3-netflix

Bem, crianças, parece que meu nome NÃO está na lista da Odebrecht, sendo assim, posso sair por aí fazendo merda como um ministro do governo ou só falando merda como político da oposição.

Mas como em nosso país já tem gente mais do que suficiente fazendo merda, prefiro escrever post pro BdE, o que também por si já é uma merda, só que não prejudica ninguém.

E o post de hoje é sobre 3%, a primeira série nacional da Netflix.

É, eu sei que produções nacionais sofrem de um certo preconceito de parte de nosso público local, como se o que fosse feito aqui só por isso fosse ruim. Obviamente essa é uma visão preconceituosa e, como toda visão preconceituosa, é estúpida também. HBO tem feito várias séries nacionais de ótima qualidade – Mandrake, Magnífica 70, O Negócio, Psi, todas mandam um “oi” – e mesmo a Globo, que nós amamos odiar, mas não desgrudamos dela, tem um portfólio de séries tão vasto e de tanta qualidade que, se não fosse a enorme dificuldade que nós temos em olhar de forma isenta a empresa, focando apenas no que ela produz e abstraindo conceitos político/partidários a respeito dela, certamente teríamos orgulho de sua produção (não, Sandy e Junior, isso não se aplica à série de vocês).

Recomendação do Sorg

Mas então, depois dessa loooooonga introdução (foi bom pra vocês?), vamos falar do que importa, que é…

Era o que mesmo?

Ah, tá, a série da Netflix.

Então…

Caras, assim… A série não é ruim… Mas também não é boa… Vou tentar explicar melhor:

Você já leu/assistiu a Jogos Vorazes? Admirável Mundo Novo? A Ilha? Equilibrium? A série da moda Black Mirror? Se sua resposta for “sim” a pelo menos um deles, então sua sensação de “déjà vu” será inevitável. A série é um amontoado de clichês, originalidade com certeza não é o forte dela e não, não são referências, é clichezão mesmo. Referência é quando você faz algo original e recheia ele com menções a outras obras como um peru de natal (Stranger Things mandou um beijo), agora partir de uma premissa surrada e avançar nela, usando plots igualmente surrados, bom, isso pra mim pode ser chamado de um monte de coisas, menos de ‘referências’.

Mas tudo bem, vamos em frente, afinal, se originalidade fosse tão primordial assim, não existiriam novelas da Globo, nem filmes da Marvel (RATINHOOOOOOO!!!!!).

Como vocês já devem ter percebido, a sinopse é basicamente um mundo pós-apocalíptico, num futuro distópico, onde a sociedade vive em condições miseráveis, porém, no meio do oceano existe uma cidade chamada “Maralto” onde as condições são opostas. Não há miséria e violência. É tudo limpinho e cheiroso. Só que, para ter acesso a essa cidade, as pessoas do continente, interessadas em fugir do miserê, devem passar por uma bateria de testes chamada “Processo” e só 3% dos candidatos conseguem ser aprovados em todas as etapas e ter a vida prometida em Maralto. Se você vive em um mundo onde a competitividade é feroz, cada vez mais os níveis de qualificação exigidos aumentam, gerando uma massa de excluídos/desencantados/frustrados/eleitores do Trump, você vai se identificar com a premissa da série.

Dito isso, vou me focar em alguns aspectos técnicos da série e o primeiro deles é a produção. E bem, a produção é…

Pobre.

É, é bem pobrinha, dá pena até. A série em si é quase toda gravada em um único prédio, o estádio do Corinthians, mas é uma série de 8 episódios com basicamente uma locação. Há cenas que parecem ser gravadas no subsolo de um prédio residencial e fica complicado querer convencer que quadros de luz de um prédio são máquinas futuristas. Os efeitos especiais são quase nulos e quando aparecem nos fazem preferir que fosse totalmente nulos. Na CCXP um diretor da Netflix garantiu uma segunda temporada, tomara que na próxima ele libere mais verba pra galera fazer um trabalho com um pouco mais de qualidade, porque tá foda. Fazer um rasgo em forma de cruzeiro do sul na manga de um terninho e dizer que é uniforme futurista, realmente não dá.

Mas para não dizer que não falei de flores, a série tem seus méritos (até o Moe tem, por que 3% não teria, né?).

A história, que é clichezenta, é, até por isso, cativante. É um plot já batido e campeão, todo mundo curte futuro distópico, estão aí os fãs modinhas de Black Mirror que não me deixam mentir. Até conhecidos meus, apoiadores de Bolsonaro, viraram fãs de uma série que, entre outras coisas, denuncia os riscos de governos autoritários. É, vai entender….

E 3% nesse sentido é muito bem feitinha. Pegando o gancho do futuro distópico, a série também discute várias outras questões muito pertinentes: desequilíbrio social, grupos civis de combate ao status quo, a questão da meritocracia, a crueldade de processos de seleção, tanto no mercado de trabalho, como no Enem (a série pra mim pareceu muito como uma grande metáfora sobre o Enem e processos seletivos em geral), enfim, questões atuais que rendem boas horas de discussão em uma mesa de bar, ou posts raivosos e discussões vazias se você gosta de perder seu tempo no Facebook.

O roteiro tem furos, forçadas de barra, mas nada que faça sentir vergonha alheia, e tem o mérito de prender o espectador no fim de cada capítulo. Como ela tem poucos capítulos – 8 -, cada episódio é relativamente curto – 47 a 49 minutos – está completa na Netflix e dá até para assistir de uma tacada só. As reviravoltas estão lá, os conflitos, os dramas pessoais e aí entra no que pra mim é a maior força da série: as atuações.

O elenco conta com Bianca Comparato, João Miguel, Michel Gomes, Rodolfo Valente, Vaneza Oliveira, Viviane Porto, entre outros, sendo destaques o João Miguel, como Ezequiel, o Rodolfo Valente, como Rafael e a Vaneza Oliveira como Joana (essa considero a melhor atriz da série). Assistindo me pareceu nítida a entrega dos atores a esse projeto, como eles “vestiram a camisa” e fizeram um grande trabalho, talvez até devido às limitações da produção, fazendo com que compensassem os problemas com garra e vontade de mostrar algo novo, feito por nós ao nosso público. E, como eu disse antes, o esforço deles foi recompensado com a confirmação da segunda temporada.

Agora a pergunta crucial: vale a pena assistir?

Caras, é a primeira experiência da Netflix com esse grupo, a primeira obra completa deles no país, então, por isso, vale a pena sim. Sempre temos que começar por algum lugar. A escolha foi feita, a obra tem seus erros e acertos, a questão é saber valorizar os acertos e consertar os erros, mas isso só vem com o tempo. Não se trata de “ter boa vontade, porque é uma obra tupiniquim”, não, não vamos cair nessa esparrela que no fundo só nos deprecia. É uma obra que, vista com critério, mostra virtudes e defeitos e merece crédito, não por ser nacional, mas por ser o início de uma caminhada que pode render bons frutos, independente de que língua os atores falem.

Então é isso, beijo na bunda e até a próxima.

Se o Sorg não vender o blog antes, aquele fela da potcha.

E Huxley >>>>> Orwell!

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