SCAN006 - Cópia

Da série: Reciclar é viver. Trazemos novamente a primeira parte do conto “Sete Portas” que foi perdido na migração para a nova casa do BdE (obrigado Uol). Fiquem agora com “Sete Portas”:

Em meio ao farfalhar dos pássaros e folhas caindo ao relento, um jovem e seu cavalo seguem correndo, afoitos, em direção ao que parece ser a entrada de uma caverna ou masmorra; cabelos negros e compridos cobrem o rosto de um cavaleiro visivelmente cansado e irrequieto por alguma razão. Eles parecem chegar em seu destino, dali o jovem seguirá sozinho.

Por um segundo ele fita a entrada da masmorra, seus ombros parecem estar carregando mais do que apenas o peso de sua cota de malha, suas mãos parecem segurar algo além de um velho escudo e uma espada que aparenta ter visto mais batalhas do que deveria. É como se todo o peso do mundo estivesse concentrado em seu elmo, ao menos o peso de seu próprio mundo.

Após um longo suspiro ele se vê dentro da masmorra, segue por um longo corredor, um lugar fétido e frio, os pingos de água que tocam o solo formam uma cantiga melancólica que combina perfeitamente com o cheiro quase insuportável de decomposição. Ao fundo do corredor nota algo que destoa do resto, vê uma porta de madeira, mas não uma simples porta, ele percebe que ela foi muito bem trabalhada, aparentando ser nova, como se tivesse sido recém-colocada naquele lugar.

O jovem percebe que a chave se encontra na fechadura quase como se pedisse para ser aberta, sem hesitar, ele a gira e abre a porta que por sua vez range como o som de mil gatos boêmios, como se há muito não tivesse sido usada. Antes mesmo de colocar os dois pés na próxima sala sua respiração cessa completamente ao ouvir uma voz rouca e fraca:

Preguiça
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– Sente-se! Fique à vontade… Eu mesmo me levantaria e o cumprimentaria se não estivesse tão fatigado… – O jovem percebe que está em uma sala quadrada, completamente vazia, a não ser por uma cama e pelo homem esquelético que jaz em cima dela. Ambos bloqueando uma porta. Outra porta. A porta que precisa passar.

– Sabe… Eu já fui como você – disse o velho, com uma rouquidão extremamente perturbadora em sua voz, continuou. – Eu vivia correndo, para cima e para baixo, para um lado e para o outro, mas chegou uma hora… Uma hora em que eu me cansei. Cansei de tudo. Cansei de acordar cedo para trabalhar. Cansei de cortejar a minha vaidosa esposa. Chegou uma hora em que me cansei até mesmo de colocar o alimento em minha própria boca, me tornei o cansaço em pessoa, ou quase isso. Todos vocês tem um pouco de mim em seus interiores, alguns mais… Outros menos… Mas a grande verdade é que todos vocês querem que eu tome o controle da situação. Que eu domine vocês completamente. Quando isso acontece vocês colocam a culpa em mim.  Hah, malditos! Acho que eu faria o mesmo se estivesse na pele de vocês… Mas se me permite a curiosidade, por qual motivo você veio até mim? Aposto que não foi pelo meu charme e aparência.

O jovem permaneceu quieto. Olhando para o chão, não tendo coragem de olhar nos olhos do velho. Percebera que ele tinha feridas abertas por todo o seu corpo e que o cheiro podre que estava dentro da masmorra em nada se comparava ao odor do ancião.

