E sim, lá vem mais uma resenha oferecida pela Aleph. Problem?

Enxutos, algumas poucas salas de cinema aqui no Brasil esse ano exibiram em um curto período de tempo um filme chamado Expresso para o Amanhã. Contando com um elenco de renome (Chris Evans, Tilda Swinton, Ed Harris e John Hurt) o filme chegou mudo, saiu calado e passou batido por muita gente. Os poucos que tomaram conhecimento do mesmo se surpreenderam quando souberam que a história era baseada em uma HQ francesa que, por um acaso a nossa parceira, Editora Aleph, já tinha publicado por aqui há tempos.

Aproveitando a pouca exibição do mesmo, a Aleph que não é boba nem nada deu um up na publicação, colocando-a nas prateleiras novamente, dessa vez com uma sobrecapa com imagens do filme. Então coloque sua parca e embarque no Perfuraneve.

O encadernadão da Aleph compila as três histórias da HQ francesa: O Perfuraneve, O Explorador e A Travessia. Na primeira história conhecemos o Perfuraneve, um trem com mil e um vagões que roda incessantemente por um planeta Terra semimorto. Sem maiores explicações, ficamos sabendo que nosso planeta agora é dominado por uma nova era glacial de temperaturas fatais. O que restou da humanidade se abriga no trem que roda por trilhos quase infinitos sem nunca parar.

Dentro da máquina, a população mais uma vez mostra suas verdadeiras cores, organizando uma sociedade onde o poder e riqueza são concentrados nas mãos de poucos e os pobres são segregados, vivendo em condições precárias e insalubres. O trem é completamente sustentável, tendo vagões para os mais diversos fins: cultura e produção de alimentos, bares, restaurantes, igrejas, prostíbulos, reciclagem… Enfim, é uma máquina plenamente funcional para a sobrevivência e conforto do homem. Porém, isso tudo é exclusivo dos habitantes dos primeiros vagões. Do meio para o fim do trem, a miséria e pobreza começa a se proliferar, tendo os últimos vagões como guetos apertados e claustrofóbicos.15022451

Nesse cenário, conhecemos Proloff, um dos habitantes dos últimos vagões que consegue passar pelo cerco imposto e avançar alguns carros. O protagonista sonha em chegar à da máquina mas acaba sendo capturado e fica a mercê da burguesia fascista. Enquanto estava preso aguardando ser levado aos carros da frente para julgamento, ele conhece Adeline Belleau, integrante de um grupo que luta pelos direitos iguais da sociedade dentro do Perfuraneve. Porém, Adeline acaba presa junto com Proloff, acusada de causar desordem e perturbar a paz dentro do trem. A história segue com os dois sendo levado à frente para julgamento por um comboio de policiais e, nessa travessia, vamos conhecendo o funcionamento e a sociedade dentro da máquina.perfuraneve2

Essa primeira história é um tanto quanto irregular. Proloff é um personagem quase totalmente apático. Não há uma motivação muito concreta para suas ações e ele toma atitudes durante a história que são meio sem sentido. Adeline, que começa se apresentando como uma personagem forte, de caráter marcante e com ideologia sólidas, vai aos poucos padecendo e se tornando a clássica donzela em perigo. A narrativa de Jacques Lob é um tanto quanto arrastada, com alguns diálogos cansativos. Já os desenhos de Jean-Marc Rochette são bacanas, apesar de pecar em alguns detalhes. Alguns rostos se parecem demais, confundindo se aquele era o fulano ou sicrano e há umas duas sequências que são meio confusas, não dando a entender exatamente o que estava acontecendo.

Apesar desses pontos negativos, essa primeira história não é ruim. Sim, ela não te conquista logo de cara e chega a prender sua atenção completamente nos atos finais mas, de modo geral, é bastante interessante. Ainda que a dupla de protagonistas seja um tanto quanto fraca, o contexto e o pano de fundo compensam.o-perfuraneve-lob-rochette-legrand-editora-aleph-preview-3

Nas duas histórias seguintes, temos Benjamin Legrand assumindo os roteiros depois do falecimento de Lob e não estamos mais no Perfuraneve e sim no Desbrava-Gelo, um trem ainda maior que o original, com duas locomotivas (uma em cada ponta da máquina) e uma sociedade um pouco mais organizada. No Desbrava-Gelo nós somos apresentados a uma sociedade liderada por uma espécie de conselho composto pelos clássicos líder religioso, líder político, chefe de operações, chefe de segurança, etc. A prostituição é legalizada, a televisão é estatal e exibe programa destinados a doutrinar a população ao mesmo tempo que acalma seus ânimos com sorteios de viagens em realidade virtual. Há ainda a equipe de desbravadores, pessoas treinadas que saem do trem usando pesados escafandros para exploração externa.

