Resenha Enxuta: Deuses Americanos – Episódio #01.

53
145

Sim, eu ainda tenho senha de acesso a essa pocilga e eu sou SIM, SÓCIO FUNDADOR DESSE LUGAR. Então senta aí e toma na cara a resenha tardia do primeiro episódio da melhor série de todos os tempos da última semana.

Neil Gaiman – autor da obra original – é um cara paciente. Ele sempre primou pela qualidade nas adaptações de seus escritos, não se importando quanto tempo leve para ser feito, desde que saia um material de qualidade (vide Sandman que nunca foi adaptado até hoje e Coraline que levou quase dez anos, desde a venda dos direitos, até ser transportado para as telonas). E se tem uma coisa nessa paciência do autor, que ficou bem clara já nos primeiros minutos do primeiro episódio de Deuses Americanos, é: a espera valeu a pena. Deuses Americanos foi desenvolvido e adaptado por Michael Green e por Bryan Fuller (Hannibal) e lá fora é exibida pelo canal Starz. Aqui no Brasil a série fica por conta do Torrent mais próximo de você da Amazon Prime.

Assim como no romance, onde nas primeiras páginas você já sabe exatamente o que encontrará no resto do livro (o primeiro capítulo termina com o conto da Bilquis), a versão televisiva de Deuses Americanos não deixa por menos e já mostra pro telespectador até que ponto um grupo de pessoas pode chegar em nome da fé – isso, é claro, não aliviando na ultra violência e nos litros de sangue cenográfico. Aliás, isso já pode ser considerado um divisor de águas: Deuses Americanos já deixou bem claro que, assim como a sua contraparte literária, a série não é para qualquer um. Teremos violência, palavrões e sexo, entre muitas outras coisas que fogem do “padrão”. Um ótimo paralelo com outra série atual, que não é para qualquer um, pode ser Legion, da FOX (mas isso é assunto para outro dia).

Em“The Bone Orchard” somos apresentados ao protagonista Shadow Moon, um presidiário liberado alguns dias antes do fim de sua sentença, em função da morte de sua esposa, Laura, que sofre um acidente de carro, já aqui mostrando algo que veremos ao longo da série acontecendo bastante na vida de Shadow: Tem uma notícia boa e uma ruim, qual você quer primeiro?

É interessante fazer um paralelo com o romance, pois este primeiro episódio – tirando alguns detalhes, como os próprios Vikings no inicio do episódio e alguns sonhos de Shadow – o episódio é quase que uma tradução literal dos primeiros capítulos do livro, onde ele passa os primeiros perrengues com as passagens de avião, descobrimos que ele não é apenas um cara “grande e burro” e por último, mas não menos importante, somos apresentados às cerejas do bolo do livro/série: as criaturas mitológicas, as divindades.        

Desde  um colega de cela tagarela – não vou dizer quem ele é, pois não sei como isso será abordado na série e pode estragar o futuro – passando por um Leprechaun não-estereotipado, um belo curta da deusa do amor (TEVE A CENA DA XAVASCA ENGOLIDORA DE HOMENS, OMG, ELES REALMENTE FIZERAM ISSO, AINDA ESTOU ESTUPEFATO) e logicamente… O Sr. Quarta-Feira Wednesday – que felizmente ainda não fica claro qual divindade ele é, o que acho sensacional pra quem tá chegando de paraquedas na série e não sabe nada sobre o livro.

Deuses Americanos, enquanto romance, é um livro que usa e muito do visual. As descrições do Gaiman são extremamente viscerais e nos passam aquela sensação de imaginação que só um livro de mitologia no melhor estilo Tolkien poderia conceber… e aí pairava uma dúvida que até eu e Sorg discutimos bastante sobre: Como traduzir isso para a telinha? A questão do “como” até nem era o pior, mas sim se eles teriam a capacidade de traduzir algo assim para uma série de TV… para responder isso, só precisou de duas cenas do episódio: Os sonhos de Shadow (não vou contar onde é aquilo) e A CHUVA DE SANGUE DOS CARAS DO LARANJA MECÂNICA NO FINAL DO EPÍSÓDIO (bela referência, aliás). Tirando o filtro Snyderiano que me irrita um pouco, a série está linda visualmente. O mesmo pode ser dito pela parte de áudio, que recebeu um tratamento diferenciado, mesclando músicas e trilha sonora original, algo que não deve em nada para uma grande produção de Hollywood.

Outro ponto interessante de Deuses Americanos é que o livro tem muitas camadas e, ao que tudo indica, a série caminhará pelo mesmo caminho. Uma vez que o subtexto do romance é um tema extremamente atual e gerador de muita polêmica, principalmente nos Estados Unidos, e mais ainda em tempos de Trump, como chefe do executivo. Existe uma discussão muito antiga nos EUA sobre imigrantes, sobre os “não-americanos” de verdade, uma coisa que Trump vem exacerbando de uma maneira inacreditável, desde que começou sua corrida pela Sala Oval. É algo deles. É uma coisa que tá incrustado lá, tanto quanto o preconceito contra os negros, e é justamente disso que Deuses Americanos fala: imigrantes. Algo sob o qual o país foi forjado. Sem os imigrantes, a América como conhecemos hoje não seria o que é. É um assunto enraizado na sociedade americana e ver isso ser abordado em uma escala maior – já que, né, nem todos leram o livro e uma série de televisão tem muito mais alcance – vai ser extremamente interessante para a discussão política que isso pode gerar. Como Gaiman disse certa vez, quando estava na Islândia e teve a primeira ideia para o romance, alguns muitos anos atrás:

“Quando os primeiros imigrantes chegaram no que viria a se tornar os EUA… aposto que eles não vieram sozinhos. Aposto que eles trouxeram seus espíritos e seus deuses com eles e de repente eu tinha a ideia pra um romance em minha cabeça.”

Valeu a espera e vai valer a discussão.

Assistam a Deuses Americanos e se divirtam e se espantem e se maravilhem com esse fantástico mundo, criado por esse baú de histórias, conhecido como Neil Gaiman.

Nota para o piloto: 9 de 10.

P.S.: Esperava uma atriz mais gostosa para ser a deusa do amor.

Comentários Facebook (O DISQUS ESTÁ ATR... LOGO ABAIXO)

Comentários Disqus

BDE1