“Você já ouviu falar na tragédia de Darth Plagueis, o Sábio? Eu achei que não. Não é uma história que um Jedi contaria.”

Uma coisa que admiro em um escritor que empresta seu talento para criar histórias dentro de uma franquia que pertence a outra pessoa é a consciência de que um bom trabalho dificilmente lhe renderá o mesmo crédito que se tivesse investido seu esforço em algo original. Afinal, mesmo que se argumente que criar dentro de um “universo” já conhecido e com uma base de fãs estabelecida garante uma visibilidade imediata que dificilmente se alcança sem que você seja um autor importante, esta mesma exposição lhe obriga a tomar uma série de cuidados para não entregar um resultado mediano ou fraco, que seria – merecidamente – malhado por estes fanáticos.

James Luceno, de setenta anos. Para ele, a noção de “equilíbrio” da Força passa longe de uma mera relação aritmética entre o número de Jedi e Sith, pois fugiria de qualquer noção desenvolvimentista, já que ambos os lados simplesmente se anulariam, “equilibrando-se”. Luceno tem uma noção de equilíbrio como algo que deve progredir sem desvios. Daí vem a interpretação de que a Força estaria insatisfeita com a situação em que se encontra no começo do livro, pois os Jedi perderam o rumo ao se entregarem a uma interpretação reverencial e dogmática dela, enquanto os Sith mantém sua intenção clara de subjugá-la aos seus interesses. Ela então teria agido, “enviando” um Escolhido para que fosse trazido novamente o “equilíbrio”,ou seja, para que fosse retomado um caminho de evolução. Assim, se pode abandonar a estúpida ideia de que Anakin Skywalker seria “filho” de Plagueis ou de Sidious. O fato deste último estar ciente da existência de um ser com alto potencial junto à Força não tem nada a ver com ele ser de alguma forma responsável pela “gestação espontânea” de Shmi Skywalker.

James Luceno aparenta não se importar que uma boa parte do seu talento seja ofuscado pela poderosa marca criada por George Lucas. Ele transita confortavelmente entre personagens e conceitos criados ao longo de décadas, desenvolvendo-os sem ir contra o que já foi estabelecido, sendo isto parte do segredo que o tornou um dos mais bem sucedidos escritores de Star Wars. Logo, não houve surpresa na sua escolha, em 2007, para contar a história de Darth Plagueis, o misterioso Lorde Sith que treinou Palpatine, o grande executor da queda do Escolhido, da Ordem Jedi e da própria República.

Hego Damask II é resultado de uma experiência de seu futuro Mestre, Darth Tenebrous, que instruiu uma fêmea da raça Munn com sensibilidade à Força (não apurada o suficiente, no entanto, para se tornar sua aprendiz) a seduzir e engravidar de Caar Damask, influente integrante do Clã Bancário. Desta forma, Tenebrous conseguiu um discípulo poderoso não apenas  junto à Força, como também política e economicamente, ainda mais depois que este, engenhosamente, se livrou da “concorrência” de seus meio-irmãos.

No entanto, projetos mudam ao longo do tempo e Luceno viu a história de Plagueis ir “para a geladeira” durante um período, pois a cúpula responsável pelos derivados de Star Wars havia decidido que seria muito mais interessante contar a trajetória do próprio Palpatine, fazendo uma espécie de prequel que se conectaria diretamente com a então Nova Trilogia. O autor, sabendo que tinha o embrião de uma boa história em seus primeiros rascunhos, se esforçou para que o trabalho seguisse adiante, realizando uma radical mudança de direção. Em 2010, ele recebeu novo sinal verde. Por isso, apesar de manter o título, o livro funciona muito mais como uma origem do infame Darth Sidious do que do seu mestre, Plagueis.

Um jovem Palpatine treina diante do olhar de seu Mestre, Darth Plagueis. A famosa Regra de Dois, imposta por Darth Bane, já era considerada superada por ambos. Na verdade, Plagueis descobre que seu próprio Mestre já treinava outros Aprendizes (embora, aparentemente,apenas com a intenção de burlar a Regra, substituindo o seu seguidor de tempos em tempos). Por isso que Palpatine, mesmo sendo o segundo, tinha um iniciado, Darth Maul. Posteriormente, Darth Tyrannus também tinha sua própria discípula, Asajj Ventress. E, na Trilogia Clássica, pelo menos diante um do outro, o plano de Sidious e Vader era ter Luke Skywalker como um terceiro Lorde Sith.

