Falta pouco para o fim da resenha de Quarteto Fantástico Vol. 1, de #01 a #50.

#21 a #30 – REVANCHES E ENCONTROS COM AS DEMAIS MARAVILHAS!

“Belas asas que cê tem aqui, filho. O que cê come… Alpiste?”

A 22º capa anunciava sem pudor o “estilo Marvel”. Por mais crítico que eu seja desse estilo, pela forma como os créditos de criação são no mínimo mal distribuídos, sou obrigado a reconhecer dois fatores firmes dele: a coesão de cruzamentos de histórias, onde todos os acontecimentos naquele mundo geravam consequências reais entre si (ao contrário de hoje, onde ícones tem diversos títulos e cronologia vira fator quase descartável), sem falar da propaganda nada menos que genial de Stan Lee, despertando o sentimento que viria se tornar um lugar comum: “O que preciso comprar e ler também, para entender este?”. Ao tempo de a pergunta surgir: “Como Jack Kirby conseguia desenhar tudo isto?!”, questão mais que válida em um mundo onde cada vez mais ilustradores brilham um pouco e reduzem seu trabalho, achando que já se esforçaram muito… Para um ansioso, como eu, foi revigorante finalmente testemunhar o poder dos construtos invisíveis de Sue Storm vir à tona. Comparando, o retorno do Toupeira soa corriqueiro, ao fim do conto, em seus diálogos com os leitores, Lee expõe sua preocupação em decolar aquela mídia até então uma subcultura: “Mas se você puder se manter longe dos clássicos universitários, nos procure de novo no mês que vem…”. O melancólico Bruce Banner dá novamente as caras na #25 e, ao contrário do embate anterior, esse vai além da enganação com empate, levando dois números para se concluir, corroborando finalmente para o encontro com Os Vingadores e, ao contrário da luta anterior, dessa vez havia mais lados na história. Os que reclamam da falta de ação, vão encher os olhos! Vale citar a capa da #26 como uma das melhores.

Em sua elogiada fase Ultimate dos Fantásticos, Mark Millar usou um interessante conceito, que pesou para derrotar sua versão de Namor: uma máquina feita por Reed Richards, que materializaria seus pensamentos, e foi dessa #27 – também contra o Príncipe Submarino – que Millar cavou. Foi a primeira vez também, que uma imagem sensual apareceu na revista. De modo nem um pouco discreto, o líder do Quarteto Fantástico expõe sua “fantasia sexual” e a homenageada, pelo visto, gostou da ideia! Outra linha foi superada aqui: a de Reed como o mais comportado e sóbrio membro do time. Tendo sua amada – ainda em dúvidas sobre se amava ou não o Rei Atlante – sequestrada sem cerimônia por Namor, ele parte em um missão solo, embasada pela fúria, não mais aguentando esse tipo de comportamento, no mínimo abusivo, do seu adversário. Sobraria ao Doutor Estranho guiar os amigos até ele.

Recomendação do Sorg

Os X-Men surgem na #28, diante da manipulação de uma dupla de inimigos, curiosamente ambos só do Quarteto Fantástico. Apesar do Homem-Aranha contar com a rivalidade ocasional do Tocha Humana em suas páginas, nas do Quarteto o Aranha aparecia de forma tímida, não mais do que poucos quadros… “Tudo começou na Rua Yancy” (#29) é interessante, por mostrar mais da gangue (com pés no passado de Kirby) atormentadora do monstro de bom coração da família. Resolvendo ir tirar satisfações, uma trama de revanche do Fantasma Vermelho se inicia de súbito, pegando o leitor com a mesma surpresa que seus alvos. Um detalhe interessante é que o poder do magnetismo, tão associado ao mutante arqui-inimigo dos X-Men, inicialmente era o “dom cósmico” de um dos macacos que trabalhavam para o sabotador comunista. Não apenas um conto de reviravolta. Considero essa narrativa uma síntese do que seria o dia a dia dos exploradores. Fechemos com Diablo (#30), uma versão mágica e mais fraca do Homem-Molecular, francamente, bem abaixo do padrão, entretanto tem sua contribuição, por ludibriar o Coisa numa ilusão de controle de sua horrenda forma.

#31 a #40 – A PRIMEIRA SAGA? E A PRIMEIRA BAIXA ENTRE OS NOBRES COMBATENTES.

“Mas agora, de alguma forma, encontrei coragem! Talvez… Pelos anos que perdi… É por isso que vocês não devem chorar… Ao menos recuperei… Meu orgulho!”

