Treta Civil

Ou como plagiar Grant Morrison… Caso não tenha lido nada de Treta Civil, não se preocupe. Eu também não li…

Prelúdio : alguns anos no futuro

– Pai, há um mal que jamais dorme. …

– Filho, você sabe que conheço as frases de SdA e isso me deixa orgulhoso.

Recomendação do Sorg

– Ok… mas você sabe que é verdade. Não vá. … ou pelo menos me deixe ir contigo.

– Não posso. Preciso que fique aqui e cuide de sua mãe e sua irmã. Além do mais, sua mãe me mataria se eu te levasse. Vai me matar se eu voltar. Então vou morrer mesmo de qualquer jeito, entretanto …. preciso que fique. Saiba onde vou e só a avise quando já não houver mais tempo de me impedir.

Com lágrimas nos olhos, um longo e silencioso abraço. O medo de não conseguir prosseguir, faz o homem se virar e partir sem voltar o olhar para trás. Em seus pensamentos uma única dúvida : ‘Como tudo pôde ter mudado por causa de uma história?’

Dias atuais

Há poucos anos atrás, um grupo de pessoas se reuniu virtualmente para criar um blog. A maravilha moderna chamada Internet permitiu que pessoas distantes fisicamente pudessem se unir por um gosto comum. Rapidamente o grupo foi ganhando corpo e uma forte amizade se construiu, mesmo diante da distância . Alguns dizem que foi por causa dela que a amizade se fortaleceu e realmente pode ter sido esta a razão. Entretanto, de fato, o blog cresceu, teve seu ápice, quase fechou e naquele momento, bem ou mal, ainda existe.

O dia começara como qualquer outro. O homem se levantou , tomou seu café espartano, banhou-se , pôs sua roupa e foi ao trabalho. Pegou seu ônibus e sacou o smartphone. O ‘zap zap’ estava estranhamente vazio. ‘Sem milhares de mensagens. … Os demais enxutos devem estar ocupados com seus afazeres….’ , o homem sorri com este pensamento. ‘Impossível. Estes caras arrumam tempo até quando não existe. Parecem até que conseguem usar a Força de Aceleração na realidade…’

Rapidamente volta sua atenção as pendências do trabalho e não percebe a inquietude de alguns a sua volta, todos aparentando surpresa e desconforto, seja com notícias nos jornais impressos ou nos digitais.

Agora já dentro do metrô, com o sinal de dados falhando, o homem saca um livro da mochila e inicia a leitura anual do Silmarillion. As estações passam e o barulho do metro apenas soa em seus ouvidos, além da voz no sistema de som…. Glória, Cinelandia, Carioca, Uruguaiana… As páginas passam na mesma velocidade…. Presidente Vargas… Está chegando sua estação. Central. Fecha o livro e desce esperando o tumulto habitual das 7 e 30. Mas, perdido em pensamentos, não percebe o pequeno movimento e como as pessoas estão assustadas e arredias.

Prossegue no caminho habitual e desta vez não há como deixar de perceber. O movimento é muito menor e as pessoas apertam o passo. Ao sair da estação, faz menção de cortar caminho pela Praça da República, mas se depara com o portão fechado. Algo estranho acontece e um calafrio percorre seu corpo.

Ao longe ouve gritos e um aglomerado surge no horizonte, parecendo um grande borrão de pessoas em marcha, saindo da Candelaria. De súbito, pensou ser alguma manifestação e sirenes vinham e voltavam, em uma profusão de ruídos estrondosos. Então ouve-se tiros. As poucas pessoas correm e o homem tenta voltar ao metrô, descendo esbaforido a escadaria que dá acesso a entrada dos trens. Um jovem guarda fecha a grade de aço e algumas pessoas imploram para que abra. O segurança está assustado. O som de lamuria surge aos poucos, subindo de tom. King, como gostava de ser conhecido na Internet, não acredita nos próprios ouvidos. Fica incrédulo e até mesmo seus colegas de infortúnio se silenciam por segundos para ouvir aquele som forte e de lamento. ‘Não é possível…. devo estar sonhando. ‘ pensa ele, mas logo a dúvida cessa. Como um profundo suspiro rouco, um coral de vozes gorgoleja : Dêeeeeee Ceeeeeee….

O guarda metroviário tenta escapar, no entanto aquele chamado King o agarra por entre as grades. O homem treme e sem dizer palavra puxa a chave presa na cintura e tenta abrir a grade. O som de lamuria prossegue cada vez mais próximo. Segundos passam como horas até finalmente a grade ser aberta. O tempo foi quase suficiente.

A primeira a ver o que se apresentou na escadaria foi uma mulher de meia idade. Seu grito só piorou as coisas e em uníssono, mais e mais surgiram. Em um primeiro momento,  eram pessoas normais. Mas a impressão logo era desfeita… o olhar vidrado, catatonico e a boca semi aberta,  com uma baba característica eram os sinais. ‘Parecem zumbis dos filmes que assistia’ pensa rapidamente King. Todos caminhavam de certa forma com alguma velocidade,  mas não o suficiente para pegar todos que ali estavam. Todos conseguiram entrar assim que a grade se abriu. Menos um. Trajado de forma característica, um hipster com sotaque gaúcho iniciou um discurso em prol daquelas pessoas.

– Venha, isso pode ser contagioso!  Bradou o guarda com renovada coragem.

– Bah. Sou gaúcho dos pampas e psicólogo. Estes parecem baguas e irei. … – o hipster mal teve tempo de completar a frase e foi tomado por uma dezena das criaturas. Seu grito de horror foi contido pelo uníssono ‘Dêeeeee Ceee’ e logo do gaúcho não se ouvia mais nada.

Todos correram,  sem não antes o guarda conseguir trancar a grade. Era tarde demais. A mulher cai na tentativa de fuga e logo é coberta pelos DCnautas.  O corredor é relativamente largo e aquele chamado King consegue pular as roletas e descer outra escadaria aos pulos . Um trem ainda de portas abertas estava na estação. Os fugitivos conseguem entrar e esbaforidos olham as criaturas tentando passar pelas roletas. Aquilo que os transformara também afetou sua inteligência o que as retardou a passar. O trem não andava e o lamurio se aproximava. A composição está quase vazia. Um menino chora e um rapaz reza. Desesperado o guarda chega no vagão principal e esmurra a porta para o maquinista partir. O homem treme novamente.

King olha para a escadaria e percebe que há pouco tempo. Os DCnautas se aproximam. Não há como garantir que o contato físico é a forma de contágio. Em desespero arremessa uma das latas de lixo e um DCnauta cai. Um grito de horror é ouvido no vagão principal,  enquanto as criaturas tropeçam e caem por sobre o primeiro. King recua. Estão cercados. Não há saída.

To be continue….

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