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Fala Enxutos! Aqui quem vos escreve é o King e gostaria de ter escrito algo como o texto que estás prestes a ler. A recente tragédia do estupro coletivo revela a verdadeira tragédia nacional. Confira neste brilhante (sem ironias) texto do nosso redator Infame

Confesso que demorei um pouco para escrever a respeito porque muita coisa que tinha para botar no papel me incomodava – ainda incomoda – seria mais fácil se pra mim escrever um monte de obviedades politicamente corretas mas sempre detestei o caminho mais curto, então esse texto não fala sobre “culpa do homem moderno na sociedade patriarcal” também não vou dizer que estou chorando de tristeza há uma semana (nem quando minha mãe morreu chorei por tanto tempo) por alguém de quem até então nunca tinha ouvido falar. Também não vou adotar o discurso imbecil e imbecilizante de quem tenta dizer para si mesmo que está tudo bem ao por a culpa na vítima. Porque, olha só, não está tudo bem. Está tudo uma merda.

Então, uma garota de 16 anos, usuária de drogas que já tem um filho de 3, pobre, provavelmente moradora de comunidade (no meu tempo era ‘favela’, inclusive morei em algumas, mas whatever…) foi drogada e estuprada por cerca de 30 homens, a maioria pertencente a uma quadrilha de traficantes de drogas, em um muquifo conhecido por eles como “abatedouro”, ou o lugar onde esses jovens levam meninas para ter relações sexuais.

A frase acima já contém em si várias tragédias: 16 anos e engravidou aos 13, moradora de comunidade, usuária de drogas, estuprada, “abatedouro”, traficante de drogas. É tanta tragédia junta que fica difícil botar em poucas linhas… Mas a tragédia maior nem está descrita naquele parágrafo. A tragédia maior não é a pranteada – genuína ou falsamente, não importa – pelos indignados de Facebook. A tragédia maior, leitor, é que isso ocorre todo dia.

É.

Recomendação do Sorg

Sabem qual foi o grande diferencial desse episódio?

Não, não foi a quantidade de estupradores. Nem o fato da garota ter sido drogada. Nem o fato dela ter sobrevivido a essa experiência brutal.

Não.

O grande diferencial foi que postaram esse estupro no Twitter, e aí todo mundo viu.

E a classe média ficou chocada. “oh, que mundo é esse, monstros, cadê as otoridade”?…..

Porque num bairro vizinho, Praça Seca, lugarzinho bucólico entre Jacarepaguá e Madureira, tem uma quadrilha de traficantes que estuprou uma garota sistematicamente num lugar apelidado por eles próprios de “abatedouro”.

Porque no Rio de Janeiro Olímpico tem quadrilhas de jovens armados constantemente em guerra com o Estado, e nessa guerra existem as “garotas de conforto” usadas pela “tropa”, e isso existe em praticamente toda comunidade, da Rocinha à Pavuna.

Se o caro leitor não souber o que são ‘garotas de conforto’, eu explico. Segundo o livro sagrado muçulmano, o Alcorão, era permitido ao soldado do Islã ter relações sexuais com mulheres dos povos conquistados (obviamente na maioria dos casos relações não consensuais), o Livro isenta de pecado o sexo como forma de aliviar a tensão de um soldado na guerra. O Japão, por sua vez, utilizou mulheres chinesas como escravas sexuais para suas tropas durante a guerra sino-japonesa e a segunda guerra mundial, algumas sobreviventes e o governo chinês exigem dos japoneses um pedido formal de desculpas até hoje, mas o governo japonês se nega.

Ocorreu o mesmo na guerra dos Balcãs, na década de 90, sérvios usando mulheres croatas como escravas sexuais e o estupro sistemático como arma de intimidação.

No momento presente, o Estado Islâmico, até usando o Alcorão como afiançador da conduta, escraviza e comercializa mulheres como gado, além de prometer casamentos com “guerreiros do Islã” pela internet, um discurso que seduziu centenas de jovens mundo afora para atravessar fronteiras e se juntar ao EI na Síria e Iraque.

E nas favelas do Rio?

Aqui não é muito diferente.