Por isso, apesar de abrir com Plagueis assassinando seu Mestre, Darth Tenebrous, e lutando pela própria sobrevivência para evitar que os Sith fossem extintos, o livro como um todo dá pouco enfoque às origens do Muun, preferindo se deter em todas as fases da relação deste com seu aprendiz, mostrando como Palpatine foi descoberto, recrutado, treinado, instruído e guiado no mundo da política, numa estrada que o levaria ao cargo de Supremo Chanceler e, daí, para o de Imperador.

“Ser forte na Força é uma coisa. Mas acreditar-se todo-poderoso é um convite à catástrofe. Lembre-se de que, mesmo no plano etéreo que habitamos, o imprevisto pode acontecer.” – Darth Tenebrous –

Claro que alguns aspectos da misteriosa figura de Plagueis são trabalhados – e bem! – no texto. Ele é mostrado como um estrategista, que levou em conta os mais diversos aspectos e recursos para criar as condições de instabilidade que dariam aos Sith, inferiorizados numericamente e escondidos nas sombras por quase mil anos, as vantagens necessárias para derrotar os Cavaleiros Jedi. Para Plagueis, todos os caminhos devem ser estudados, todos os meios devem ser considerados para se alcançar a vitória sobre seus mais destacados inimigos.

Darth Maul. O Zabrak tem sua origem contada, onde se descobre que ele chegou muito jovem às mãos de Darth Sidious. Da forma como é desenvolvido, entendemos porque ele, apesar de ser considerado um Lorde Sith na Trilogia Prequel, não parece reunir algumas qualidades que costumam ser associadas a estes. Realmente, apesar de suas fantásticas habilidades físicas, Maul não parece ser muito intelectualizado nem ter grande domínio da Força, sendo nestes pontos inferior a Vader, Tyrannus e mesmo Ventress.

Outro ponto a ser destacado é a busca de Plagueis pela imortalidade ou, sendo mais preciso, pelo controle da morte! Sua fixação neste objetivo é quase tão grande quanto na destruição da Ordem Jedi. Ele chega ao ponto de se isolar por anos de todos, completamente voltado para suas experiências neste campo. Mais uma boa desculpa para trazer seu discípulo ao centro do palco.

Capa da edição original. É óbvio que Plagueis se surpreende com os poderes de Palpatine, pois o Munn tem pouco apreço pelos humanos, a ponto deste se tornar seu ponto vulnerável na relação com seu aprendiz. Como constatamos nos filmes, o preconceito é recíproco: Darth Sidious se cerca de humanos (ou, pelo menos, humanoides), desde os stormtroopers até os Grand Moff.

O livro ir se tornando aos poucos uma história de Palpatine e sua transformação em Darth Sidious faz absoluto sentido quando consideramos que Plagueis – assim como o próprio Imperador na Trilogia Clássica – não é um guerreiro, embora tenha habilidades de combate. Mistura de cientista, feiticeiro, financista e político, o Lorde Sith não é forçado a situações de ação física desnecessariamente. Em vez disso, temos uma figura que age nas sombras, preparando pacientemente a situação de caos que desestabilizará a República e abrirá o caminho para a derrocada Jedi. Ver como estes planos são desenvolvidos em seus mínimos detalhes para se encaixar com os acontecimentos da Trilogia Prequel é outra prova da habilidade do escritor. Luceno trabalha com segurança uma série de ideias que foram apenas jogadas nos filmes, tornando-as bem mais aceitáveis.

“A vontade de matar seu superior é intrínseca à natureza de nosso empreendimento. Minha força inacessível faz brotar a sua inveja; minha sabedoria alimenta seu desejo; minhas conquistas incitam suas ambições. Assim tem sido desde mil anos atrás, e assim será até que eu o tenha guiado à igualdade.” – Darth Plagueis –

Mesmo assim, há um ponto em que ele falha: quando narra a queda de Palpatine para o Lado Sombrio, o faz com um episódio de extrema violência voltada contra entes próximos. Ficou claro que a intenção do autor é passar a ideia de que um candidato a Sith sempre tem um ritual de passagem sangrento, em que ele não necessariamente é senhor de suas ações, agindo mais por uma espécie de embriaguez provocada pelo excesso de poder que sente ao retirar suas inibições na relação com a Força, do que um Lorde Sith experiente se aproveita. Óbvio que Luceno escreveu esta passagem tentando justificar uma das ações mais polêmicas do Episódio III: o assassinato de pequenos padawans por um recém-designado Darth Vader. A ideia em si é interessante, mas não conseguiu me convencer.

