O Povo Esquecido – Parte 3 de 4

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O Povo Esquecido

Capítulo Terceiro: Origens.

O forasteiro sentou-se no banco. Ainda havia um resto de bebida no seu copo. Ele pediu para Sam jogar a bebida fora e trocar o copo por outro limpo.
Sam pegou o copo e foi para a pequena pia com o lavador de copos que havia atrás do balcão. Enquanto lavava o copo, pensava na história que o forasteiro lhe contava e se descobriu ansioso por ouvir mais. Era com toda a certeza algo fantástico demais para ser verdade, mas, mesmo sabendo disso, Sam queria ouvir mais. Ele colocou o copo limpo em cima do balcão, pegou a garrafa e serviu outra dose reforçada.
O forasteiro agradeceu, levou o copo aos lábios e deu um pequeno gole.
– Eu já te contei como os seres humanos primitivos criaram as suas divindades e da maneira como essas divindades procederam para assegurar que elas não fossem esquecidas e desaparecessem, correto?
Sam concordou com um aceno de cabeça.
– Esses seres que as divindades criaram eram dotados de grandes capacidades físicas e mentais. Eles foram distribuídos pelo planeta, fundaram cidades avançadíssimas e disseminaram a existência dos deuses. Durante um tempo, o plano dos deuses funcionou e sua presença se tornou conhecida e cultuada nas diversas civilizações. Mas, após algum tempo, algo inesperado aconteceu: o ser primitivo continuou a evoluir e desenvolveu capacidade de raciocínio mais apurada. Com isso, ele inventou a linguagem, a cultura e a ciência. A fé e a religião ainda eram fortes, mas o homem passou cada vez mais a buscar explicações para os fenômenos da natureza e então a humanidade foi aos poucos deixando as suas crenças nos deuses de lado, em prol da ciência e das novas descobertas.
O forasteiro tomou mais um gole da bebida e deu um longo suspiro. Ficou em silêncio por alguns segundos e depois continuou:
– Os deuses não foram afetados imediatamente, pois ainda possuíam adoradores no mundo e se valiam de eras de adoração e poder acumulado, mas o inevitável aconteceu: alguns deles começaram a enfraquecer, pois o ser humano, ainda continuava a criar novas divindades e se ocupavam cada vez mais na sua busca por respostas e auto-conhecimento. Dos panteões primordiais, que se uniram para garantir os meios para a sua sobrevivência, um terço sucumbiu. Os povos que os criaram e cultuavam desapareceram da face da Terra e aos poucos, sua influência era menos sentida até se perderem nas areias do tempo.
O forasteiro soltou desta vez um longo suspiro e balançava a cabeça levemente, como se lamentasse por algo. Tinha o olhar vago e distante. Ficou assim durante algum tempo.
Um homem entrou no bar, foi direto ao balcão e pediu um maço de cigarros. Sam foi atendê-lo. O homem pagou e foi embora. Ele voltou e se sentou na frente do forasteiro, que ainda permanecia perdido em seus pensamentos.
– Você está bem? – perguntou Sam.
O forasteiro olhou para ele ainda meio distraído. Olhou ao redor como se não se lembrasse de onde estava, mas aos poucos recordou-se de onde estava e o que estava fazendo ali.
– Estou bem, obrigado. Sobre o que falávamos mesmo?
– Você está me contando a história dos deuses… da sua busca por eles e pelo tal povo que foi esquecido.
– Ah, sim… agora me lembro. Bem… aquele povo, que foi criado com o único propósito de difundir a existência dos deuses, pensava ser imortal, mas quando os seus criadores foram aos poucos definhando e desaparecendo, levavam junto com eles as suas criações.- Quer dizer que, do mesmo jeito que os deuses desapareceram, quando seus criadores sumiram, o mesmo acontecia com as suas criações?- Isso mesmo. – respondeu o forasteiro, enquanto tomava mais um gole.

– Isso explica por que não se encontram vestígios arqueológicos e históricos desses povos. Eles desapareceram junto com seus criadores, mas deixaram vestígios de sua existência através dos povos primitivos que tiveram contato com eles e aprenderam o que a sua limitada capacidade os permitiu aprender. Desse contato, veio o conhecimento de engenharia que permitiu construções mais avançadas, ciências tais como a astronomia e muitas outras coisas.

– Então… se eu entendi direito, estes seres, que deveriam garantir a sobrevivência da crença nos deuses, foram, de alguma maneira, responsáveis por tudo aquilo que viria a, como você disse… descriá-los?
– Sim… foi isso que aconteceu. Eles cumpriram o propósito para o qual foram criados. Mas os deuses não contavam que o homem desenvolvesse o livre-arbítrio… e isso foi a sua ruína.
Sam pensou naquilo que o forasteiro estava lhe contando e, mesmo que fosse só uma história, fazia algum sentido.
– Quase todos os povos e civilizações antigas têm histórias parecidas, Sam. Todos eles têm construções e conhecimentos tão avançados para o seu tempo, que parecem impossíveis de terem sido fruto apenas de seus próprios esforços – disse o forasteiro, como se adivinhasse os pensamentos de Sam.
Sam estava assombrado. Aquilo não parecia ser só uma história. Tudo o que o forasteiro falava tinha lógica. Quem seria ele? Algum cientista? Algum arqueólogo ou historiador? Aquele homem possuía muito conhecimento para ser apenas alguém interessado… foi então que ele se lembrou de algo que o forasteiro havia dito.
– Olha… você disse que ia me contar uma história. E me disse que, de uma parte dessa história, você fazia parte, não foi?
– Sim… foi o que eu disse.
– Então, qual é a sua parte na história? – perguntou Sam ansioso.
O forasteiro levou o copo à boca e o virou, bebendo todo o seu conteúdo de uma só vez. Pensou na loucura que havia cometido ao contar tudo aquilo para um estranho, que obviamente não acreditava em nada do que ele havia dito, mas ele já havia ido longe demais e agora não havia mais volta e que mal isso faria? Ele estivera naquela região há muito tempo, para que alguém pudesse se lembrar dele e não passaria por ali novamente nos próximos anos. Ele pediu para Sam encher o seu copo novamente e ele obedeceu.
– Muito bem… você quer saber qual é a minha parte na história, não é?
– Sim.
O forasteiro levou o copo a boca, mas não bebeu. Pôs o copo novamente em cima do balcão e olhou fixamente para o homem do outro lado do balcão. Percebeu que não poderia parar agora, mesmo que quisesse. Respirou fundo e, quando falou, sua voz parecia cansada:
– Sam, eu faço parte daquele povo… daquele povo que foi esquecido por tudo e por todos.

Fim do Capítulo Terceiro.

D. C. F. aka Gruut – 10,11/07+05/09/2008

N.D.A.: E chegamos a terceira parte deste conto que escrevi há mais de oito anos. Na próxima edição, o capítulo final e o desfecho da história. Até lá então.

Caso você tenha chegado aqui agora e queira ler os capítulos anteriores, eis os links: Parte 1 / Parte 2.

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