Capítulo Quarto: Legado.

Enquanto atendia outro freguês, Sam olhava para o forasteiro, que bebericava a sua bebida tranquilamente do outro lado do balcão.
As palavras dele ainda ecoavam em sua cabeça: – “Eu, Sam, faço parte daquele povo… que foi esquecido por tudo e por todos”. O que ele queria dizer com aquilo?
A história até então, havia sido fantástica. O forasteiro possuía uma eloquência extraordinária e narrava tudo de maneira convincente, mas aquilo tudo já estava indo muito além de uma simples história para ajudar a passar o tempo.
Sam pensou nos Deuses, pensou nas criaturas que, segundo o forasteiro, deveriam difundir a existência daquelas divindades no mundo e que, de alguma forma, seriam, direta ou indiretamente, responsáveis tanto pela acessão, quanto pela queda dos seus criadores.
Sam havia dito a verdade para o forasteiro. Realmente ele já havia escutado muitas histórias estranhas por detrás do balcão. Mas aquela… aquela batia todos os recordes.
Seria o forasteiro louco? Mas as coisas de que ele falava mostravam que ele possuía um conhecimento muito superior ao de pessoas normais.
“Conhecimento e loucura andam de mãos dadas.” – pensou Sam. Não diziam que todos os sábios eram loucos? Ali poderia estar uma bela prova dessa teoria.
O forasteiro olhava para Sam pelo canto dos olhos. Imaginou todas as coisas que deveriam estar passando pela sua cabeça naquele momento. Com certeza, loucura seria a teoria eleita por ele para explicar o seu caso. E que outra haveria? Ele mesmo não pensaria assim se a situação se invertesse?
Sam voltou lentamente para o seu lugar no balcão. Mais duas horas e ele teria de fechar o bar, mas estava ansioso demais para escutar o fim da história.
– E então, vai mais uma dose? – perguntou Sam.
– Sim. – respondeu o forasteiro – Minha última dose nesta noite, pois, em breve, deverei partir.
Sam caprichou na dose. Fechou a garrafa e passou os olhos pelo salão. Havia poucas pessoas que, com certeza, logo iriam embora.
– E então, ainda quer escutar o resto da minha história?
– Sim.
– Então vamos lá… como eu disse, estou empenhado numa busca. Uma busca por Deuses há muito esquecidos e pelos seres que foram criados por eles, para garantir a sua própria continuidade.
– O tal povo esquecido, certo? – disse Sam.
– Isso mesmo… o povo esquecido.
– Do qual você diz ser membro.
– Sim… fomos criados por esses deuses para mostrar a humanidade a sua importância e necessidade e cumprimos bem o propósito para o qual fomos concebidos. Ajudamos no desenvolvimento da sua espécie. E então, o ser humano adquiriu inteligência, livre arbítrio e se distanciou dos seus criadores.
O forasteiro deu mais um gole em sua bebida e ficou calado por um tempo, olhando para algum lugar imaginário. De repente, novamente piscou os olhos e olhou ao redor como se não soubesse aonde estava, mas isso durou poucos instantes, pois ele logo retomou a sua narrativa:
– Foi um tempo bom no início… a nossa criação despendeu muita energia dos deuses e eles levaram algum tempo para se recuperarem. Fomos distribuídos pelo mundo e fizemos o nosso trabalho. Como eu disse, foram bons tempos, mas a humanidade se desenvolveu depressa demais… com o advento da ciência e a busca da explicação para os fenômenos da natureza, o ser humano se distanciou dos deuses. Muitas divindades desapareceram a medida que os povos que as cultuavam desapareciam. Novos deuses surgiam da noite para o dia e eram esquecidos com a mesma rapidez com a qual eram criados.
O forasteiro deu um longo suspiro e um longo gole. E continuou:
– Aconteceu algo que os deuses não haviam previsto: assim como eles desapareciam, quando deixavam de ser cultuados e finalmente esquecidos, o mesmo acontecia com as suas criações. Com isso a sua influência diminua cada vez mais no mundo e eles se tornavam fracos. Restava muito pouco do meu povo e os deuses não podiam despender a pouca energia que lhes restava para criarem mais de nós. Então, eles nos abandonaram à nossa própria sorte e se ocuparam de procurar outras maneiras para assegurarem a sua sobrevivência.
– E conseguiram? – perguntou Sam.
– Não sei… eles literalmente nos abandonaram.
– Você disse que estava à procura desse povo… da sua gente. Perdeu contato com eles?
– Sim… restou muito pouco de nós. Encontrei alguém certa vez… uma mulher do meu povo. Passamos algum tempo juntos, mas… mas com o passar do tempo, ela foi esquecendo do que e de quem era até que um dia desapareceu diante dos meus olhos.
O forasteiro ficou em silêncio. Sam respeitou o momento. Podia ser só uma história fruto da loucura ou da desilusão, mas o pesar demonstrado ali era genuíno.
– Você está bem? – perguntou Sam.
– Estou… obrigado. Me desculpe.
– Tudo bem.
Os três últimos fregueses pediram para encerrar a conta. Sam foi atendê-los. O forasteiro ficou sozinho com o seu copo no balcão. Quando Sam voltou, ele pediu para que ele fizesse a sua conta. Sam pegou o bloco de notas e sentiu um arrepio atravessar o seu corpo. A noite estava ficando repentinamente fria.
– Aqui está. – disse Sam.
O forasteiro olhou para o valor anotado, tirou uma nota do bolso de sua camisa e colocou em cima da conta.
– Fique com o troco. – disse sorrindo.
– Obrigado. E obrigado pela história… as noites costumam ser bem monótonas no final do expediente. A sua história foi muito… interessante. Obrigado.
– Não por isso. Boa noite.
– Boa noite. – respondeu Sam, enquanto observava o forasteiro se dirigir à porta. Quando ele estava prestes a atravessá-la, Sam sentiu algo se agitando dentro dele. Era um impulso incontrolável… uma loucura, mas ele tinha que perguntar:
– Ei… posso te fazer uma última pergunta?
O forasteiro se voltou para ele e respondeu:
– Sim… qual é a sua pergunta?
– Você falou da criação e evolução da humanidade. Falou do seu povo e tudo mais… mas e os seu criadores? Você nunca mais os encontrou?
– Não… nunca mais. – ele se voltou na direção da saída.
– Então… então como você sabe se eles ainda existem ou não?
O forasteiro se voltou para Sam e seu olhar possuía um brilho intenso, quando respondeu:
– Eu ainda estou por aqui, não estou?
E saiu pela porta, rumo à noite fria e escura.

