“Oh, break it!”

O problema das lendas é que, às vezes, elas se tornam mais interessantes que a realidade e se termina publicando a lenda. É o que ocorre com alguns artistas que possuem uma trajetória biográfica com pontos que, por uma coisa ou outra, são interessantes ainda que não estejam diretamente ligados ao trabalho em si.

Janis Lyn Joplin nasceu no Texas, em 1943, e durante a sua adolescência gozou da fama de “exótica” por conta de sua aparência, gostos intelectuais (principalmente música) e pelo círculo de amizades. Depois de ser eleita o “homem mais feio do campus” da Universidade do Texas, em 1962-63, foi pra São Francisco tentar a sorte como cantora, mas terminou passando por sérios apuros financeiros e começou a perder o controle para seus vícios, notoriamente speed (anfetamina) e álcool. Depois de voltar para o Texas e tentar se livrar de suas fraquezas (sem desistir da carreira artística), se juntou em 1966 à banda Big Brother and The Holding Company, com quem gravou dois discos e conheceu finalmente a notoriedade. Infelizmente, o estilo hippie de viver da banda facilitou um retorno de Joplin para o mundo do álcool e das drogas, agora incluindo cocaína e, ocasionalmente, heroína.

Janis Joplin é uma do tipo. Cresci ouvindo que ela tomava todas, que ela beijava todo(a)s, que ela brigava com todo mundo, que ela era triste e amargurada e depressiva, que o cabelo dela era “louco” e que, claro, não foi surpresa quando ela partiu jovem desta vida. Sim, ouvi essas histórias milhares de vezes antes que um desses estranhos “fãs” resolvesse deixar um pouco os acontecimentos infelizes da vida dela de lado e resolvesse me mostrar o trabalho da artista. Antes tarde do que nunca!

No fim de 1968, ela saiu da banda e se lançou em carreira solo, primeiro acompanhada pela Kozmic Blues Band (que estavam com ela durante uma performance decepcionante em Woodstock, em 1969) e depois pela Full Tilt Boogie Band. Janis Joplin foi encontrada, em 04 de outubro de 1970, morta no seu quarto de hotel em Los Angeles, onde estava gravando o álbum Pearl, apenas três dias depois de finalizar sua última gravação, o clássico Mercedez Benz.

Seu jeito de cantora de ópera bêbada, seus gritos poderosos, sua presença marcante no palco e a forma como ela interpretava as canções, sempre colocando o sentimento acima da técnica, me conquistaram de saída. E entre interpretações arrepiantes como Kozmic Blues, Little Girl Blue, To Love Somebody e as icônicas Maybe e Cry Baby, a que entrou para a minha trilha sonora pessoal foi Piece of My Heart

Cabelo longo e cheio, grandes óculos redondos, roupas e adereços hippies… A imagem icônica da cantora.

Composta por Jordan “Jerry” Ragovoy e Bert Berns em 1967, que desejava que fosse gravada por Van Morrison, com quem ele estava trabalhando na época, mas Morrison não estava naquele momento interessado em trabalhar com material de outras pessoas. Desta forma, Berns passou a canção para Erma Franklin, que a lançou pela gravadora dele, a Shout

https://www.youtube.com/watch?v=5Y3dTPhvmA0

A versão de Erma fez certo sucesso em 1967. O que algumas pessoas não lembram é que ela voltou a chamar a atenção em alguns países europeus (Dinamarca, Holanda, Reino Unido e Irlanda) graças a um comercial da marca de jeans Levi’s, em 1992!

Mas foi em 1968 que a canção ganhou sua versão definitiva, graças em grande parte à interpretação de Janis, sem no entanto podermos esquecer o arranjo montado por Sam Andrew e conduzido com maestria pela Big Brother and the Holding Company. A própria Erma declarou que, num primeiro momento, não reconheceu a música quando a ouviu pela primeira vez na nova versão. Foi o maior sucesso de Janis Joplin em vida, numa versão que o autor Bert Berns nunca ouviu, pois morreu no fim de 1967. Ao longo dos anos, ganhou uma série de novas gravações por outros artistas, nenhuma que chegue perto do que foi feito por Janis. 

Big Brother and The Holding Company, em 1967.

Gravada entre março e maio de 1968, Piece of My Heart foi lançada em single com duas versões, sendo que em uma delas o lado B tinha Summertime, noutra vinha com Turtle Blues. Depois foi integrada no álbum Cheap Thrills, lançado em agosto do mesmo ano.

Sim, a arte da capa do álbum é do lendário Robert Crump. A banda queria que fosse uma foto deles todos nus, deitados em uma cama, mas a Columbia vetou a ideia.

Eu sempre tive problema com cantores que esbanjam técnica, mas não possuem capacidade para, de fato, “interpretar” uma música. É um pouco como Maria Bethânia (apesar de ela me surpreender algumas vezes): voz bonita, método esmerado, gosto apurado e… uma frieza de dar pena. Joplin, pelo contrário, parecia ter plena sintonia com o que estava cantando, dentro de uma visão pessoal que ela estabelecia sobre a letra.

Isso é claro em Piece of My Heart. Há uma certa vulnerabilidade que contrasta com a versão anterior: a personagem aqui não está enfrentando o seu amado, não está realmente lhe cobrando por suas atitudes dispersas, mas sim tentando mostrar para ele que o ama, perdoa e espera, implora que ele mude antes que seja tarde demais. Erma garante que, por mais pedaços do seu coração sejam arrancados, ela continuará forte em seu amor e disposta a lutar por ele. Já Janis faz um apelo para que a pessoa repense suas atitudes antes que ela, e não o sentimento em si, morra por não suportar o descaso. Franklin extrai força do amor mal correspondido; Joplin está sendo consumida pelo mesmo. 

No livro A Cabana, de William P. Young, há uma mensagem segundo a qual todos clamam por justiça, mas são poucos aqueles dispostos a assumir o fardo de julgar. Por isso, não venho aqui discutir se a personagem que Janis Joplin – minha xará de iniciais – interpreta na canção era algo que remetia a sua própria busca. Há quem entenda que não, por conta de diversas atitudes que ela tomou nos seus últimos anos que minaram suas relações amorosas. Eu ainda creio que tem muito da busca da própria cantora naquela interpretação, mas ela já estava numa estrada sem volta rumo à sua própria destruição, tendo que passar necessariamente pela auto-sabotagem, a insensata necessidade de destruir as coisas boas que poderiam lhe salvar. Ficou a obra dela. E a minha gratidão.

Have another little piece of my heart now, baby
You know you got it, child, if it makes you feel good…

 

 

 

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