Em 1964 o Homem-Aranha de Steve Ditko se escondia do Homem-Areia, com o anúncio provocativo na capa: “O fim do Homem-Aranha”. Os Vingadores estavam se separando em Avengers #10 e o poderoso Thor estava acuado, de forma preocupante, em Jorney into Mystery #110. Convenhamos que, por mais apreensivo, a “A morte de um herói” (#32), artifício que viria a ser banalizado com o passar de décadas, atinge a curiosidade em cheio do observador. Afinal, até agora seria possível matar um dos quatro? A pergunta é sagazmente respondida com: nem todos os heróis usam máscaras ou uniformes, ou mesmo: nunca é tarde para se arrepender da covardia, diante das tragédias que a vida lhe impõe. A vida abaixo dos mares de Namor é mostrada com mais detalhes na #33, guiado por um experimentalismo, somando retículas e fotografias ao desenho, recurso que seria usado vários anos depois, por Dave Mckean, em suas 75 capas de Sandman. Atumma tenta dar um golpe de estado no soberano, porém a ajuda despercebida de seus inimigos o tira dessa enrascada, por mais valentia que o rei demonstre em sua batalha individual ao golpista. Seria essa uma retribuição da ajuda dada na edição #06?

PEIXES PSICODÉLICOS.

Em #34 – Uma Casa Dividida – agora os aventureiros se apercebem que também nem todos vilões usam uniformes e tem objetivos claros: um milionário, objetivando comprar as ações de outros colegas (algo que seria feito em questão de poucos anos, como aponta as falas expositivas do perverso), propõe que eles o passem qualquer tarefa para ele resolver em uma semana e, se realizado, venderiam a ele o solicitado. Logo o desafiam a acabar com o Quarteto Fantástico e ele quase o faz, usando só o poder do dinheiro (O quinto elemento do mundo, segundo Miracleman de Alan Moore!). O conto tem a costumeira lição de moral que pode chatear alguns, sendo inegável mesmo o paralelo com a cruel realidade dos ricos e suas manobras sem pudor. A cena de confusão, que faz os amigos fantásticos brigarem entre si, é, no mínimo, bastante engraçada e, mais uma vez, o traço kirbyano mantem uma diversidade irreplicável, uma verdadeira máquina de feições individuais. A #35 trás o “Homem-Dragão”, obra do deslocado Diablo, que, por incrível que pareça, consegue ser mais carismático que ele: um monstro primitivo, sem entender sua origem e função, despertando certo sentimento análogo em Ben Grimm. Johnny Storm finalmente decide voltar a estudar (afinal, ainda era só um adolescente), encontrando um Peter Parker “engraçadinho” pelos corredores da faculdade: a cena, com alfinetadas entre eles, lembra o encontro entre Stallone e Arnold na igreja, em Mercenários 1. Vale dizer: no mesmo mês, o Aranha estava lutando ao lado do Tocha contra o Besouro – flertando com a namorada do cara na época – rendendo uma das minhas cenas preferidas com a dupla, na qual o tímido Parker entra em fúria e “peita” o super-herói celebridade, bem na frente dos colegas de classe que o julgavam um fracote…

Tudo parecia ir bem na #36: o casal fantástico saía da dúvida e finalmente noivava pra valer! Todos os demais heróis aparecem para confraternizar, mas nem imaginava os quatro estarem prestes a entrar em sua primeira saga (mesmo com as histórias “terminando” ao final de cada edição, em vez do “Continua…” tão martelado hoje) capitaneada pelo infame “Quarteto Terrível”: Mago, Ardiloso, Homem-Areia e Madame Medusa! Por mais que na #37 não repita a dose dos novos perseguidores e esclareça a covardia dos Skrulls, o lado astuto do argumento é desenvolver uma arma, que serviria de salvação do grupo números depois, bem como um importante subtexto: não condenar toda uma raça, por um crime de alguns dela. A desventura segue com FINALMENTE o 4F sofrendo uma grande derrota, terminando a narrativa sem darem o troco. Seguindo a #39, temos a clássica trama de perda de poderes e sendo acossado por um grande algoz: o artifício já havia sido usado em The Amazing Spider-man #12, mas não deixa de ter seu brilho, quando entra em cena o Demolidor. Dar, ao vigilante cego, a tarefa de guiar um herói, que perdeu grandes dádivas, seria usado futuramente em outro título do Aranha, décadas depois, ilustrado por um tal de Frank Miller… Considere a página final da #39 como o aderir ao “continua!”. Após tantas fugas, o Coisa finalmente consegue seu mano a mano contra Destino na #40, em uma emblemática sequência, que a dupla Jeph Loeb/Greg Land homenagearam em sua sofrível conclusão da mini Ultimate Power.

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