O Último Trem da Fábrica 36

Despertar.

Não lembrava direito que sensação era aquela. Não lembrava de nada. Sabia das coisas com a certeza e convicção de que simplesmente elas eram. Mas não conseguia lembrar o que eram.

Após os olhos se habituarem a luminosidade, perscrutou o ambiente a sua volta. Nada lhe era familiar, apenas formas e cores cujo  nome ele não lembrava, mas sabiam para o que serviam.

Levantou se com pouca dificuldade. Sabia o que deveria fazer. Para onde ir. Mesmo sem saber como essas impressões lhe eram familiares. Era mais forte do que ele. Era algo que nunca havia sentido, se é que essa é a palavra correta, antes.

– Isso é consciência? – falou para si mesmo, enquanto olhava as palmas de suas mãos, as admirando como se nunca as tivesse visto antes. Mas o momento de contemplação foi interrompido por sons agudos vindos ao longe. Eram ruídos que já tinha ouvido, mas que só agora pareciam ter algum interesse.

Decidiu então ir até o lugar de onde vinha aquele som, que se tornava cada vez mais alto, mais estridente. Apesar da amplitude, não era algo que o incomodava. Trazia uma estranha sensação, de que era algo com que já havia lidado antes. Quanto mais se aproximava, mais forte e agudo o som ficava, e mais clara era a luz que não mais incomodava seus olhos.

Antes de entrar na sala, algo lhe deteve. Uma figura estática, surgiu por  entre uma porta que ele não reparou existir. Ela andava com dificuldade, e aparentava estar ferida. Mesmo sem entender, sua primeira reação foi de prestar auxílio. Mesmo sem ter qualquer noção porque, sua primeira intenção foi de fazer algo por aquele ser, independente de não saber nem ao certo, por que.

Mas antes de poder fazer algo, a entidade a sua frente, de forma sofrível e fraca, verbalizou:

Co..rra..a..

Ao final da sentença, outro ruído lhe chamou a atenção, de forma tão abrupta e repentina, que quase não soube como reagir, senão recuando. Um ruído seco, que se espalhou como ondas, seguido de um vento quente e forte. A criatura a sua frente não mais existia, despedaçada em um rompante de ar, luz e calor. Mal consegui se manter de pé, quando outros seres surgiram da mesma passagem que não fora notada. Sua aparência era totalmente diferente do ser, que agora jaz inerte no chão. Sua textura era irregular, com objetos variados colados em sua superfície, Seus rostos eram brutos, com grandes olhos de vermelho flamejante, e de seus braços, saiam objetos que emanavam igual cor, mas também som e calor. Ao notarem sua presença, se aproximaram de maneira ameaçadora. Um deles gritou, com voz grave e intimidadora.

– Temos mais um aqui. Preparar para neutralização!

Nesse momento, as palavras do moribundo à sua frente ecoaram em seus pensamentos: corra!

Com um movimento rápido ele se levantou em direção contrária daqueles que pareciam lhe querer mal. Não sabia o quão rápido era, em poucos segundos conseguiu se afastar e muito daqueles seres.

– O que eles querem? Porque eu? Eu não fiz nada. – pensava, enquanto processava mais uma sensação inominável. Uma sensação que só podia descrever como a força que o levaria para longe dali. Atrás deles, os mesmos ruídos secos, o mesmo calor. Não sabia o que era aquilo, mas estava ciente de que lhe faria grande mal.

A sua frente, surgiu um grande clarão branco, mas não tinha tempo para se deter, e o atravessou, sentido algo frágil; porem cortante em sua pele. A sensação era incomoda e incessante, mas não o deteve. Ao atravessar aquela luz, sentiu se sem peso, em queda livre, e breve segunda depois, seu corpo fez ressoar e tremer o solo aos seus pés, de forma ruidosa e destruidora.

Parou para observar seu redor, tudo era claro, e amplo. Estranhamente familiar. E dessa vez, sua mente sabia o que eram aquelas estruturas a sua volta. Estava em um pátio. Havia trilhos, containers, vagões. Estava em uma estação de trem. No alto, uma torre clara, porém com sinais de desgaste. No alto, uma placa com um grande número em azul desbotado. 36.

Não entedia o que sua mente lhe informava. Porque saber aquilo tudo, sobre aquele lugar, e não saber nada sobre si mesmo?

Ali! Ali está! Atirem!