Nesse cenário, somos apresentados a Puig Valle, um dos desbravadores que, após uma série de acontecimentos (quer saber, leia), acaba sendo acusado de traição e preso. Como o mundo da voltas, Puig é mandando em uma missão suicida, mas salva geral e, tal qual Zagallo, manda um vocês vão ter que me engolir para o conselho. Sem ter o que fazer com ele, visto que a população do trem o considera um herói, Puig é integrado ao conselho e descobre os segredos do Desbrava-Gelo. E sim, descobrimos o que aconteceu com o Perfuraneve e sua tripulação.o-perfura-neve-lob-rochette-legrand-editora-aleph

Finalmente em A Travessia, o conselho do Desbrava-Gelo capta um sinal de rádio do outro lado do oceano e entra em conflito sobre as atitudes a se tomar. O conselho se divide, com alguns tomando a decisão de explorar o sinal e outros indo contra, causando uma guerra civil dentro do trem.

Bão, nas duas sequências escritas por Legrand, a coisa muda de figura. Ainda que a maioria dos personagens sejam estereotipados, eles são bem melhores desenvolvidos e mais críveis. Puig é um ótimo personagem. Um líder involuntário que não sabe e não quer liderar, que toma atitudes que acreditam estarem certas porque ninguém mais quer assumir o risco de dar errado. Todo elenco de apoio também tem crenças e atitudes mais cabíveis do que Proloff e Adeline.

Já a narrativa de Legrand fluí muito melhor. Seu roteiro é bem dinâmico, suas cenas são bem elaboradas e eu só consegui largar o livro depois de acabar. A sensação de tensão impera e aquele sentimento de vai dar merda te acompanha o tempo todo. Já nos desenhos, Rochette mostra uma arte completamente diferente da primeira história. Sua mão parece estar mais solta e com isso ele mostra um trabalho não tão definido quanto a primeira parte. Por conta disso, as cenas de ação funcionaram melhor, deixando aquela impressão estática para trás. As onomatopeias são usadas com sabedoria e pontuam momentos chaves ou ações importantes da narrativa.o-perfuraneve-lob-rochette-legrand-editora-aleph-preview-3

Expresso do Amanhã

Dirigido e roteirizado por Joon Ho Bong (do ótimo O Hospedeiro), Expresso do Amanhã o primeiro filme ocidental do sul coreano. Visualmente, o filme az jus ao clima apresentado por Rochette nas HQs. A discrepância das classes sociais impressiona, assim como os vários tipos de vagões do Perfuraneve. Na história, a coisa muda de figura. Em vez do Proloff que abandona tudo e todos para se arriscar sozinho nos vagões da primeira classe, temos uma mistureba de personagens em Curtis, vivido por Chris Evans. O personagem do Capitão América mistura Proloff, Adeline e Puig, fazendo as vezes do líder involuntário que luta pela igualdade social. Funciona? Até que sim mas acaba sendo um personagem meio genérico que não se destacaria se o ator fosse menos conhecido. Do restante do elenco conhecido, o único destaque fica por conta da bizarra Mason de Tilda Swinton.Expresso do Amanhã 01

A história fica apenas no OK. O caráter meio messiânico de Curtis não funciona (é ele que vai nos tirar da merda, etc e tal) assim como o chaveiro chapado, famoso paquito e sua filha whatever que são fundamentais para o andamento da história. A dupla é meio nhé, quase boboca e chega a cansar. O plot twist do final é até razoável mas não passa disso. De modo geral, o filme caí naquele padrão de tá, não é ruim mas plenamente esquecível. O destaque mesmo fica para a parte visual que é realmente muito boa.

E o encadernado da Aleph?

A Aleph, mais uma vez, manda muito bem em gibis (abre o olho Panini). Perfuraneve é um tijolão de 21,5X29 cm, 280 páginas em papel LWC de qualidade resultando em um gibizaço de um quilo e meio. O único porém desse formato é justamente o tamanho e peso. Fica difícil de manusear (nem pense em levar para ler no busão) e uma duas folhas já se soltaram do miolo. Já revisão tá redondinha, sem aqueles erros bobos que eu já havia mostrado em publicações anteriores.

Vale a pena? Sim, muito. Se dê de Natal ou peça para o Papai Cruel que é muito bom.

Perfuraneve, encadernado que compila Le Transperceneige, L’Arpenteur e Le Traversée), 2015, 1 edição, brochura, 280 páginas, 21,5X29 cm, R$59,90

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