Garotas que mal alcançaram a puberdade se envolvendo com traficantes, fazendo sexo com eles, consensual ou não, não importa, o que importa é a sedução de uma falsa sensação de poder em que você está sob a proteção do poderoso da área, o soldado armado, o cara que pode tirar sua vida a qualquer momento e não está nem aí pra isso, mas também pode te oferecer proteção e quem sabe até alguns presentes se você for “boazinha”. Ele tem um trabuco na cintura e faz parte da “tropa”, então estar com ele é estar do lado poderoso. E mesmo que a garota não pense assim, não se deixe levar por essa mistura de ignorância, sedução e intimidação, não estar ao lado da tropa pode ser muito bem entendido como estar contra, e quem na comunidade quer estar contra a tropa? Não há muito o que fazer a não ser torcer para não se tornar alvo da cobiça da “tropa”.

E nesse comércio de “carne mijada” (era assim que os garotos da favela onde morei se referiam às meninas) estar no baile funk é como entrar no açougue. Carne exposta para seu consumo. Não estou dizendo que todo baile é assim, que toda garota que frequenta baile está lá para se expor, não é isso. Mas tem baile que só serve pra incentivar esse comércio? Óbvio que tem. Tem garotas que vão lá só para se expor? Óbvio que tem.

Isso é uma puta tragédia.

Há escravas sexuais no Rio de Janeiro.

E agora a classe média se choca, porque em sua timeline apareceu a foto e vídeo de uma dessas garotas sendo violada.

A classe média chora.

A classe média não consegue lidar com essa dor.

Aí a classe média vai na boca comprar um “sacolé de 10” pra aliviar a pressão.

Inclusive, na Praça Seca, onde ocorreu o episódio do estupro, tem uma rapaziada que vende um pó do bom, coisa de primeira.

É perceptível a suprema ironia e hipocrisia ou preciso desenhar?

Aí quando o Capitão Nascimento diz que “vocês que financiam essa merda”, chamam o personagem de ‘fascista’.

Só que a tragédia maior mesmo, a maior de todas, não é nem o tráfico. Esse foi uma mudança de paradigma, porque já que o favelado não tinha voz, passou a ter um produto a comercializar (as drogas), passou a ter dinheiro e por conseguinte ter armas, e pelas armas passou a receber mais atenção do Estado (nem que fosse a atenção do Bope e do Caveirão).

A mãe de todas as tragédias, pelo menos pra mim, é a de que temos no Brasil um apartheid social em que um lado do muro só conhece as práticas de quem está do outro lado do muro quando aparece no seu Twitter ou no Facebook. E se choca como se estivesse vendo uma cena ocorrida do outro lado do mundo, mas que ocorreu no bairro vizinho, ou no seu próprio bairro mesmo.

E essa divisão é tão brutal, tão abissal, e tão ignorada por nós, brasileiros, que chega a ser difícil pra mim processar e entender, quanto mais a um estrangeiro. Na África do Sul, por exemplo, o apartheid era oficial, o Estado providenciava a divisão e até punia quem ousasse rompê-la. Nos EUA é cultural, negros em escolas de negros, brancos idem, e mesmo o fim oficial da segregação há mais de 50 anos ainda não se conseguiu mudar um costume centenário.

E aqui?

Aqui é a suprema indiferença, a suprema hipocrisia, aqui reina o “não sou racista mas não quero ver minha filha casar com um negão”. Aqui reina a entrada social e a entrada ‘de serviço’ para o pobre que trabalha como empregado não se misturar com os moradores endinheirados. Aqui a gente vê mas não enxerga, pobre bom é pobre invisível, se for negro, melhor ainda.

E quando a classe média enxerga, essas pessoas e suas tragédias diárias se choca, os ativistas de sofá mal conseguem conter a coceira nos dedos.

E choram.

E se indignam.

E fazem passeata.

Mas na Av. Atlântica, claro, porque fazer passeata na Rocinha ou na Mangueira não rola, é muito perigoso.

“Vamos defender os excluídos, mas não vamos botar os pés onde eles moram”.

É assim que nós somos.

E esse apartheid permanece arraigado em nossa sociedade.

E nessas comunidades, onde o tráfico impera, onde o Estado só chega em um blindado com caras de preto armados até os dentes, pode apostar que tem lá muitas coisas que nos incomodariam horrores se nos fosse exposto, inclusive escravas sexuais.

Mas não se preocupe, leitor.

O tráfico já viu que postar em rede social suas escravas dá merda, dá muita dor de cabeça.

Então eles não vão mais postar nada em rede social, fiquem tranquilos.

A próxima que ameaçar aporrinhar a vida deles vai só levar um tiro na cabeça e ser queimada no “microondas”.

E nossa sociedade vai poder dormir tranquila com sua timeline recheada de fotos de gatinhos.

Vai um de 10 aí, chefia?

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