A canção de amor e fúria de Miller à sua mais famosa criação pra Marvel!

Frank Miller havia retornado à Marvel para escrever aquela que hoje é considerada a maior história do Demolidor de todos os tempos: A Queda de Murdock. Paralelamente, apresentou propostas envolvendo uma graphic novel (cujo enredo ele tinha começado a esboçar ainda durante sua passagem anterior na editora do Homem-Aranha) e uma mini – a ser publicada dentro do selo Epic – ambas com a assassina que ele havia criado durante a sua primeira fase como roteirista pelo título do vigilante cego da Cozinha do Inferno. Os olhos dos editores brilharam, mas… como seria possível, se o próprio Miller havia matado Elektra?

Frank Miller – ao lado de Bill Sienkiewicz – numa sessão de autógrafos em uma comic shop nos anos 80. Como desenhista e, posteriormente, roteirista, havia salvado do cancelamento o título do Demolidor. Paralelamente, ilustrou uma mini em quatro edições do Wolverine, roteirizada por Chris Claremont, ainda hoje considerada uma das melhores histórias do Carcaju. Publicou pela DC seu trabalho autoral Ronin (que recentemente ganhou uma edição de luxo pela Panini). 1986 foi um ano incrível na sua trajetória: voltou à Marvel para, ao lado de David Mazzuchelli, produzir o mítico arco Born Again (ou A Queda de Murdock), enquanto a concorrente DC publicava sua obra-prima Batman: O Cavaleiro das Trevas, que saiu paralelamente aos primeiros números de Elektra Assassina. Para fechar um ano tão importante, Miller ainda veria publicada em dezembro a graphic novel Demolidor – Amor & Guerra, centrada no Rei do Crime e também ilustrada por Sienkiewicz.

Frank deixou claro que a graphic explicaria a situação dela, depois de ter encontrado o fim de seus dias nas mãos do Mercenário e da “frustrada” tentativa de ressurreição pelas mãos do Tentáculo. Quanto à mini, Miller pretendia a situar temporalmente em um período anterior ao surgimento da personagem nas páginas de Daredevil, se aprofundando mais na mente da bela grega e desenvolvendo melhor alguns elementos da sua origem (apenas arranhada até ali). Ele também queria aproveitar a trama para tecer uma crítica bem humorada ao que os quadrinhos de super-herói vinham aos poucos se transformando.

A primeira publicação desta história no nosso país foi em 1988, numa mini de quatro edições pela Editora Abril. No ano seguinte, sairia um encadernado juntando todas. Apenas em 2005 Elektra Assassina ganharia uma nova edição, em um encadernado de capa cartonada pela Panini, que foi reeditado – agora em capa dura – em dezembro de 2016.

Miller não teve uma segunda opção de artista para colaborar com ele neste projeto: Bill Sienkiewicz era uma força criativa aprisionada que precisava de um trabalho desta envergadura para se libertar. Ele e o roteirista terminaram fazendo desta parceria uma saudável disputa de talentos, onde escritor e ilustrador usaram o marvel way para se desafiar a cada página, com um tentando superar criativamente o outro, fazendo com que a trama tomasse rumos inesperados.

Bill Sienkiewicz, ao lado de Frank Miller, em uma convenção em Ohio em 1986. Iniciou sua carreira nos aos 80, fortemente influenciado pelo trabalho de Neal Adams. Depois de passagens pelos títulos do Cavaleiro da Lua, Quarteto Fantástico e Novos Mutantes, deixou seu traço evoluir, adotando e misturando diversas técnicas de ilustração, o que o lhe destacou artisticamente. Elektra Assassina e Demolidor – Amor & Guerra estão entre as principais obras da sua carreira, em parte por marcarem esta evolução na sua forma de contar uma história em quadrinhos.

Na primeira parte (de um total de oito), encontramos a linda assassina presa em um hospício de um pequeno país da América do Sul. Enquanto é submetida a terríveis tratamentos, Elektra mergulha na própria mente e tenta remontar a sua história, visando não apenas evitar que sua psique seja destruída pelos médicos, mas também lembrar como, enfim, viera parar naquele local. Assim, temos um mergulho na mente da personagem, mas não da maneira usual: ela está claramente instável pelos choques, maus tratos e drogas aplicadas, com sua mente divagando perigosamente, criando trechos no seu passado que não existiram (será que não?), embora os ordenando de forma sequencial. Com o texto e a arte expressando a perturbação dos sentidos da Elektra, o leitor passa pelo assassinato de sua mãe, o início de seu treinamento com artes marciais, seu período com os Virtuosos, a morte de seu pai, o recrutamento pelo Tentáculo, a missão que a levou até aquele país sul-americano e o desdobramento da mesma, que provocou sua captura.

