Uma história sobre contar histórias.

A essa altura, todo mundo está consciente do que é o selo Graphic MSP, não? Histórias com criações do Maurício de Souza por diversos artistas, cada um com seu traço e sua visão daquele personagem. Vimos histórias de aventura com o Astronauta, jornada e aprendizado com a turminha, e mesmo Piteco e a Turma da Mata resolvendo as coisas na base da porrada porque às vezes alguém precisa ter a bunda chutada. Também sabemos que o convite para fazer uma dessas é um momento de glória para os convidados: já é notório o quanto Cris Eiko e Paulo Crumbim choraram quando Sidney Gusman os chamou para fazer Penadinho: Vida. Mais recentemente, Sidney, provando que é um fanfarrão, fez uma pegadinha com Bianca Pinheiro: simulou uma entrevista e nela perguntou o que a artista acharia de ser convidada para fazer uma história solo da Mônica. Deu uma porrada no Sidney, mas no anúncio oficial, no último FIQ, subiu ao palco e chorou horrores, junto do Maurício. Enfim, a idéia é: pegue quadrinistas de qualidade, dê um personagem e algumas diretivas e BAM: sucesso!

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CA$HIM!

Bom, um dos personagens mais marcantes do Maurício (na verdade criado pelo irmão do Maurício, Márcio Araújo) é o Louco. E como nada envolvendo o Louco tem lá muitas regras, até como essa Graphic MSP começou foi diferente: sem ser diretamente convidado, seu autor Rogério Coelho simplesmente teve idéias, desenhou alguns esboços e mandou para o Sidney, afinal, por que não? Todos gostaram, a história ficou amadurecendo algum tempo e finalmente temos hoje Louco: Fuga.

Essa introdução toda é válida por conta do que se trata a história. Fuga nos mostra o Louco sob o ponto de vista do Louco, enxergando todas as histórias possíveis e se enfiando naquela que julga necessário para poder continuar a sua própria, e assim garantir a existência de todas. Confuso? Claro, ele é louco – e cabe bem ao personagem ser capaz de se enfiar em qualquer história assim como Rogério Coelho enfiou a sua no meio das Graphics MSP.

Mas estou divagando. Como disse, Fuga é sobre contar histórias. O Louco é de algum lugar (que não importa onde), ajudando seu amigo pássaro que representa a imaginação (porque sim) a fugir de seres que querem enclausurá-lo para acabar com a criação (como poderia ser diferente?), embora tudo isso seja fruto da imaginação de algum outro criador acima. Com base nisso, Rogério nos entrega uma história simplesmente linda. A arte (colorizada em conjunto com Francis Ortolan) dá um clima meio onírico, mudando do claustrofóbico para o adorável em poucas páginas. Os Guardiões do Silêncio especificamente, vilões da trama, lembram o estilo visual de animações do Tim Burton. Já a diagramação torna o Louco unido à história de forma que outros personagens não poderiam ser. Os quadrinhos servem ao Louco assim como o Louco serve aos quadrinhos. É algo que só dá para compreender totalmente lendo. Podemos pensar em Grant Morrison, mas mais poético.

Chupa, Homem-Animal!
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Recomendação do Sorg

A narrativa em si é muito dinâmica. Mesmo em suas páginas com diagramação mais complexa, a narrativa visual flui muito bem. A letreirização também vale ser citada, com os balões do Louco mostrando um rebusque que os fazem lembrar balões de pensamento. Não sei se essa era a intenção, mas se for é algo que serve bem ao personagem: a ação está acontecendo mesmo, ou é algo dentro da cabeça dele?

Finalmente, Rogério Coelho faz não apenas uma homenagem ao Maurício de Souza, mas uma homenagem a todo mundo que expandiu o universo original. Eu não vou ser babaca de dar esse spoiler, mas tenho certeza que todos os autores das demais Graphics MSP abriram um sorrisão próximo ao final da história.

Fuga explica mas não explica o Louco. Você pode enxergar nela o porquê do personagem surgir e sumir das histórias da turminha ao longo dos anos sem mais nem menos fazendo as coisas mais absurdas, o que é muito legal, mas não é realmente importante. A criança não se preocupa com isso, e nós também não deveríamos. Também podemos enxergar a história – por que não – como o delírio de um lunático, mas isso tira totalmente a graça do personagem, então deixem de ser chatos. No final prefiro pensar que o Louco é cada um de nós, lutando para manter a imaginação viva em um mundo chato pra cacete que tenta podar qualquer lampejo de criatividade. Devíamos ser mais bobos de vez em quando.

E simplesmente aplaudir a mágica do mundo. Hoje estou muito poético.
E simplesmente aplaudir a mágica do mundo. Hoje estou muito poético.

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