Sim, vamos continuar revirando as tripas!

Não há muito mais o que possamos falar sobre o universo Crossed, criado por Garth Ennis e Jacen Burrows. Tudo o que precisava ser esclarecido, o foi no post sobre Crossed – Valores Familiares, inclusive como o roteirista David Lapham entrou na franquia. 

Psicopata não é o trabalho seguinte de Lapham na franquia. Antes, ele roteirizou o projeto Crossed: 3D, publicado em 2011 e concebido para o formato citado, com desenhos de Gianluca Pagliarani. Com meras 48 páginas, esta graphic novel foge do padrão de publicação adotado no universo cruzado, que normalmente desenvolve suas tramas ao longo de, pelo menos, 144 páginas. Mas o trabalho “de fôlego” seguinte de Lapham é mesmo Psicopata, mini em sete edições, não por acaso considerado o “Volume 3” de Crossed

O mundo já há algum tempo está um caos quando um pequeno grupo de humanos – aparentemente sem nenhuma relação com nenhum personagem apresentado anteriormente – encontra um homem caído em uma ravina, com a perna quebrada. A turma – formada por dois casais, embora Amanda e Darwin estejam mais pra ex – se divide, com os homens argumentando com as dificuldades que teriam a mais para continuar escapando dos cruzados se tivessem que levar uma pessoa com dificuldades de locomoção. Mas o próprio ferido os convence, dizendo saber onde fica uma base humana em Nova Jersey, onde não apenas existiam recursos em abundância e um grande número de pessoas normais, além de um laboratório onde os cientistas estariam muito perto de descobrir uma cura. Além disso, Harold Lorre, o resgatado, também demonstra conhecer bastante sobre os hábitos dos contaminados e ter uma audição altamente desenvolvida por – pasmem – ter passado mais de um ano sem falar. Uma demonstração desta habilidade faz com que ele ganhe o voto de confiança da maioria e siga viagem com eles.

A coisa mais importante é não ser visto. Se souberem que está lá, nunca vão parar de procurar. se não, é só o caso de ter mais coisa pra destruir e seguir em frente. Ficar quieto e esperar. Fiz isso mais vezes do que consigo contar. Uma vez fiquei vinte e seis dias deitado debaixo do assoalho de uma casa, comendo aranhas e sugando a condensação dos canos. E adivinha só… Eu ainda estou aquiiiiiiiii.

Mas o leitor desde o começo fica a par de que Lorre é um homem sexualmente perturbado e dissimulado. Boa parte das coisas que ele conta pros outros são mentiras, até bobagens embaraçosas que servem para criar uma maior proximidade entre ele e as duas mulheres. O insano na verdade está em busca de um grupo de cruzados que roubaram sua mochila, onde ele guarda um item bizarro e que diz muito sobre a sua condição mental. 

Consciente das fraquezas do grupo que o acolheu, Harold os manipula para que localizem o bando que ele busca e os coloque em conflito com outro grupo de cruzados, visando desta forma facilitar o resgate da tal mochila. Porém, Lorre não consegue evitar a perda de foco, motivada pelas  duas mulheres, que despertam sua atenção de formas distintas. 

Qualquer leitor de The Walking Dead já está familiarizado com o tema: num mundo de monstros, o ser humano consegue se mostrar o verdadeiro vilão. Mas Crossed consegue, como sempre, ir um pouco além. Não estamos aqui tratando de pessoas normais que abraçam uma nova forma de encarar o mundo para sobreviver. O que o autor busca é algo do tipo “como se encaixaria alguém como Ted Bundy neste mundo estranho e assustador?”

Lapham é bem sucedido por colocar o leitor como um espectador privilegiado dos fatos, vendo em alguns momentos três versões diferentes para uma mesma cena: enquanto as cenas nos mostram o que realmente aconteceu, os recordatórios “íntimos” do vilão mostram a forma como sua mente distorcida interpretou os fatos, enquanto sua narração para o grupo nos apresentava uma terceira versão, ainda mais distante da realidade e sempre buscando conquistar a simpatia das garotas. 

O escritor ainda dá um desenvolvimento aos cruzados. Neste volume, descobrimos que alguns deles começaram a se agrupar em tribos, inclusive adotando estilos que visam torná-los diferentes dos outros. Lorre persegue os Peles-de-Sangue (assim chamados porque andam sem roupa, com o corpo besuntado com o sangue de suas vítimas) e os leva a uma batalha contra os Máscaras-de-Rosto (que “vestem” a pele de seus padecentes, notadamente a do rosto). 

Por  outro lado, como na obra de Robert Kirkman, não é dado nenhum destaque  a um deles especificamente: Harold Lorre está no centro do palco e é literalmente a criatura mais aterradora aqui. E o que o torna assim é a visão de mundo que ele possui, onde trair, mentir, estuprar, torturar e matar não são atitudes condenáveis. Para Lorre, nada do que ele faz está errado. Ele age de forma dissimulada não como uma pessoa que sente qualquer vergonha dos próprios atos, mas como alguém que esconde seus instintos básicos apenas por saber que eles não são aceitos de bom grado pelas outras pessoas. Incapaz de empatia com quem quer que seja, Harold aproveitou a epidemia cruzada para poder dar vazão a um lado perverso que sempre esteve dentro dele. 

O que aconteceu comigo? Digo, de verdade? Eu passei dez minutos espancando uma mulher perfeitamente gentil, até matá-la. E foi como se meu corpo estivesse repleto de eletricidade. Tive uma fantasia de que o paraíso era real e que os pais dela estavam me vendo. Imaginei todas as pessoas que já a conheceram e em quanta dor intensa teriam ao presenciar isto. Me fez rir. Minha ereção não passava. Me senti sobre-humano.

O trabalho do espanhol Raulo Cáceres merece atenção. Ouso dizer que nenhum outro desenhista até aqui tinha entregado páginas tão visualmente perturbadoras nesta série. Ele nos ajuda a entrar na história, montando suas cenas de acordo com a mente moralmente defeituosa de Lorre, com foco no aspecto sexual. Cáceres também capricha nas expressões faciais, não só expondo o sofrimento por que passam as vítimas do psicopata, como destacando o quanto ele é dissimulado e perverso.

Sua arte-final é cuidadosa, dando atenção à ilusão de relevo em pessoas e objetos, como as roupas. Me lembrou muito os artistas das histórias de terror de antigamente, em preto e branco. Aliás, o trabalho de Raulo não faria feito em uma versão sem colorização.

A edição da Panini Comics vem com a qualidade normal de sempre, capa dura (mas não muito: é incrível como é fácil de sofrer danos e ficar deformada) e papel de boa gramatura. Os extras, pra surpresa de mais ninguém, se limita a uma galeria com algumas capas originais e alternativas, que focam nos cruzados se divertindo.

Vale? Olha, com um bom desconto, sim. 

Crossed – Psicopata. Roteiro de David Lapham. Arte de Raulo Caceres. Editora original Avatar Comics. Editora no Brasil Panini. 176 páginas. R$ 64,00. E se você quiser comprar, cliquei na capa e você será magicamente levado para uma loja cheirosa e cheia de descontos.