“Apesar de ter treinado meses… de ter aprendido a pegar um pássaro em pleno voo… a não deixar pegadas na neve… apesar de eu não sentir frio e nem dormir… Stick me expulsou. Quis mostrar a ele a minha coragem e não chorei. Só me aproximei… e disse adeus sem falar. Senti sua surpresa quando el percebeu que eu aprendi a técnica. Então sua alma ficou fria e dura. Meu adeus se espatifou contra ela. E eu caí.” – Elektra –

Depois de fugir do hospício, Elektra parte na caça do responsável pelo sua forçada internação: o embaixador dos EUA, que ela acredita estar sob domínio da Besta, uma criatura demoníaca – literalmente falando – que seria a “alma negra” do Tentáculo. Enquanto isso, é perseguida por dois agentes “especiais” da Shield, sendo que um deles, Garrett, desenvolve uma fixação pouco natural pela grega. Quando tudo parece resolvido, a assassina muda o foco de suas ações e parte para os Estados Unidos para confrontar Ken Wind, o popular candidato democrata à presidência norte-americana e, segundo a opinião de Elektra, o novo escravo da Besta, ponto vital num plano do Tentáculo para trazer de volta ao planeta o frio e o silêncio da escuridão através da destruição do mundo no caos nuclear.

Elektra e Garrett. A forma como ele se sente atraído pela ninja que domina a sua mente, onde o desejo de possuí-la se mistura com o de fazê-la sofrer fisicamente nas suas mãos, revela muito mais da antiga personalidade do ex-humano do que se imagina à princípio.

Alguns pontos devem ser considerados. O primeiro é a forma como os autores trabalham a narrativa, alternando reminiscências da grega e a narrativa chula do agente Garrett com relatórios em áudio e vídeo não apenas deste como de outros operativos da Shield. Ao mesmo tempo, cada capítulo abre com uma pequena notícia de jornal que faz alusão à fatos ou personagens da história. Tais técnicas são interessantes porque, à medida que avançamos na trama, começamos a questionar o que é realidade e o que pode estar acontecendo apenas na mente da Elektra. Afinal, há mesmo um demônio controlando o próximo presidente dos Estados Unidos? Ou é uma invenção da mente perturbada da grega, que busca assim justificar seus atos perante sua própria consciência? E tantas coincidências que ocorrem pelo caminho – como o colapso que tira do caminho a esposa de Ken Wind, ocorrido na primeira noite em que encontra o marido depois do mesmo ser “possuído” pela Besta – são realmente apenas acasos ou provas de que este demônio não apenas existe como se esconde na descrença dos homens?

A Besta, criatura pela qual Elektra parece estranhamente obcecada.

Outro ponto positivo é ver o que até então fora mostrado de forma bem mais… delicada: Elektra em ação. Sem as amarras existentes em um título mensal que, por princípio, visava o público infantil, a ninja libra toda a sua hipnotizante força e violência. Ela quebra ossos, atravessa peitos com o punho e provoca um festival de desmembramentos. Indo mais além, também não se furta a deixar de lado as adagas e espadas e fazer uso – letal! – de armas de fogo. Quando parece não faltar mais nada, a assassina ainda demonstra capacidades mentais inesperadas: ela pode se comunicar sem palavras, escravizar a vontade de pessoas e – pasmem! – até trocar mentes de corpo (ou corpos de mentes, ou corpos E mentes… sei lá).

O envolvimento da Shield na história é a deixa para que Frank e Bill joguem um pouco de sujeira na brilhante aparência da orgulhosa agência. Nick Fury está longe de ser o comandante exemplar de uma equipe de heróis infalíveis. É com este grupo falho e burocrático que tem que enfrentar uma estranha mulher com capacidades sobre-humanas empenhada em assassinar o provável próximo presidente norte-americano. Enquanto isso, vai descobrindo que há muito mais acontecendo dentro do amplo ventre da própria corporação do que ele pode imaginar, principalmente no tocante a uma divisão da mesma que opera longe das suas vistas – e pela qual ele vem se empenhando pessoalmente junto ao Senado para a aprovação de novas verbas -, que tem por objetivo criar agente “melhorados” artificialmente, mas com critérios de seleção bastante questionáveis.

“Você é mais forte do que parece. Mais forte do que eu… Como pode? Você me jogou de cara num chão de cimento. O chão aqui é acarpetado. Tô todo sangrando… E você não para de inventar jeito novo de me machucar. Você me castiga… você me humilha… e eu te peço… pra não parar!” – Garrett –  

No texto e, principalmente, na arte, podemos ver a crítica debochada que os dois astros queriam fazer do mercado de quadrinhos norte-americanos nos anos 80, cheio de histórias com ninjas, ciborgues, telepatas… Sienkiewicz, então, esculacha, adotando um traço cartunesco para a maioria dos personagens (claro, nunca para Elektra, que é sempre retratada linda). Ele também brinca com a tendência dos artistas da época para o exagero, desenhando armas enormes, cenários mastodônticos e maquinário risível, de pouca praticidade (como os estranhos helicópteros utilizados pela Shield, que lembram feias botas femininas). Frank e Bill anteciparam, de forma jocosa, muito do que seria retratado – ad nauseam e de forma séria! – nos anos 90.

