A primeira parte da resenha de Quarteto Fantástico Vol. 1, de #01 a #50.

“A resposta mais honesta é que essa é a revista que eu mais gostava quando criança. As primeiras cem edições de Stan Lee e Jack Kirby eram simplesmente perfeitas. Todas as histórias do Quarteto desde então tem sido uma releitura, a ideia, de tentar somar algo a esse legado brilhante, é um cálice sagrado cheio de veneno, porque o título nunca mais alcançou aqueles padrões mais altos.” – Mark Millar.

Entrei no mundo dos gibis de maneira incisiva quando eu tinha 11 anos, através de uma extinta revista chamada “Geração Marvel: Homem-Aranha”. Apesar de ser de 2005, a mesma possuía o agora desprezado “formatinho” e destinava suas 50 e poucas páginas a histórias levemente alteradas em roteiro e arte, recontando as primeiras aventuras, tanto do Homem-Aranha, tanto do Quarteto Fantástico. Sendo assim, salvo os contextos de épocas diferentes, eu tinha o superficial conceito acerca da gêneses da família mais famosa dos quadrinhos, tais quais aventuras irreplicáveis deles viajando no tempo e se tornando piratas, derrotando o Homem-Impossível pelo tédio ou mesmo tendo que trabalhar para Namor, arrecadando fundos por terem falido…

Passada mais que uma década dessa entrada na arte sequencial, eu finalmente pude retornar à matriz de tudo, lendo tardiamente os primeiros 50 números (mais que) inspirados da dupla Kirby/Lee (exatamente nessa ordem para mim!), brilhando meus olhos ao perceber o avanço conceitual do título a frente dos supracitados clássicos da virada de eras em 1986, não restando dúvidas em revisar o alicerce que a Marvel se firmou para se impor como a editora líder de vendas e popularidade no mundo. Apesar de hoje, por negócios mesquinhos, renegar os 4 que lhe colocaram onde estão.

STAN LEE E JACK KIRBY.

Por mais contraditório que possa ser, sinto que extraí mais dessa leitura agora, do que poderia ter feito na infância sem o “enciclopédico” conhecimento de um todo. É absolutamente assustador notar que as nuances iniciais dos mitos, logo em suas dez primeiras edições, já firmariam um caminho de décadas, bem como um descompromissado escritor amador (Lee) e um ex-membro de gangues (Kirby) seriam seus pioneiros, tudo junto ao controverso Marvel Way.

Recomendação do Sorg

#01 a #10 – PILARES DE UMA GRANDE CONSTRUÇÃO.

“É curioso, guria! Apesar de ser cega, você vê as coisas bem melhor do que eu e me faz sentir vergonha de mim mesmo!”

Temendo que os russos chegassem antes à Lua, o gênio Reed Richards recruta sua noiva, seu cunhado e seu melhor amigo (esse de fato relevante, por ser o piloto) e “roubam” uma nave. A viagem foge do previsto, quando são “banhados por raios cósmicos”, tendo suas genéticas alteradas a representarem de modo explícito e comportamental cada um dos quatro elementos do mundo. Poderia ser apenas mais uma equipe com habilidades incomuns, se não fosse a dinâmica ímpar daquela que viria a ser a família mais famosa e aventureira dos gibis. Visto com mais atenção, era uma espécie de quebra das “leis dos super-heróis”. Por mais que fossem ovacionados pelo público, poderiam por ele facilmente ser perseguidos, viajavam ao espaço e realizavam o impossível, ainda em tempo de brigarem entre si, terem dúvidas e sonhos, tais quais “humanos comuns”. Fugiam do padrão de uniformes elaborados com diversos símbolos, pela genial roupa padronizada, idealizada por Kirby, e nem mesmo máscaras usavam. Poderiam estar sujeitos ao mais maquiavélico dos vilões, tal como exercerem sua cidadania normalmente, fugindo do unidimensional. Já estavam estabelecidos como combatentes, após a prova de fogo inicial do Toupeira (inspirado no livro da Ilha do Dr. Moreau) em ilhas remotas, ao passo que repelindo sabiamente uma invasão interplanetária da famosa raça Skrull – uma metáfora válida do medo da infiltração comunista, visto que os aliens seriam transmorfos, cujo objetivo inicial de dominação visa ferir a imagem de ídolos aclamados. Namor seria tirado da “geladeira” que estava desde 1956, por um inconsequente Tocha Humana, vindo a ser um dos mais complexos seres da inusitada galeria de vilões, ouso dizer que o “homem despertado fora de seu tempo em uma cultura estranha”, antes mesmo de Steve Rogers! E na #05, uma emblemática estreia de Victor von Doom traria entre tantos elementos, o adversário cujo passado se relacionava com o grupo. Em cinco números, já tínhamos a base para muito do que seria o universo Marvel, ou como o velho Stan mestre do marketing astutamente nomeou: A ERA MARVEL DOS QUADRINHOS. Vingadores, mutantes, o próprio Aranha, que viria a se tornar o símbolo maior da editora, nada seriam sem a “malsucedida viagem lunar”, trazendo além dos quatro extraordinários seres toda uma mitologia moderna intrincada e autorreferente, tão atemporais quanto a grega ou cristã, sujeitas a serem reinventadas em qualquer época com sucesso. Meu primeiro contato com uma HQ do grupo foi na extinta Geração Marvel #03. Mesmo lida quando garoto, ao relê-la, dessa vez no lápis original em que foi concebida, revivi com mais força a tensão proposta pela ameaça do Milagroso (obviamente “inspirado” no Mandrake, além de percursor do Mystério, dada a semelhança de “poderes”), somada a ações dos heróis que pareciam não obter nenhum êxito, bem como meu assombro em tudo resolvido em 22 páginas!

