Resenha Enxuta: Justiça Ancilar por Ann Leckie

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Imagem do gato meramente ilustrativa

Salve enxutaiada desse blog mais morto que a vida sexual dos casados. Faz tempo que não tem resenha nesse budega, blábláblá mimimi bóbóbó. Então como o chefe não está olhando, bora escrever outra coisa que não relatórios de rendimentos do BdE Inc. Como de praxe, vamos à sinopse oficial da editora:

Em um remoto planeta gelado, Breq está prestes a concluir seus planos de vingança. Ex-membro do Radch, o império que domina a galáxia, Breq era a nave Justiça de Toren – uma porta-tropas gigantesca com uma única inteligência artificial que habitava e controlava o corpo de milhares de soldados. Mas um ato de traição destruiu tudo o que Breq conhecia, e agora só lhe resta um único e frágil organismo humano para enfrentar o império.

Antes dos mimimis, vamos à história primeiro, de uma forma inteligível:

A protagonista da história é Breq, uma inteligência artificial que no passado foi uma nave chamada Justiça de Toren. Ela era responsável pela “vida” da nave assim como de seus ancilares, corpos humanos mas com a IA de Breq que serviam desde faxineiro até soldados no império. E um dos plots da história é saber o que aconteceu com Breq que “perdeu” sua identidade como Justiça de Toren e hoje se limita a viver em um único corpo. Tenderam?

O tal império citado se chama Radch: uma superpotência intergalática. O Império Radch funciona mais ou menos como os Borgs de Star Trek: eles conquistam planetas, assimilam parte de sua população (que se tornam ancilares) e o restante de seu povo passa a viver com base na política e preceitos do império. O mesmo é comandado por Anaander Miaanai, um ser (ou IA, não é dito) que divide sua consciência por milhares de corpos, parecida com a rainha dos Borgs (se você nunca viu os episódios da Nova Geração onde a tripulação da Enterprise encontra os Borgs, faça um favor a si mesmo e veja). Dito isso Breq, preso (a – já já eu explico) a um único corpo vai atrás de vingança contra o império por uma merda que acontece que é spoiler.

Então enxutos, durante a leitura das 381 páginas, eu senti um misto de amor e ódio por Justiça Ancilar. O plot central da história, por mais simples que possa parecer (uma história de vingança, so what) te pega e o leitor fica naquelas de descobrir o que aconteceu com Breq, etc e tal. Além disso, o fato da protagonista ser uma IA também desperta atenção. Mas o problema disso tudo, pelo menos para este que vós escreve, é a execução da ideia além de alguns outros pontos que foram um chute no saco e três pedras nos rins.

Todo o Império Radch e a forma como ele funciona é muito bem construído e passa longe daquela visão maniqueísta a lá Star Wars. O problema é o aparente deslumbramento que Ann Leckie tem por sua própria criação, mais ou menos como Thomas Harris e Hannibal Lecter. É meio que CARA, OLHA ISSO AQUI QUE EU CRIEI, QUE COISA MAIS SENSACIONAL. NÃO EXISTIA ALGO TÃO FODA ASSIM DESDE ÁGUA ENGARRAFADA, sacaram? Um autor que é apaixonado pela própria obra e que transborda isso nas páginas escritas e, para você que tem apego zero por aquilo está lendo pensa menos, miga. SejI bem menos.

Talvez por isso, a autora se arraste por páginas intermináveis, com diálogos extensos e completamente desinteressantes para divagar e filosofar por momentos que você quer enrolar o livro e usá-lo para se cegar. Todo mundo alguma vez na vida já deve ter se encontrado com uma pessoa que adorava o som da própria voz. Então…

Fora que a autora usa acontecimentos passados dentro da mitologia do império para contextualizar algo que está se passando no momento presente da história, mas não perde um momento sequer para descrever o que diabos aconteceu. Seria mais ou menos como se George Lucas começasse Star Wars pelo Império Contra-Ataca logo de cara. Aí tem altas coisas que os personagens discutem durante a narrativa e que faz diferença para eles e eu dafuck? Esse não é o livro 01? Sim, é. Eu sinceramente esperava encontrar o policial de South Park quando as citações de eventos passados apareciam no livro.

Para encerrar o mimimi: os personagens possuem zero carisma (sério, eu não me apeguei a ninguém e se chegasse um momento da trama que todos morressem, whatever) e não obstante, alguns são chatos toda vida (Seivarden, um ser de mais de mil anos, é insuportável. É birrento (sim, o personagem faz birrinha), sem propósito e a protagonista o leva em sua jornada por motivos de porque sim); os diálogos são péssimos e a narrativa se apoia na batida capítulo no presente, capítulo no passado.

The thing is que no meio dessa chatice toda, do nada vinha umas partes meio CARALHO, QUE FODA que durava umas vinte páginas aí a narrativa voltava a se arrastar e isso foi constante durante a leitura toda até as mais ou menos sessenta páginas finais quando a autora liga o turbo e o negócio fica meio frenético e alucinante. O foda que para você chegar aí, são trezentas e tantas páginas na pior fila de espera de um serviço público que você já ficou na vida, com raros momentos de diversão quando alguém surta, xinga todo mundo, fala que é por isso que o Brasil não vai para frente e sai pisando duro.

Explicando o O/A lá de cima, eu vi muitos comentários nas deep webs da vida de gente achando o máximo da autora flexionar as palavras para o feminino pois, na língua do Império Radch, não existe pronomes com gênero definido:

O uso de “ela” foi uma convenção de tradução – o idioma radchaai não apenas não utiliza pronomes com gêneros para se referir a pessoas (aliás, muitos idiomas reais não utilizam), mas gênero não é relevante para esse povo. […] Por conveniência, eu “traduzo” tudo como “ela”. Isso não indica o gênero de nenhum personagem. Apenas significa que, quando Breq (ou outra personagem) fala em radchaai, é assim que o pronome original é traduzido para o inglês.

Quando Breq – ou outra personagem – fala outra língua, entretanto, elas podem se referir a algumas pessoas com pronome masculino.

Oia, eu não achei nada demais e, sinceramente, ficou mais difícil imaginar como os personagens eram na minha mente pois, além disso, a autora peca demais nas descrições físicas (enquanto ela se prendia em descrições de ambientes numa obsessão quase tolkieniana).

Passando a régua, eu sinceramente não vejo a hora de não ler o segundo. Justiça Ancilar tem final satisfatório e eu só me aventuraria numa segunda jornada ao Império Radch se houvesse um cliffhanger absurdo.

Falando sobre o trabalho da Editora Aleph: (por sinal, esse livro foi comprado numa daquelas promoções tentadoras da Amazon do tipo cupom de 20% numa compra de leve quatro e pague três com frete grátis), impecável. Tradução e revisão supimpa, capa cartão de boa espessura (cartão supremo 250g/m²) assim como o papel (pólen soft 80g/m²) e ótima colagem dos cadernos (para quem, assim como eu, carrega livro para tudo quanto é lado, sabe como essas coisas fazem diferença).

 

Um beijo, seus lindos.

Justiça Ancilar (Ancillary Justice) de Ann Leckie, 2018, 1° edição, brochura, 22,6X15,6cm, 384 páginas, em média R$30,00

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