Nick Fury testando um canhão em forma de… pistola?

Aliás, nunca é demais chamar a atenção para a arte. Tinta acrílica, aquarela, carvão, giz de cera, lápis de cor, fotografia, colagem… Até a textura do material onde ele coloca a sua arte é levado em conta na feitura da mesma. E tudo organizado narrativamente, sem aquelas ilustrações que enchem os olhos mas dificultam o entendimento da história. Pois com Sinkiewicz, ao contrário de um bocado de “artista” que muita gente paga pau hoje em dia, a técnica está à serviço da história. E cada método deve ser adequado para a ideia que se faz de cada personagem. Não por acaso, Ken Wind, por exemplo, tem (quase) sempre seu rosto retratado através de uma colagem em preto e branco que lembra muito o ex-presidente John Kennedy. É uma forma de mostrar como políticos usam máscaras que se adequam a forma como acham que devem reagir diante de uma situação para agradar ao seu eleitorado, o que lhes dá uma baixa varidade de expressões faciais. No caso de Wind, ele só aparece ou sorrindo, ou sério… Tudo de acordo com a forma como Miller trata os diálogos do personagem, um verdadeiro “bajulador de eleitores”, sempre com um elogio à mão para quem quer que seja, não importando gênero, raça, cor ou religião.

“Há metal em meu caminho. Metal fundido em fornalhas e forjado por computadores. Metal prensado numa forma escolhida por máquinas barulhentas. Há metal em minhas mãos. Metal amaciado pelo fogo… dobrado e amassado por milhares de golpes de martelo… dobrado e amassado paciente e continuamente… até que cada uma de suas milhões de camadas ficasse mais fina que o ar… até que o fio ficasse mais fino que o ar… afiado o bastante para cortar qualquer coisa… feita em fornalhas… por computadores.” – Elektra –   

Para mim, há apenas um pequeno porém na história, que é o lance da “troca de corpos” que Elektra faz algumas vezes ao longo da história. O problema é que, no fim, sempre fico confuso, pois há momentos em que parece que as mentes simplesmente trocam de corpo, outros em que o que parece acontecer é uma ilusão, que faz com que olhos humanos e eletrônicos (!!) vejam uma pessoa como sendo outra e ocasiões em que a troca de mentes parece processar uma alteração física… Talvez a complicação seja proposital, mas destoou do resto. Só que o resto vale – e muito! – a pena.

Elektra Assassina. Roteiro de Frank Miller. Arte de Bill Sienkiewicz. Editora original Marvel Comics. Editora no Brasil Panini. Na foto, as duas últimas publicações, ambas pela Panini, sendo a da direita do fim de 2016, em formato americano, capa dura, 272 páginas, R$ 68,00 (preço de capa, você encontra bem mais em conta por aí). Em tempo, estas edições possuem praticamente o mesmo conteúdo (a edição de 2005 tem apenas quatro páginas a menos!), sendo quase despidas de extras.
  • Super do BdE

    É clássico sim!

  • Bizarro

    Uma ideia excelente, com desenhos maravilhosos, mas de execução confusa e final muito merda (assim como o final de Ronin, acho que tinha baixado Mark Millar no Tio Frank nessa época haha). Prefiro Elektra Viva, tem mais “cara e alma de quadrinhos”, principalmente de quadrinhos do Demolidor.

  • o Inconcebível Bob Balburdia

    Taí uma personagem que merecia um filme +18, pra compensar aquele outro filme horroroso.

    • Gordon Freeman

      Elektra está no MCU, possivelmente se adaptaria essa série pra NetFlix

  • Vipo Free

    A arte é belissima(serio uma das melhores que já vi), o texto já não acho tão bom, a historia só começa a ficar boa mesmo(pelo menos pra min) depois de 1/3 +/-.
    Embora a arte seja um pouco abaixo desta, acho que em amor e guerra tem um equilíbrio maior entre roteiro e desenho com os dois sendo excelentes.
    Eeeee o atual presidente que tem medo de perder o poder é a cara do nixxon.
    Ps:Nunca curti muito esse negocio dos poderes telepaticos da elektra e achei bem idiota a sugestão de que o pai possa ter abusado sexualmente dela, visto que ela sempre gostou muito dele(inclusive sua morte parece ter sido o motivo de sua queda/revolta) e ele sempre foi retratado como um bom pai, amoroso e cuidadoso.