Conde Dookan e Mestre Zaifo-Vias. Como estes dois Mestes Jedi, diversos outros personagens aparecem no livro, sendo encaminhados às posições ou ações que ocupam ou influenciaram nos filmes (o que valoriza o planejamento dos Sith para retomarem o poder). Entre eles, temos os Jedi Qui-Gon Jinn e Obi-Wan Kenobi, o criminoso Jabba e os políticos Finis Valorum, Padmé Amidala e Nute Gunray.

A publicação da Editora Aleph mantém um padrão de qualidade que atende às exigências dos fãs sem sacrificá-los financeiramente. Erros de digitação e de revisão que vi em outras obras mais antigas são evitados aqui. A montagem do volume melhorou: as costuras e a colagem dos cadernos está excelente, sem apresentar nenhum sinal de desgaste, mesmo minha edição tendo mais de um ano que foi adquirida. O papel possui boa gramatura, tem aquela cor levemente amarelada (o papel branco eu acho ofuscante na claridade), a capa é um cartonado que merece o nome. Tem bom tamanho sem ser muito pesado. Em outras palavras, mantém o bom padrão de acabamento das outras edições de Star Wars publicados pela editora.

“Se os Jedi fossem obedecer a sua filosofia de agir de acordo com a Força, de fazer o que é certo, passariam para o Lado Sombrio. Yoda e os demais membros do Conselho dobrarão suas sessões de meditação na tentativa de espiar o futuro, apenas para encontrá-lo nublado e imprevisível. Apenas para ver que a complacência abriu as portas para a catástrofe. Se de fato eles têm agido de acordo com a Força, como foi que nós é que tivemos sucesso em tombar a balança? Como pode o Lado Sombrio vir ganhando espaço? Na verdade, os Jedi têm resvalado para fora de sua tarefa auto-incubida, seu nobre caminho.” – Darth Plagueis –

Como é impossível estar satisfeito, lamento que não tenha algumas notas de rodapé para situar alguns iniciados, fazendo, por exemplo, referência com outros livros já publicados cujas tramas são citadas aqui.  De extra o livro traz apenas uma entrevista com o autor.

Darth Plagueis. Autor: James Luceno. Tradução: Caio Pereira. Título original: Darth Plagueis. Editora original: Lucas Books. Editora do Brasil: Aleph (Selo Legends). Brochura. 442 páginas. 2016. Preços variando entre R$ 14,90 e R$ 49,90 (sem frete).

 

 

  • Excelente resenha, Double Jay!

  • Canoa Furada

    Excelente resenha!

    Minha única dúvida é se há necessidade da leitura prévia de outros volumes, porque o UE parece sem bem complexo.

    • JJota

      Não. Cada autor tem a preocupação de explanar, ainda que brevemente, sobre cada assunto que não tem destaque nos filmes. Ter uma base, claro, enriquece ainda mais a experiência, mas não é necessária.

  • Bizarro

    Cara, acho esse livro fantástico. Ele soube situar bem como os Sith são ardilosos, posicionam as pessoas certas, criam uma crise galactica e se aproveitam de toda oportunidade possível. Amarrou bem pontas que nem precisava, usou a força como um fator atuante em vez de algo mais passivo. Como na oportunidade de sugerir a ideia de um exercito a Syfo Dyas, a força “segurou” Plagueis, ou como ela “contra-atacou” os experimentos do Plagueis, criando Anakin. No começo fiquei meio ressabiado com a ideia de mostrar o passado do Imperador, sempre curti mais a ideia de tu não saber quase nda dele, que até mesmo Palpatine teria sido um personagem pra ele. Mas com o tempo fui me acostumando e curtindo muito, até mesmo o encaixe do Maul na historia, que nunca foi um Sith, sempre foi apenas um assassino e que como Plagueis diz, teria que ter cuidado com sua arrogância (o que acabou acontecendo ao encontrar Obi-Eu sou foda pra caralho-Wan e Qi Gon Jin).

