seres primitivos notaram que, algumas vezes, a caçada não era bem-sucedida, que o tempo mudava constantemente e que haviam forças invisíveis que, de alguma maneira, controlavam e moldavam os eventos. E então… e então, vieram os deuses. Preciso ir ao banheiro. – disse o forasteiro.
Sam apontou para a pequena porta no lado direito. O forasteiro se levantou e foi na direção indicada.
O que ele quis dizer com “e então vieram os deuses”? Que o homem primitivo criou esses deuses? Ele já ouvira falar nessa teoria, mas não conseguiu lembrar como se chamava.
Sam atendeu mais um freguês e sentou-se esperando o forasteiro voltar. Era cedo e faltava ainda bastante tempo até encerrar o expediente. Ele imaginava onde o forasteiro queria chegar com aquela história sobre deuses.
O forasteiro voltou e Sam abasteceu o seu copo com outra dose generosa.
Ele bebeu mais um gole e ficou alguns instantes em silêncio.
– O que você quis dizer com “e então vieram os deuses”?
– Vou tentar explicar de maneira simples. Aqueles seres primitivos perceberam que alguma força misteriosa regia tudo. E, estando à mercê dessas forças desconhecidas, eles, de alguma maneira, deram primeiro forma e depois nome para elas. Eles as desenharam nas paredes das cavernas e lhes faziam sacrifícios e oferendas. Mais tarde, criaram imagens e esculturas para representá-los.
– Então, segundo a sua teoria… o homem criou Deus? – perguntou Sam, incrédulo.
– É uma teoria… e não é minha. Existem milhares delas por aí.
– Sei… mas e o que você acha, forasteiro?
– Bem… na minha opinião, o ser humano deu forma e nome à uma força primitiva que já existia. É como pegar o barro e fazer uma escultura. O barro já existia em seu estado bruto, não é? Então, um ser com conhecimento superior o pega, o molda e o transforma em algo completamente diferente… entendeu?
– Faz sentido – respondeu Sam.
– O ser humano vai passar a sua existência formando teorias e buscando respostas para essas questões: quem é, de onde veio e para onde vai… e se esquece do que é realmente importante.
– E o que seria?
– Algo que também busco… mas isto é para mais tarde, quando chegar a minha parte na história, certo?
– Ok. – respondeu Sam.
– Bem os seres primitivos criaram essas divindades… e havia muitas delas. Eram deuses da caça, das plantações, das chuvas, de fertilidade… havia deuses para praticamente tudo. Com o ser humano ainda evoluindo e se espalhando cada vez mais pelo planeta, mais e mais deuses eram constantemente criados e consequentemente esquecidos… afinal, eles se alimentavam de crença e adoração e existiam, porque os seus adoradores acreditavam nisso. Quando eram esquecidos, eles desapareciam… eram descriados.
Mais um freguês pedindo uma bebida, mais uma dose no copo do forasteiro. A garrafa ficou no balcão e a história prosseguiu.
– Um grupo desses deuses percebeu o que acontecia e decidiram garantir meios para que não fossem erradicados. Fariam isso enquanto ainda eram fortes e necessários. Valendo-se de cada partícula de crença e poder acumulado, eles pegaram aqueles seres primitivos – o vil barro – e moldaram uma raça mais aperfeiçoada. Esses seres garantiriam que a sua presença e influência fossem disseminadas pelo mundo. Dessa maneira, eles jamais seriam esquecidos e consequentemente descriados.
Sam imaginou de onde o forasteiro tirava todas aquelas idéias. Parecia tão lógico com ele explicando… mas era tudo muito surreal. Homens criando deuses… deuses criando homens.
– Essa nova espécie foi criada em pouca quantidade e distribuída pelo mundo com a função de guiar a humanidade primitiva e propagar a crença nas divindades anciãs. Não podiam se reproduzir e nem morrer. Eram dotados de grande inteligência e capacidades extraordinárias. A história está repleta de relatos desse povo, a quem eu chamo de “O Povo Esquecido”.
– Epa! Peraí… como é que eu nunca li ou ouvi nada sobre isso? – perguntou Sam.
– É claro que já! Quem nunca ouviu falar na Atlântida, Avalon, Shangri-lá, o Eldorado… civilizações avançadíssimas que existiram em uma era remota e que possuíam conhecimentos muito avançados para a sua época? Os relatos sobre esses povos sobreviveram através dos tempos, além das lendas e dos mitos.
Os olhos do forasteiro brilhavam… era como o brilho inconstante de uma estrela distante. Por algum motivo, um pensamento se formou na mente de Sam: estrelas que brilham bilhões de anos, mesmo após o fim de sua existência.
Uma batida no balcão retirou Sam de seus devaneios. Era um cliente pedindo para encerrar sua conta. Ele foi atender e quando voltou o forasteiro não estava mais lá.
Olhou ao redor e não o viu. Será que havia ido embora?
Ele viu a porta do banheiro se abrir devagar. O forasteiro fechava o zíper da calça.
– Fui tirar água do joelho… onde estávamos mesmo?

Fim do Capítulo segundo.

D.C.F. aka Gruut 07,08/07/2008-00:08

Recomendação do Sorg

N.D.A.: Essa é a segunda parte do conto O Povo Esquecido, uma história dividida em quatro partes e que foi escrita há mais de oito anos atrás. Espero que tenham gostado. Até o próximo capítulo.

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