    • JJota

      O texto, eu sempre digo, é uma vitória da persistência. Se você passar pelo início, meio desconexo (na minha opinião, propositalmente), é recompensado com uma boa história. Também achei meio nhé esse lanc de poderes telepáticos. S ela tivesse ficado no nível dos Virtuosos, estaria bom pra mim. Eu interpreto o lance do pai dela meio que como uma confusão mental provocada pelo nome… Eram outros tempos, onde dificilmente se pensaria à sério em algo assim.

    • Eduardo

      Acho que o lance do abuso foi uma tentativa de implante de memória, pra causar mais dor em Elektra.

  • Umas das melhoras histórias que já li e vi. O impacto visual e narrativo são incríveis. Não podemos esquecer dos detalhes sadomasoquistas e fetichistas usados pelos criadores na história. A arte é um show à parte… primorosa, desafiadora, transcendente e surreal. Tem uma página onde onde um dos agentes ciborgues (Garret ou o Perry) está sendo reparado ou remendado com uma máquina de costura gigante. Muito foda!!! Foda também é ver a Elektra realmente assassina… uma arma livre, bela… e mortal. Meus parabéns pela resenha, JJota. Possuo as duas edições (da Abril e a da Panini) e devo dizer que a tradução da Abril é a que mais gosto.

    • Vipo Free

      Acho que essa gn se destaca e é lembrada muito mais pela arte que pela historia em si.
      Na minha opinião: arte- 10 roteiro – 7

    • JJota

      Essa da máquina de costura gigante é hilária. As traduções da Panini, pra mim, deixam muito a desejar por serem sempre muito “certinhas”.

      • eu cretino

        Por isso que nem sempre os originais são melhores.
        Sei que não tem nada a ver com a matéria mas entra nesse contexto os casos de redublagens e relegendagens (sou abençoado pela luç e por isso essa frase pode existir sim).
        Exemplos: os bad boys foi relegendado e ficou ó, uma porcaria. (Ainda bem que eu tenho a velha fita de vídeo cassete…)
        Yuyu hakusho é outro que foi redublado quando fizeram a remasterização e ficou uma merda, mudaram as falas e o jeito clássico do urameshi. (Ainda bem que eu tenho a velha versão da manchete querida 😊)

    • eu cretino

      Para o bem e para o mal a abril cortava muito as histórias, Mas ainda sim ela foi a melhor distribuidora de gibis no Brasil. (Sua tradução era ótima e prática)

  • Anubis_Necromancer

    Me pergunto se a minha review de Revolutionaries 2 foi aceita…

    • Vamos conferir nos e-mails.

      • Anubis_Necromancer

        Obrigado.

  • Frogwalken

    Ainda arrastando o cadáver do Morrison por aí? Deixe ele afundar na Baía de uma vez! =P

    Ótimo post, bons tempos…

  • O_Comentarista

    Ótimo post, JJota!

    Do tempo que Miller sabia escrever, do tempo que os desenhos eram artes, do tempo que o roteiro fazia vc pensar…

    • Frogwalken

      Do tempo que não era ofensivo mostrar uma BUNDA! =D

    • JJota

      Comecei a ler a fase RYCA do Peter Parker… Cara, como aquilo é ruim…

      • Roberto Guilliman

        favorita dos SJW’s de plantão do CBR

      • Vipo Free

        Ta lendo na net ou nas hqs da panini?
        Se tiver lendo pela panini ta desperdiçando seu dinheiro, leia wolverine(com velho logan e wolverina) que vai se divertir bem mais.

        • JJota

          Eu coleciono Aranha há uns quinze anos… Mas tá difícil.

          Velho Logan, tô lendo as história do Bendis (as primeiras edições da Panini) e devo dizer que tá um porre também.

          • Vipo Free

            Aranha é complicado mesmo, na verdade pos one more day, só teve coisa aceitavel/legalzinho no maximo, com a maioria sendo bem ruim, eu desisti de acompanhar imeidiatamente antes de ilha das aranhas, voltei a acompanhar em aranhaverso na expectativa que aparecesse meus aranhas favoritos( que não apareceram).
            O Velho logan do bendis em guerras secreta é meio bundis mesmo(heh) mas a fase apos do jeff lemire é muito boa!(pula direto pra essa que você não perde nada).

  • Só resenha de material moderno.

    Brincadeiras à parte, só o roteiro do Miller valeria, mas a arte é também um espetáculo à parte.

    • JJota

      Cara, tá foda resenhar estas coisas que a Marvel e a DC vem publicando hoje em dia…

      • Ainda mais com o King em greve.

        • JJota

          Aí é que tá: é por isso que o King deu pane no sistema…

    • Vipo Free

      Não acho o roteiro dessa hq em particular tudo isso, agora a arte sim, uma das melhores coisas que já vi.