    • JJota

      Pois é. Curti demais a leitura. A forma como o autor engenhosamente pega os conceitos apenas arranhados por Lucas e os amarra de uma forma que não apenas faz sentido como “salva” a Trilogia Prequel pros fãs antigos é fantástica!

      • Bizarro

        Pra ver como MUITA coisa das Prequels teve que ser concertada (e melhorada) nos livros.

  • Belíssima resenha, JJota!

  • O_Comentarista

    O único expandido de SW tem muita coisa boa, mas a Disney insiste em filmes com os Skywalkers…

    • JJota

      A Disney “apagou” o UE. Um absurdo!

  • starscream2

    Aos poucos vou descobrindo que a mídia mais fraquinha de Star Wars é justamente o cinema. Os filmes são bem meia boca, porém há livros e jogos legais na franquia.

    (Mas ainda prefiro Star Trek). =P

    • JJota

      Cara, até o jogo que “adapta” A Vingança dos Sith é muito melhor que o filme em si.

      E ainda tem um final alternativo!

  • Nice

  • Robin Hood

    Livros, livros, livros… Já falei que eu adoro livros?
    Depois de toda essa decepção com os novos filmes de guerra nas estrelas, tinha até esquecido que ainda há todo um universo expandido lá fora esperando para ser lido. Valeu pela lembrança, seu JJota!
    Agora, aproveita e manda o Sorg voltar a trabalhar que quem era o responsável por fazer resenha de livros é ele.
    Avisa que a legislação trabalhista e escraviária mudou, e se ele não tomar cuidado vamos pô-lo pra trabalhar 16 horas por dia sem direito a folga!

    • JJota

      se ele não tomar cuidado vamos pô-lo pra trabalhar 16 horas por dia sem direito a folga!

      Só dezesseis? O dia tem 24! Oque ele vai fazer com este horror de tempo que sobra? Dormir?Aí é muita folga!

      • Robin Hood

        Apoiado! Como dizia Napoleão, os homens precisam de duas horas para dormir, as mulheres quatro, e os idiotas oito!
        Por outro lado, talvez tenha sido por isso que o exército dele tomou na jaca quando foi pra Rússia. Os caras estavam com sono demais pra poder combater 🙂

        • JJota

          Hahahaha… Falando sério, você sabia que um dos motivos para o recuo alemão no Marne, que fez com que a ofensiva dos hunos fracassasse e o conflito estagnasse foi o fato de que um dos generais desobedeceu ordens e forçou seus soldados ao limite porque queria ser o primeiro a entrar em Paris? Ele acabou perdendo contato com o outro Corpo de Exércitos que seguia ao seu lado e “deu o flanco” por onde franceses e ingleses atacaram. Vários soldados alemães foram capturados por estarem, literalmente, dormindo em pé!

  • Super do BdE

    Parece interessante, mesmo eu não sendo fã de Star Wars. Faz parecer que os livros são melhores que os filmes.

    • JJota

      Em muitos pontos,sim.

      • Frogwalken

        Darth Tenebrous: Você não é páreo para O LADO NEGRO!

        Dadárth LUÇious: É VoSHeaN QuiN Vai PIRdeR ManU! UÉUCOMI TCHU DÁI!!!

        Darth Tenebrous: A LUÇ INTERNACIONAL PENETRA FUNDO NO MEU CORPO!!! QUE DELÍCIA, CARA!!!

    • Nicola “Majjin” Latorraca

      O Sorg disse uma vez q sou o fã mais escroto de star Wars, aquele que detesta os filmes… O q posso fazer se os livros são muito melhores q os filmes… O George Lucas teve uma lampejo e criou um universo, mas quem povoou e expandiu esse universo foram os diversos autores q trabalharam nele “muito melhor” que o sei criador… Em minha opinião.

      • JJota

        É como eu disse: o Lucas teve boas sacadas e cria conceitos legais. Aí, na hora de fazer o filme, ele começa a pensar em cenas de efeitos especiais e esquece coisas como desenvolvimento de conceitos, de personagens… Adoro os filmes, mas tenho predileção pelo Universo Expandido, principalmente os livros, quadrinhos e as séries animadas.