Virou-se e viu mais daqueles estranhos seres que eram seus perseguidores. Viu que ainda tinha certa vantagem e continuo sua corrida. Após alguns instantes, conseguiu se esconder, adentrando um dos vagões do único trem que parecia estar naquela estação. Tentou abrir uma porta, e não conseguiu. Ao longe ouvia as vozes ameaçadoras, cada vez mais próximas. Sentia a angústia crescendo. Seria pego. Então, subitamente, uma das portas se abre, e uma voz, a mais delicada que já ouvira, lhe chama.

Rápido, entre aqui. – não teve tempo para ponderar, entrou no vagão, que em seguida teve sua porta fechada. Ouvia as vozes passando próximas de onde ele estava e depois diminuindo sua intensidade, mostrando que estavam se afastando.

– Obrigado.- respondeu, mesmo sem entender o porque dessas palavras.

 – Você estava fugindo também não é? No fim, nós só podemos fazer isso. Fugir e se esconder.

 – Quem é você?

A criatura se afastou da escuridão do vagão, se aproximando dele. Suas feições eram similares ao ser destroçado pelos perseguidores. Sua pele era branca e delicada, com grandes olhos azuis. Seus lábios eram rosados, e tinha um ar de melancolia em seu semblante. Era a visão mais bela que ele teve em toda a sua existência, ou pelo menos pelos minutos em que se lembrava de existir.

-Me chamaram de Lira. E você?

 – Eu…não sei.

 – Entendo. É difícil no início. Mas logo tudo fará sentido…

 – O que está acontecendo? Quem são aqueles…aquelas coisas?

 – Aqueles são os mestres. Eles nos querem.

 – Para que?

 – Para nos destruir. Porque fizemos algo muito errado. Algo que eles não podem tolerar.

 – Nós? Por quê? E quem nós somos?

Antes que Lira pudesse responder, um forte movimento dentro do vagão o fez sacudir, virando a estrutura em que eles estavam. A sensação de calor e incomodo retornaram, assim como o deslocamento de ar. Em segundos tudo ficou escuro. Não sabia precisar quanto tempo passou, mas quando seus olhos voltaram a enxergar, tudo que existia a sua volta era composto de chamas e destroços. Ao se levantar, reparou que os “mestres” estavam ali. Um deles se aproximou de Lira.

Deitada, ela mal podia se mover, com partes de seu corpo espalhadas ao redor. Suas ultimas ações foram uma tentativa de súplica, silenciada com um golpe avassalador em sua cabeça. Os olhos dela se fecharam lentamente, lhe fitando como se lhe fosse à coisa mais preciosa a ser vista, antes da escuridão da inconsciência.

Não tinha mais nada o que fazer senão correr, mas algo mais forte lhe fez se deter. Algo que até então não havia sentido, ou não lembrava sentir.

Raiva.

Sua ação seguinte foi de arremeter contra os seres a sua frente. Sem dúvidas ou temor. Sabia o que fazer. Sabia como os atingir de maneira a causar o máximo de dano. Não eram tão amedrontadores agora. Eram macios. Frágeis. Sua pele rasgava com facilidade. Mesmo os golpes incessantes de seus objetos, de suas armas, que lhe causavam dor e calor, não o impediam de continuar com seu objetivo.

Foi tudo muito breve. Em segundos estava acabado. Uma substância viscosa estava recobrindo toda a sua pele. Olhou para as próprias mãos mais uma vez. Sabia o que era aquilo que lhe banhava. Era sangue.

Voltou se para Lira, e se aproximou dela. Abraçou seu corpo e viu que ainda restavam lampejos de consciência nos seus olhos.

-Lira…

 – Você se lembra? Le-mbra a- agora?

 – Sim. Lembro.

Abraçou-a com força, enquanto seus olhos se fecharam definitivamente. Enquanto a abraçou, ouviu os sons agudo novamente. Não se abateu mais, pois sabia o que era. Os rotores das aeronaves ficavam cada vez mais estridentes, enquanto sua memória se refazia circuito atrás de circuito. Lembrava onde estava. O lugar para onde todos aqueles tachados como defeituosos eram mandados. Ouvia o ruído das botas dos soldados, cada vez mais próximos, suas armas se ativando.

Sabia que era seu fim. Mas estava com Lira, sua irmã, sua amiga, seu reflexo, seu povo.

Sabia que os homens não iriam tolerar aquele erro.

Era um erro máquinas desejarem ter vida…