Eis a prova viva (ou sintética) de que a Marvel tem clássicos.

Uma das melhores coisas da vida é ser surpreendido e, se você for leitor de quadrinhos, ser surpreendido pela história ou pelos personagens. Um bom autor pode fazer uma história de qualidade, utilizando todo o contexto do personagem ou reinventá-lo e fugir do senso comum, o que é geralmente mais difícil, pois o risco de deturpar o personagem e desagradar os fãs é imenso. Exemplo: Pegue o Visão, o sintozóide membro dos Vingadores. Se tratando de um robô, é bem fácil criar uma história de ficção científica, onde ele enfrenta outras máquinas e, mesmo soando completamente clichê, pode sair uma boa história daí.

Ou você pode dar uma esposa robô, filhos robôs, uma casa, em uma cidade pacata, para o personagem, e foder com a vida dele.

Escrito por Tom King (“Batman”, “Grayson” e “O Xerife da Babilônia”) e ilustrado por Gabriel Hernandez Walta e Jordie Bellaire (“Thunderbolts”, “Magneto” e “Surpreendentes X-Men”), “Visão” é uma HQ que prova que sim, é possível fazer clássicos nos dias de hoje e, principalmente, que a Marvel tem clássicos. Com apenas 12 edições, a HQ mostra o dia a dia do Vingador, junto com a sua esposa Virginia, sua filha Viv e seu filho Vin, em uma vizinhança perto de Washington. Como um bom pai de família, Visão vai a reuniões escolares, ajuda sua esposa em casa e faz a lição de casa com seus filhos e, apesar da premissa e das belas e engraçadas capas do Mike Del Mundo (“Elektra”, “Vingadores” e “Mundo Selvagem”), a HQ é uma das coisas mais perturbadoras e melancólicas que a Casa das ideias já publicou e não me pergunte o que deu na cabeça dos editores em publicarem isso.

Visão não é um cara tão legal assim.
Recomendação do Sorg

Sabemos que as famílias em si são complicadas e enraizadas em sentimentos conflitantes: amor, raiva, decepção, carinho, preocupação, aceitação e egoísmo são os pilares de qualquer relação familiar, mas e se a família for formada por robôs com poderes e sentimentos? O que você faria se seu filho se machucasse em uma briga com um garoto sintozóide vermelho e com cabelo verde? Tom King (que não é parente do Stephen King e nem do nosso King, mas que escreveu igual ao primeiro na HQ e que deve gostar dos textos do segundo) construiu uma história centrada em sentimentos e na busca por humanidade, no bom e no mau sentido. A sua escolha de utilizar a narração na terceira pessoa é bem acertada, pois dá todo um ar mais dramático e, ironicamente, distante para a história. Sem se importar em ser cruel, King deixa o leitor e os personagens vulneráveis para as pioras situações, o que aumenta toda a tensão na história. Mesmo sendo robôs, a família Visão tem sentimentos, igual a mim e a você, o que dá um ar humano poucas vezes visto em uma HQ.

Mas a HQ não teria toda essa força sem a arte do Gabriel Hernandez Walta. Com uma arte mais suja e quadrada, Hernandez criou páginas que dão um sentimento de claustrofobia e estranheza ao leitor. Seu enquadramento é contido, criando um ambiente mais intimo, o que ajuda em muito na tensão e horror dos acontecimentos. É curioso notar que a arte lembra um pouco o estilo do Frank Miller no início, principalmente a anatomia e a feição dos personagens. As cores ficaram a cargo de Jordie Bellaire e o cara está de parabéns. Enquanto as cenas, que se passam na casa, possuem uma paleta mais calma e serena, as recordações ou os momentos de tensão abusam do vermelho e amarelo. Vale lembrar que a edição #7 tem a arte do Micheal Walsh, cujo traço caiu como uma luva para mostrar a relação bizarra do Visão com a Feiticeira Escarlate.

Caso queira comprar a HQ, que ainda é inédita no Brasil, a Panini afirmou que vai publicá-la ainda neste ano, ou, se preferir, tem a versão americana, versão digital ou o que for, mas adquira essa HQ, pois esse é um item obrigatório para Marvetes ou apreciadores de boas histórias. “Visão” com certeza é uma joia rara da Marvel e que prova que as grandes editoras ainda tem muito gás para gastar.

Nota: 10/10.

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