Resenha Enxuta: O Último Desejo

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Porque nem só de Tolkien e Martin vive a literatura medieval.

Enxutos, no longínquo ano de 2015 o mundo viu nascer a terceira parte do jogo The Witcher, um jogo fantástico, maravilhoso e cheiroso. O que muita gente não sabe, incluindo esse que vos escreve, é que as histórias do jogo eram adaptadas de romances escrito por Andrzej Sapkowki, um polonês formado em economia. Até então eu não havia jogado nenhum dos jogos (eu comecei recentemente o 3ª no PS4) e não fazia a menor ideia do que se tratava as histórias até que, vagabundeando pelas Amazons da vida, achei em promoção os volumes 1 e 2 da saga por menos de 20 Temers achocolatado cada. Cofrei por pura curiosidade (e porque eu sou um verme) e, sem mais, vamos a resenha do primeiro número.

Geralt de Rívia é um bruxo sagaz e habilidoso. Um assassino impiedoso e de sangue-frio treinado, desde a infância, para caçar e eliminar monstros. Seu único objetivo: destruir as criaturas do mal que assolam o mundo. Um mundo fantástico criado por Sapkowski com claras influências da mitologia eslava. Um mundo em que nem todos os que parecem monstros são maus nem todos os que parecem anjos são bons…

O Último Desejo, publicado originalmente em 1993 é o primeiro livro dos dois livros de contos que antecedem a saga propriamente dita de Geralt de Rívia, o protagonista dos livros e jogos. Composto de 13 contos sendo que 7 deles levam o mesmo nome (A Voz da Razão), os contos contextualizam o personagem, os coadjuvantes e o mundo mitológico criado por Sapkowski. O autor usou e abusou de mitologia e folclore eslavo, celta e galês para compor seu universo fantástico povoado pelos mais diversos seres, alguns bem desconhecidos para nós da terra do Saci.

Os sete contos chamado a Voz da Razão se passam no mesmo período temporal. Geralt se encontra no santuário da deusa Melitele, recuperando de um ferimento. Ele passa seus dias conversando com Nenneke, sacerdotisa do templo e “voz da razão” de Geralt. Essas conversas / contos são intercalados por outras histórias que aprofundam o leitor no mundo de The Witcher e dão base e fundamento para o protagonista e seus coadjuvantes e se passam no passado de Geralt.

Partindo para a análise da obra, um dos maiores méritos de Sapkowski são seus diálogos. As conversas no livro todo são muito bem construídas e soam extremamente naturais. São divertidas, sérias, tensas, tudo na hora certa e em tom preciso.  Por outro lado, a narrativa do polonês é bastante truncada. Confesso que nas páginas iniciais eu estranhei demais e já me convencia que estava perdendo tempo com uma leitura de segunda categoria. Isso em partes deve ser por conta dos inúmeros termos e expressões da língua mãe do autor que não devem ter análogos tão precisos em português. Mas, ao passar as páginas você se acostuma com seu modo de escrita e o livro se torna mais palatável.

As histórias são todas muito boas e é difícil escolher alguma específica para destacar mas Os Confins do Mundo e O Último Desejo são excelentes e grande parte dessa delícia cremosa do livro se deve aos personagens, em especial o protagonista. Geralt de Rívia é dono de um carisma ímpar na literatura fantástica e é impossível não gostar do personagem já nas primeiras histórias. Ele não é um herói, um vilão ou anti herói. Ao contrário do que diz a sinopse acima retirada do site da Editora Martins Fontes, Geralt é um bruxo que segue sua vida no mundo, fazendo trabalhos em troca de dinheiro, seguindo seu código de honra e indo contra ações que contradizem sua moral. Não pratica atos de heroísmo muito menos de vilania, é seco e um pouco irônico (o que não lhe ajuda muito) e tira de letra o preconceito que as “pessoas normais” tem para com os bruxos.

Ainda que, obviamente, o destaque do livro seja dele, os coadjuvantes não fazem feio. A maioria está presente em apenas um conto mas são muito bem construídos e relevantes para o que se propõem na trama. Mas sou obrigado a destacar dois nesse volume: Jaskier é o amigo de Geralt. Bardo, metido a pegador e inteligentão, irritante na maior parte do tempo mas é um contrapeso perfeito para a personalidade do bruxo e é o responsável por levar Geralt a se encontrar com o amor de sua vida, a apaixonante Yennefer de Vengerberg. Ahhh Yennefer… É difícil falar algo da feiticeira sem destilar spoilers então me reservo a dizer que o que Geralt tem de carisma, Yennefer, arrogante, esnobe e egoísta, consegue ter o dobro. Sério, a forma como Sapkowski descreve Yennefer é encantadora.

Fechando o textão, além de ser um excelente livro de fantasia / capa espada, é uma ótima leitura. Para quem se aventurar, não deixem os momentos iniciais de estranheza te desanimarem porque vale sim muito a pena.

Porque cosplay nunca é demais

O Último Desejo (Ostatnie Zyczenie) de Andrzej Sapkowski. Editora Martins Fontes, 2011, 320 páginas, 20,80X13,80 cm, brochura, preço médio R$30,00

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