Fim do Capítulo Quarto.

Epílogo primeiro:

Enquanto fechava o último cadeado, Sam pensava no forasteiro. Na sua história, na sua paixão em contá-la, no seu pesar e no brilho dos seus olhos, quando respondeu a sua pergunta, e Sam pensou nos deuses.
Então balançou a cabeça, como que para afastar pensamentos indesejados.
E pensou: “É cada louco que me aparece do outro lado do balcão…” “…o dessa noite supera até o rapaz, que apareceu há algum tempo atrás, falando que havia ajudado a construir as pirâmides no Egito”. Por fim, Sam verificou se os cadeados estavam mesmo trancados e, ao constatar que estavam, se pôs a caminhar pela rua e desapareceu numa curva.

Fim do epílogo primeiro.

Epílogo segundo:

O forasteiro caminha pela noite fria e úmida.
Ele não pertencia a lugar nenhum.
Ele era um forasteiro em qualquer lugar.
Ele foi amaldiçoado pelo legado dos deuses: ser perpétuo, mas não imortal.
Ele carrega consigo um segredo que os seus criadores fizeram questão de esconder de tudo e de todos.

Fim do epílogo segundo.

Um prelúdio:

Aquilo que não foi contado na história:
Em algum lugar, ela está se preparando para entrar no palco para apresentar o seu número de dança.
Ela se recorda de tempos idos, quando cabeças lhe eram oferecidas em altares suntuosos, após batalhas longas, sangrentas e gloriosas.
Agora em seu altar, só lhe era oferecido aquilo que ela conseguia angariar com a sua dança.
De repente, o ar ao seu redor começa a cintilar com pálida intensidade.
Sua pele torna-se mais alva, seus olhos um pouco mais brilhantes e seu corpo adquire curvas mais salientes.
E se nos fosse permitido ouvir os pensamentos de um deus, isso é o que teríamos escutado:
“Então, algum dos nossos filhos perdidos ainda estava contando as suas histórias neste mundo que não tem mais tempo para deuses.”
Alguém bate na porta e grita: “Cinco minutos para você entrar.”
Ela se levanta: pele mais macia, olhar sedutor e corpo sensual.
E, na noite fria e escura, corvos se agitam num vôo frenético e alucinado.

Fim do prelúdio.


D.C.F. aka Gruut – 05/09/2008-23:06
Revisado em 11/09/2008
Reeditado em 31/12/2016

N.D.A.: Olá Enxutos que acompanharam esse conto e tiveram paciência para chegar até o fim da história. Há mais de oito anos, eu escrevi esse conto. A história que imaginei tinha um rumo, mas, a medida que era escrita, tomou outras direções e eu sinceramente gostei do resultado final. Eu pensei até em escrever uma continuação… a deixa seria essa deusa que aparece no prelúdio. Nunca cheguei a escrever essa continuação. Para aqueles que chegaram até aqui, deixo a seguinte pergunta: baseado nesse prelúdo, alguém se arrisca a adivinhar qual seria essa divindade? Deixo essa pergunta no ar junto com mais agradecimentos e votos de um Feliz 2017 a tod@s. Inté ano que vem!!!

Caso você não tenha lido as outras partes desse conto, eis os links: 1, 2, 3.

Comentários Facebook (O DISQUS ESTÁ ATR... LOGO ABAIXO)

Comentários Disqus

BDE1