O invencível Tony Downey Jr ou a Tonystarkização da Marvel?

Deve ser estranho a um leitor recente de hqs da Marvel, alguém por volta de 5 anos de leitura ‘histórica’, o que irei escrever agora. Quando moleque lá nos idos de 80/90, a Marvel para mim eram os X-Men e o Homem Aranha. Apesar de algumas boas histórias, Vingadores e Quarteto (especialmente o segundo), pareciam como equipes importantes, mas muito mais ligadas a História do que propriamente algo importante para aqueles ‘dias atuais’. Por sinal, em uma época remota em que possuía assinatura mensal, no pacote vinham mescladas as hqs da DC e da Marvel. Meu hábito era deveras esquisito: eu lia primeiro as que não gostava. E lá se iam os Vingadores, Quarteto, Hulk e que tais, restando sempre ao final a Liga Cômica, o Aranha e os X-Men, não necessariamente nesta ordem.

iron man1

Provavelmente quem ainda lê estas mal digitadas linhas e resistiu o primeiro parágrafo (coisa rara atualmente, diga-se de passagem), deve pensar: ‘lá vem a história do velho ranzinza de que no meu tempo era melhor’. Não chegarei a este ponto, fiquem tranquilos. Necessariamente somos pessoas saudosistas, ainda mais quando pensamos em momentos bacanas de nossa vida, em especial a juventude. Com o tempo, geralmente, pintamos maravilhas e se formos um pouco mais isentos, veremos que nem sempre foi assim. No caso específico de quadrinhos, posso afirmar categoricamente que tive o privilégio de viver uma das melhores fases, onde os grandes clássicos desta arte foram escritos e hoje estão por aí cultuados. Isso é fato. Outro fato é afirmar que também houve muito material ruim daquela época, mas nossa memória seletiva às vezes ‘esquece’ disso. Não há um melhor ou pior, somente fases e oportunidades culturais/sociais de se escrever algo que faz sentido a cada geração e sua ânsia de informação.

Voltando ao tema em específico, a geração atual tem o privilégio inequívoco de ver seus heróis em outras mídias, especialmente nos cinemas. Coisa que na minha juventude, noves fora o Superman e o Batman, pouco se acreditava ser possível. Adicione a esta novidade o fato de que jamais estivemos tão conectados e com tanto acesso a informação como hoje e teremos o pano de fundo para o que vem acontecendo com a Marvel e DC nos quadrinhos. Diante do tema em específico, me aterei a Marvel.

Oras, há dúvidas do sucesso nos cinemas do MCU? Pode-se não gostar de algo aqui e acolá, criticar um determinado rumo adotado e se preocupar com a repetição de uma fórmula até então aparentemente inesgotável. No entanto, o sucesso é inegável. Assistimos a uma tendência de ‘heroificação’ nunca antes vista e que ainda pode perdurar por alguns anos. E daí? Daí que obviamente isso é muito, mas muito e põe muito nisso mais rentável que a mídia quadrinhos per se. Estamos escrevendo sobre algo que arrecada bilhão de obamas em bilheterias, fora os merchans adicionais, produtos, bonecos, jogos e etc. Ok, King, até agora choveu no molhado…

Sim, eu sei, caro leitor. Nenhuma novidade. E lá vem a obviedade ululante: o quadrinho se adapta ao interesse mercadológico do cinema. Precisa de exemplos? Não, né? Enfim, todo este texto para dizer que por conta do sucesso do MCU e dos ‘problemas’ de direitos autorais, os quadrinhos da Marvel são hoje apenas um reflexo de uma estratégia maior, onde os X-Men e o Quarteto (este realmente já capengando há anos) são delegados a um segundo e terceiro plano. O Aranha só não foi por que é uma marca poderosa e a Disneylândia brigou a até o fim para conseguir voltar com ele para o MCU, mesmo não sendo com plenos poderes e tendo que compartilhar os resultados com a Sony.

Lyla é você?

E isto não é bom e nem ruim. É apenas uma constatação. Sob diversos aspectos que não irei esgotar aqui por não ser um expert no assunto e também não virar uma ‘tese’ de doutorado, a ‘nova’ juventude tem peculiaridades jamais vistas e o mercado tenta se adequar a este público. A fluidez da informação, a superficialidade, a falta de foco e ânsia de novidades são características apontadas por muitos especialistas e possuem tanto benefícios quanto malefícios. Neste cenário, Marvel e DC fazem de tudo um pouco para angariar este público, cada vez menos habituado a leitura e focado em mídias interativas e essencialmente visuais. Assim, não se espante em ver o Peter Parker como um Tony Stark cool ou o Doutor Strange massaveio… ThorA, Batgirl ‘9vinha’, Mulher Aranha idem… SuperStronda (que não é ruim) e BatCoelhão… são novidades e atitudes novas para um público que carece deste tipo de ‘impacto’ para conseguir sua rara atenção.

Isto posto, voltemos ao Invencível Tony Downey. Ao construir a mais moderna armadura da ultima semana, Tony se depara com uma bela doutora que alega ter encontrado a ‘cura’ para os mutantes. Em paralelo, Madame Máscara apronta todas em altas confusões e aventuras, adentrando inclusive a Latveria, um reino atualmente em colapso e sem seu monarca. Por conta da vilã, Tony Pé Inchado vai a Latveria e acaba encontrando um outro alguém, agora totalmente repaginado…

12115904_175024866170169_3987774971878909396_n

Bendis quando quer não faz ‘Bendisses’ e mostra não precisar sempre de um grupo adolescente (ou de um só) para ainda conseguir escrever algo bacana. Seus diálogos são simples, mas sempre próximos ao leitor, deixando uma ‘intimidade’ bem humorada que faz a leitura ser agradável. A história nos mostra Tony Stark solteiro e garanhão, sem a Pepper. Bem humorado e irônico, sua personalidade cada vez mais se aproxima da linha Ultimate que é a ‘fonte’ de inspiração dos cinemas. Poderíamos, em um linguajar rpgístico, dizer que é um Chaotic Good, se bem que prefiro uma linha Chaotic Neutral, bem mais próximo do Superior Iron Man do Tom Taylor.

A arte de David Marquez é estupenda e vale uma visita a sua importadora preferida, mesmo que seja para ‘folhear’ a revista.

Enfim, estou ficando velho para quadrinhos. Já não sou o público alvo delas há alguns anos e realmente não entendo como ainda permaneço entre ‘hiatos’, lendo esta mídia. Seria nostalgia? Ou apenas a difícil realidade que não consigo encarar que a idade chegou? Ou é um escapismo da realidade dura e crua? Não sei. Só sei que foi assim.

Nota 8,0 / 10

Comentários Facebook (O DISQUS ESTÁ ATR... LOGO ABAIXO)

Comentários Disqus

BDE1