O Povo Esquecido – Parte 1 de 4

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O Povo Esquecido

Capítulo Primeiro: O Forasteiro.

O homem no canto do balcão estava quieto. Havia pedido o seu último drink há muito tempo.
O movimento estava muito fraco naquela noite. Havia apenas cinco pessoas no bar (contando com o cara do canto do balcão) e Sam decidiu puxar conversa com o sujeito para passar o tempo.
– E então, mais uma dose?
O homem olhou para ele e acenou afirmativamente.
Sam pegou a garrafa e caprichou na dose. O homem agradeceu.
– Posso notar que o senhor não é desta cidade.
– Não sou deste país. – respondeu.
– Bem, você quase não tem sotaque. De onde você é, forasteiro?
O homem pensou na pergunta. De onde ele era? Pergunta difícil, mas simples de responder.
– Eu? Sou de lugar nenhum… já estou há tanto tempo na estrada, que me sinto um forasteiro em qualquer lugar.
– Um viajante então?
– Bem… este também é um bom termo para me definir.
– Deve ser uma vida muito interessante, senhor. Viajar, conhecer lugares e pessoas diferentes.
– Depende do ponto de vista.
– Como assim? – perguntou Sam.
– Depende do motivo da viagem. Se você viaja por escolha ou opção, tudo bem… agora se você viaja por necessidade ou imposição, então a coisa muda de figura.
– E qual é o seu caso?
A mente do homem viajou ao passado e ele se lembrou do começo de tudo. Fazia tanto tempo, mas parecia que tinha sido ontem… todos os detalhes da sua existência passaram pela sua cabeça em poucos segundos. Ele pensou em como responderia e decidiu contar a verdade. Afinal, eles nunca mais se veriam e a sua história era tão fantástica que o homem do outro lado do balcão não acreditaria em uma palavra sequer.
– A segunda opção aplica-se perfeitamente ao meu caso.
– Você não é nenhum tipo de fugitivo ou foragido da lei, não é? – perguntou, olhando desconfiado para o homem do outro lado do balcão.
– Posso lhe assegurar que não.
Um dos fregueses pediu mais uma bebida e Sam foi atendê-lo, enquanto pensava na resposta do homem. Ele parecia muito calmo e falava de maneira educada, mas havia algo de estranho no seu jeito de falar. Sam não sabia o que era.
Depois que atendeu o cliente, voltou para perto do forasteiro. Decidiu continuar a conversa até onde pudesse. Um homem que viaja muito deveria ter muitas histórias para contar. Pegou a garrafa e completou o copo do forasteiro. Puxou um banco e acomodou-se.
– Bem… você dizia que viaja não exatamente por vontade própria, não é?
– Pode-se dizer que sim.
– E por que viaja, então?
– Porque é preciso. Estou numa busca.
– E o que procura, forasteiro?
– Eu procuro pelos deuses.
Sam sorriu. Um homem que procura por Deus. Com certeza, alguém em busca da fé perdida… por isso, ele viajava. Talvez, tivesse que sair do seu país por causa de diferenças religiosas… isso explicava tudo.
– Então, a sua viajem é uma busca religiosa.
– Não exatamente.
– Como assim? Você não acabou de dizer que procurava por Deus?
– Não… você não prestou atenção na minha resposta. Não estou em nenhuma busca religiosa. Não tenho religião e nem fé. Eu estou à procura de deuses.
– De deuses? – perguntou Sam, atônito. – Você… é de alguma daquelas religiões esotéricas que acreditam em vários deuses ou alguma coisa do tipo?
– Não. Eu já disse, não tenho religião ou fé. Sou apenas uma pessoa que busca.
– E com que propósito você procura esses… deuses?
– Bem… você não acreditaria se eu te contasse.
– E por que não?
– Porque é uma história difícil de acreditar. Você, com certeza, vai achar que eu sou louco ou coisa pior.
– Cara, você se surpreenderia com as coisas que a gente escuta detrás de um balcão de bar.
O homem olhou para ele. Com certeza estava atrás de uma boa história para passar o tempo. Pois bem… ele lhe daria uma história.
– Muito bem… eu lhe disse que eu estava em uma busca, não? Na verdade, eu estou em duas buscas. Eu busco os deuses e procuro por um povo muito antigo, cuja a existência foi obscurecida pela passagem do tempo.
– Hum… e que deuses são esses? E que povo é esse de que você fala?
– Uma parte da história eu posso contar, já que faço parte dela… a outra, eu posso apenas supor, já que não participei diretamente dos eventos.
– Como assim faz parte da história?
– Meu amigo, encha o meu copo e se acomode, pois vou lhe contar uma história… uma história de homens, deuses e dos seres que estão entre essas duas espécies.

Fim do capítulo primeiro.

D.C.F. aka Gruut, 13/06+07/07/2008

N.D.A.: O Povo Esquecido é um conto em quatro partes, escrito há mais de oito anos atrás, que estarei postando aqui no Baile dos Enxutos. Espero que gostem e até o próximo capítulo.

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