– Ah! É do tipo quieto? Gosta de poupar palavras… Muito sábio de sua parte, as pessoas deveriam fazer mais isso hoje em dia, pensar mais antes de proferirem asneiras. Mas ainda estou intrigado com a sua presença aqui, filho. Vai, pode falar! Eu sou boa gente, não se deixe enganar pela minha aparência moribunda. Eu mesmo poderia dar um jeito nessas feridas se não quisesse evitar a fadiga. – disse o ancião, coçando o queixo que mais parecia a quina de um móvel, tamanha era a sua magreza, continuou – De fato, estou cansado só de vê-lo aí em pé parado carregando uma tonelada de coisas. Uma dica que sempre dou para os tipos como você: Espadas e escudos não vão te ajudar aqui dentro. Aço e força física não exercem absolutamente poder algum por aqui, pelo menos eu acho… Quer dizer eu mesmo nunca fiz questão de testar essa teoria, sabe como é…

– Você quis evitar a fadiga! – Disse o cavaleiro, olhando o velho nos olhos.

– Ah! Então ele sabe falar… – retrucou o ancião, em tom de deboche. O jovem respondeu: Creio que não seja da sua conta o motivo por eu estar aqui, velho! Do mesmo jeito que não é da sua conta se eu deixo ou não de carregar minhas armas.

– Cuidado com essa língua, fedelho! – disse o ancião, com a rouquidão praticamente desaparecendo de sua fala, continuou – Já apaguei a chama de outros mortais por muito menos! Lógico… – dando um longo bocejo – isso foi antes. Notei que enquanto eu perguntava o motivo por estar aqui você segurou um colar; é por isso que está aqui não? O colar pertence a algum ente querido… Uma mulher, talvez?

O cavaleiro ficou com um semblante carregado, cerrando os dentes como se mil estacas perfurassem sua carne. Segurou sua espada com ainda mais força e começou a respirar ofegantemente, o velho continuou – A-há! É lógico que é uma mulher, sempre é uma mulher, por qual outro motivo um homem em sã consciência ousaria cruzar as Sete Portas? Mas exatamente o que aconteceu? Sua amada morreu por sua culpa? Você quer devolver a ela a chama da vida? Ou de repente ela era só mais uma meretriz à toa… Minha cabeça chega a doer com tantas dúvidas e questionamentos…

O jovem continua com seu semblante carregado. Lentamente começa a andar em direção ao velho e sua cama, a cada passo que dá o odor putrefato e desagradável entra mais em suas narinas. Conforme chega perto da cama, ele movimenta seu braço e sua espada, ensaiando um golpe que corta o ar de cima para baixo em uma velocidade tamanha que é possível ouvir o zunido do deslocamento de ar, antes de acertar o velho, o mesmo grita: Pare! PARE! – o jovem cessa o movimento, o ancião continua – Tá certo, tá certo… Acho que devo ter feito muitas perguntas e posso ter sido um pouco rude… De fato, se eu fui a sua primeira porta, você com certeza não tem nada a ver comigo e eu não deveria te fazer perder tanto tempo, eu mesmo já estou demasiado cansado com tamanha agitação.

– Deixarei você passar, antes porem peço-lhe apenas duas coisas, primeira: Se você quer realmente passar, terá de empurrar a minha cama para o lado, destrancando a porta, pois eu mesmo não o farei, uma vez que estou cansado. Segunda: Diga-me o motivo de sua jornada, a curiosidade está me corroendo mais que minhas feridas!

O jovem embainha a espada, coloca o escudo nas costas e empurra a cama, com velho e tudo, apoiando uma perna no chão e empurrando com a outra, arrastando a cama e liberando a porta seguinte. Enquanto gira a maçaneta e se dirige para o próximo cômodo, o jovem cumpre sua parte no acordo.

– Seu nome é Lírio. Peço que tenha mais respeito com o próximo errante, não foi gentil de sua parte ficar me aporrinhando com perguntas desnecessárias, se estou aqui tenho meus motivos. E ela não é uma simples mulher. Ela é minha filha. – o jovem passa pela porta e deixa um ancião boquiaberto e extremamente cansado.

Preguiça
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Artes do conto feitas pelo irmão Robbie Young. A próxima parte do conto sairá na próxima Terça-Feira, dia 19/11 às 16:00 horas. Contos, resenhas, artes, mulheres, iates, mansões? Mande para obailedosenxutos@gmail.com

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