Como falar deste filme, que quase ninguém viu, mas muita gente já odeia pacas?

Tarefa difícil, mais difícil do que ir ver esse filme sem já sentar na cadeira desgostando dele.

Esse portal desgovernado era pra ser a maior ameaça pra esse Quarteto? Passou longe.
Esse portal desgovernado era pra ser a maior ameaça pra esse Quarteto? Passou longe.

Esse filme, antes mesmo de estrear, já tinha tudo pra dar errado. Todo mundo aqui sabe os quiprocós que aconteceram durante a fase de produção, pré-lançamento e estreia do filme. O diretor já xingou muito no twitter, dizendo que o produto final sofreu muitas interferências. Os próprios atores não pareciam muito animados em divulgar a bagaça. Será então que é possível que alguém venha realmente redimir esse filme, que parece ter atingido um consenso praticamente total?!

Bom, possível deve ser... Afinal, tem gente que até hoje defende essa pérola aí...
Bom, possível deve ser… Afinal, tem gente que até hoje defende essa pérola aí…

Achei o Quarteto bem caracterizado. Reed Richards é o clássico garoto prodígio, incompreendido pela família e subestimado pelo sistema de ensino, mas, apesar disso, não cai totalmente no estereótipo de nerdão donzelo (o ‘pernambuquês’ pra virjão) e isso eu achei legal. O cara é desenrolado o suficiente pra sustentar conversas e até paquerar com Sue Storm, fazendo ela rir com ele (não dele), mostrando que talvez a sociedade e a indústria do entrenenimento não vejam mais o nerd como um cara de óculos, suspensório, abobalhado e incapaz de falar direito com o sexo oposto. Talvez o arquétipo que está em “A Vingança dos Nerds” tenha ficado no agora distante 1984 e a sociedade sacou que ser inteligente não é sinônimo de ser meio idiota.

Quer dizer...
Quer dizer…

Ben Grimm vive na casa da família, dona de um ferro-velho, com um irmão agressivo e em uma realidade quase sem perspectiva, daquelas em que “estudar pra vencer na vida” parece uma possibilidade bem remota, talvez por isso é bastante fechado. Quanto à amizade dele com o Reed, discordo do Sorg, pois ambos pareciam bem isolados e, pesar de bem diferentes, é quase lógico que eles se tornassem próximos. A relação de Ben com os recém-adquiridos poderes está lá. O sentimento de traição que ele sente por Reed Richards, após o acidente, não passa a impressão de ser só birrinha, pois, pelo que acontece no filme, ele realmente pode se sentir abandonado pelo melhor amigo. Reed também se sente culpado pelo que aconteceu com todos os envolvidos, mas especialmente com o Ben.

Acho até que a amizade deles no filme faz mais sentido que na versão Ultimate.
Acho até que a amizade deles no filme faz mais sentido que na versão Ultimate.

Sue Storm é a filha adotiva (um belo “HÁ!” pra quem já chiava, porque o adotado seria o Johnny) de Franklin Storm e ela parece atender as expectativas do pai, trabalhando na pesquisa de viagem dimensional, utilizando sua inteligência e um talento específico para reconhecimento de padrões. Nós vemos não apenas os poderes, mas o intelecto dela em ação. Diferente do que sua contraparte nas HQs foi por muito tempo e do que foi a Sue Storm da Jéssica Alba. A Sue de Kate Mara foi mais do que apenas “eye candy”. Sua relação com os outros personagens e sua participação no desenrolar do filme acabam por não encaixá-la no papel clichê de dama em perigo/objeto de desejo. Ela tem até alguns tiques e um jeitinho meio esquisito (mais até que o Reed), não sendo desenrolada só por ser gatinha.

Em tempos onde o papel da mulher no entretenimento vem sendo tão discutido (vide o recente episódio envolvendo o Joss Whedon), a Sue desse filme é relevante com e sem poderes e de maneira bem natural, sem ares de "coisa pra agradar as feministas".
Em tempos onde o papel da mulher no entretenimento vem sendo tão discutido (vide o recente episódio envolvendo o Joss Whedon), a Sue desse filme é relevante com e sem poderes e de maneira bem natural, sem ares de “coisa pra agradar as feministas”.
Recomendação do Sorg

Johnny Storm, por outro lado, parece ser o filho rebelde, daqueles que quer fazer o contrário do que o pai espera, só porque… porque sim. Mas mesmo sua rebeldia parece ter um pouco de frustração, por não conseguir (aparentemente) ser tão querido pelo pai, quanto sua irmã. Sua rebeldia esconde um pouco de contradição, pois, ao mesmo tempo que ele quer romper com as expectativas do pai, ele parece sentir ciúmes por Sue atendê-las. O jeito engraçaralho também aparece, mas é interessante, pois às vezes ele força uma piada, mas em outros momentos, em que tudo dá a entender que ele vai agir como alívio cômico, ele age como um humano normal. Nenhuma pessoa NORMAL brinca com tudo, o tempo todo. A questão racial nem é citada diretamente, estando presente de forma perfeitamente natural. Reed pergunta abertamente para Sue se ela é adotada, que responde com um “sim” de quem não sofre por isso. Franklin e Johnny negros e Sue branca, nascida nos Balcãs, formam uma família crível. Pai que se importa e sente orgulho dos dois filhos, que se alfinetam, mas gostam um do outro. Tudo isso bem presente nos diálogos.

