20140131-capitao-nascimento-vai-dar-merda (1)

O sistema é f0d@ parceiro…

Prólogo. Brasília, Palácio do Planalto, alguns anos atrás. O gabinete da presidência da república é um lugar amplo e arejado, mas de certa forma simples para os padrões do poder. Estando ali já há quase sete anos, José Bonifácio ‘Dedo’ de Souza, presidente cujo apelido remete ao sexto dedo de sua mão esquerda, pensa nos próximos passos. O gosto pelo poder deste ex-mineiro que trabalhara poucos anos em minas de bauxita se acentuou nos últimos anos e, agora próximo do fim de seu segundo mandato, começa a lhe causar certa apreensão. Como sempre, um resumo com as manchetes dos jornais do dia estão sobre sua mesa naquela manhã de segunda-feira. Homem prático e pouco afeto a leitura, Dedo entende de política e, principalmente, de políticos. Sabe da importância de conhecer os fatos que estão acontecendo no dia a dia da população para que possa usar isso em benefício próprio e de seus aliados, mesmo que isso o force a um hábito não muito prazeroso.

Ainda sim, estava animado. Entre uma ‘branquinha’ e outra no fim de semana, Dedo vislumbrou um plano para manter o seu partido no poder e, de quebra, abrir espaço para sua volta triunfal quatro anos depois. Tamborilava seus seis dedos de forma inquieta sobre a mesa, enquanto aguardava o contato do porta-voz do planalto, um homem alto, reservado e de confiança do presidente. Eram 7h da manhã e o enviara em missão para convocar com urgência a chefe da Casa Civil para uma reunião fora da agenda, antes dos compromissos oficiais que se iniciariam por volta das 9h com o recebimento de uma delegação africana para assuntos de estado.

Ao passar os olhos pelas manchetes dos jornais enquanto aguardava, um assunto repercutia em todas as capas, uma variação de notas sobre o mesmo tema, com os desdobramentos de um acontecimento recente em uma CPI da ALERJ no estado do Rio de Janeiro. O ex-capitão do BOPE, Roberto Nascimento fizera acusações graves contra a maioria dos deputados estaduais. Dedo sabia que isto poderia respingar mais ‘acima’ e houve algumas tentativas de desqualificar o testemunho do ex-capitão, algumas até mesmo com auxílio de pessoas mais próximas ao Planalto. Mas os fatos eram evidentes demais. Passaram a tentar desqualificar o próprio Nascimento e o resultado foi muito aquém das expectativas mais pessimistas dos envolvidos. Uma devassa nas contas dos deputados se iniciou e o estado do Rio entrou em uma crise institucional jamais vista, restando menos da metade da câmara originalmente eleita. Alguns foram presos, outros renunciaram e houve casos até de fuga do país. “Quem é afinal este homem?” perguntava o presidente, fitando a foto do Capitão Nascimento na capa do jornal O Planeta.

Finalmente seu telefone de mesa toca. É Tomé Cantor, o seu fiel porta voz, anunciando a chegada da ministra da Casa Civil. A mulher entra no escritório e é recebida com um efusivo abraço de seu chefe, fato este pouco usual que até faz a normalmente fechada Selma abrir um discreto sorriso. O presidente indica para ambos sentarem em um dos poucos confortáveis sofás do recinto e, sem rodeios, vai direto ao assunto:

– Selma Discreff, seu partido e, sobretudo, seu país precisam de você. Está vendo aquela cadeira ali – aponta Dedo para a cadeira presidencial – você será a primeira mulher a sentar ali e comandar esse país. O Brasil precisa disso. O partido precisa disso. Entraremos para a História!

– Presidente. Eu gostaria… não, melhor, eu quero… ahn, agradecer por esta oportunidade. Uma oportunidade que não é oportuna para muitos, mas assim o é para mim. Tenho certeza… ahn, convicção que farei um bom… digo, teremos algo mesmo relacionado a uma oportunidade única. Única por ser ela mesmo, sem dúvidas, algo… que sozinha não se repete. Eu fico agradecida.

– Precisamos melhorar algumas coisas, como, por exemplo, jamais deixa-la falar de improviso. Chame o Margarina para podermos não deixar a economia cair e alavancar sua popularidade. Vamos criar um plano, ou melhor, juntar algumas ideias e obras em implantação e nomeá-lo como um chamariz de esperança e crescimento.

– Posso até sugerir como plataforma de governo… ou melhor, estudo para o novo governo… uma tecnologia. Sim, uma nova… única… uma oportunidade tecnológica que não temos ainda neste país. Investiremos em energia… renovável. Vento, senhor presidente, se conseguirmos armazená-lo…

Sem mais prestar a atenção em sua pupila, Dedo novamente se volta para as capas dos jornais. Pensara na noite anterior em alguma forma de surfar na ‘onda do Capitão Nascimento’, mas não achou uma maneira de conseguir um apoio daquele homem. Decidiu então abarcar a ideia de emplacar Selma, em uma nova roupagem. Focaria em crescimento do país em uma mensagem de esperança. E se conseguir ainda aproveitar o mote do combate a corrupção, seria ainda mais benéfico…. Mas mal imaginava Dedo naquela época o quanto o nome Roberto Nascimento ainda lhe causaria grandes problemas.

Comentários Facebook (O DISQUS ESTÁ ATR... LOGO ABAIXO)

Comentários Disqus

BDE1