Os “justiceiros sociais” talvez ficassem surpresos, aos ver já na #08 a inserção de Alicia Masters, uma mulher cega, cujo padrasto estava a ser um dos mais vis déspotas, não sentir pena de si mesma e lidar com sua perda, de forma a realçar suas outras habilidades, sem solicitar atenção especial por isso, temática que futuramente seria trabalhada em Demolidor. Estava aqui uma “minoria”, em 1962, sem soar gratuito ou panfletário, com consistência ideológica nutridora de clássicos. Até o “Mestre dos Bonecos”, a primeira vista alguém com traços asiáticos praticante do vodu, poderia fazer paralelo a empresários que controlavam as editoras, os que dos bastidores “puxavam as cordas”, não teria Kirby (que como tantos outros artistas, sofreram horrores e incertezas nas garras destes) ironicamente realizados planos onde o megalomaníaco segurava com gana miniaturas de quem supunha controlar? E não seriam as chamas do Tocha, uma pontual indireta sobre quem tinha mais poderes sobre uma obra? Um outro ponto é que lido um pouco mais sobre o Rei, podíamos ver muito dele personificado em Ben Grimm, desde sua predileção por charutos, a forma de falar seca, sem ter Reed, “o espertinho” como líder, e tentar conquistar Sue, a modo discreto. Em primeira instância, sua ida como piloto se adveio mais para provar coragem a ela (#01) e em segunda fica nítida a mágoa do ogro, quando esta fez um elmo para esconder seu rosto, somada a ironia de Johnny Storm: “Minha irmã? Não se engane, Coisa! Ela não se apaixonaria por ti nem que você fosse a cara do Rock Hudson!”, preciso mencionar o surgimento do Fantasticarro ainda na mesma história?

Temos esse primeiro pacote, fechado de maneira formidável pelas #09 e #10. Esses enredos tinham em comum mais do que o fato de serem os dois mais famosos antagonistas até então, mas pelas camadas adicionais de existirem gibis deles dentro da própria história (ou pensou que isso havia sido inventado em Watchmen?), não se tratando de alguma confusão de realidades ao estilo “sonho dentro de um sonho”, o grupo era agora quase de carne e osso, estando sujeitos a falência (adiantando parte da temática do futuro Homem-Aranha) em sua nona edição. Momentos como Reed Richards estudando a genética diferenciada deles, ou indo a uma editora de quadrinhos (com participação especial dos próprios autores, discutindo o que criar na própria revista!) narrar as aventuras, para que estes desenhassem, mostrava o quanto “fora da caixa” era o material, mesmo sob censura rígida do Comic Code Authority. Outro fato a mencionar era a dupla de vilões fugirem da caricatura e mostrarem progressos em outras áreas da vida, retornando mais experientes e letais: Namor descobria formas de usar parte das riquezas financeiras do fundo do mar, percebendo que o poder do dinheiro poderia ser mais letal que chamar algum monstro marinho, enquanto Victor von Doom astutamente empregava poderes, aprendidos com seres de outros mundos (ovoides), e concluía que trocar de corpo com seu maior inimigo e ter tudo o que ele tinha seria mais doloroso ao algoz do que qualquer confronto físico, algo que Jonathan Hickman usaria em sua megassaga de 2015 “Guerras Secretas”, ao fazer o vilão se apossar do mundo e da família do odiado, embora dessa vez sendo ele mesmo e “meramente” remendando todo o multiverso.

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