Quem criticou a escalação de Michael B. Jordan deve ter criticado a escolha por Jéssica Alba também. Uma peruca loira e um par de lentes azuis são tentativas bestas de escamotear a etnia dela.
Quem criticou a escalação de Michael B. Jordan deve ter criticado a escolha por Jéssica Alba também. Uma peruca loira e um par de lentes azuis são tentativas bestas de escamotear a etnia dela.

Os poderes não estão ruins. O Coisa em CG está infinitamente melhor que o Coisa-cosplayer-com-roupa-emborrachada dos filmes passados. A forma de encarar os poderes também é interessante. Um encara com pesar, outro parece animado e outros encaram como mutações que devem ser curadas, até que os quatro parecem aceitar aquilo como parte do que eles são. A apresentação dos poderes também é legal e dá ares de “se-fu-de-ram!” para as cenas que seguem o acidente. Os poderes não são apresentados como dons, mas como problemas. O filme dá a entender que o controle dos poderes vem com o tempo, mas que no começo tudo era descontrolado e agoniante.

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Gostei bastante de boa parte do filme. Mas algo ali, durante todo o filme, parecia que iria cagar tudo. Algo não, alguém com nome e sobre nome: Victor von Doom. O personagem é odiável, não por ser mau, mas por ser mal feito, mal concebido, mal interpretado. Não vou falar muito dele. Concordo com todas as críticas que li sobre o personagem. Ele não tem passado, não tem motivação, não tem plano. Ele é apenas… “O vilão”. O design do Doutor Destino (já transformado) é tão ruim quanto parecia ser nas imagens vazadas e o ator não ajuda em nada. Pra não dizer que tudo ao redor de Destino é ruim, gostei da cena dele escapando da instalação militar, ela me lembrou um pouco Elfen Lied:

Destino, da forma que apareceu, parece ter sido enfiado no filme na base da força e, por isso, com má vontade. A participação dele na construção da máquina de viagem dimensional não é interessante e a relação dele com a Sue não é trabalhada. Não se sabe direito por que ele abandonou o projeto antes (só por birrinha com os acionistas?). A luta contra o Destino na outra dimensão também é bem simples, sem graça. O filme ficaria melhor sem ela. O filme ficaria melhor sem o Destino. Talvez se os vilões fossem militares, querendo manipular o Quarteto ou qualquer outro menos relevante (e por isso menos complexo) da galeria de inimigos do Quarteto… talvez se o Destino estivesse preso na dimensão paralela desde um experimento anterior e, só no final do filme, aparecesse como gancho pra uma sequência, o filme fosse até melhor, tendo ainda algumas doses de ação pra agradar a galera.

Quem diria que o resultado final seria ainda pior...
Quem diria que o resultado final seria ainda pior…

Quarteto Fantástico sofreu claras influências dos engravatados (Destino é pra mim “O” maior problema, mas não o único). Imagino o quão frustrante foi o processo de filmagem pro diretor e, por consequência, para os atores. O problema é que, no geral, as críticas são sobre os primeiros atos do filme, A PARTE LEGAL! No geral, o público e boa parte da crítica reclamaram pela FALTA DE AÇÃO. O fato de a batalha final ter sido criticada amplamente, por não ter sido maior e mais massaveística, abre espaço pra questionar: quem está errado? O diretor que, aparentemente, queria fazer um filme mais puxado pra o suspense/ficção científica ou os executivos que queriam mais porrada? O público geral parece querer mais porrada.

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Sabemos que “super-herói” é mais que um estilo, é uma plataforma para diversos tipos de histórias. Josh Trank parecia saber disso também, mas os engravatados do estúdio sabem mais. Eles sabem o que o povão quer. Nada contra um bom filme de ação, a Marvel acerta em boa parte deles, mas será que filme de super-herói só pode ser isso? Por isso torço pra que as franquias da Marvel, nas mãos de outros estúdios, não parem nas mãos da Disney, mas não por não gostar dos filmes que eles fazem, mas pela (vã) esperança que outros estúdios consigam (algum dia) pensar diferente.

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No final, não defendo o Quarteto Fantástico, mas é uma pena, pois o “filme bom” estava ali e acho que o filme o foi por boa parte do tempo, mas o resultado final fica em cima do muro e não agrada totalmente a ninguém. Acho que ainda é um filme que merece ser visto e que as críticas extremas são exageradas, mas as críticas comedidas realmente fazem sentido. Passa longe de ser o pior filme de heróis desde o primeiro X-Men, pois tem um punhado de filmes piores que ele (alguns nomes são óbvios, outros, nem tanto). Pena que a Fox aparentemente não entendeu que talvez fosse melhor deixar o filme seguir a visão do diretor, que talvez seja melhor agradar um nicho, do que não agradar totalmente a ninguém, mas ainda torço pra que esse Quarteto receba uma boa sequência e que Josh Trank encontre mais liberdade no seu próximo trabalho.

Abraços e me desculpem por qualquer coisa.

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