Oh, não… O Enxuto com o mais deplorável gosto musical escrevendo sobre música?

Canções são formadas a partir de melodias, arranjos, letras e, principalmente, histórias. E são as histórias que elas contam ou as histórias que existem por trás delas que, algumas vezes, despertam a minha curiosidade e me fazem parar, ouvir e gostar.

Underneath it All é a quarta faixa (se não contarmos a introdução) do álbum Rock Steady, lançado já no fim de 2001, uma aposta em sons mais dançantes, decisão inspirada pelas festas que rolavam após os shows da turnê de Return of Saturn.

É o caso de Underneath it All, do No Doubt, que me chamou a atenção pelo videoclipe e, aos poucos, pela própria música. Não que fosse algo extraordinário de acontecer, pois desde o fim dos anos 1970 esta forma de divulgação ocupou o ponto central na estratégia de marketing de diversos artistas, chegando a gerar algumas super-produções. Astros do nível de Michael Jackson e Madonna seriam (um pouco) menos se não fosse por alguns clipes arrebatadores que faziam a garotada dos anos 80 pirar procurando onde poderiam passar estas obras na TV (a MTV ainda não existia por aqui – nem era parecida com o que é hoje – e a internet era coisa de ficção científica mais elaborada).

Lançada como o terceiro single do disco em 2002, foi o maior sucesso do No Doubt no mercado norte-americano, ainda que não tenha tido um desempenho destacado no resto do mundo.

Em fevereiro de 2001, Gwen Stefani viajou para Londres para encontrar o namorado, no meio dos trabalhos de composição e gravação do que viria a ser o álbum Rock Steady. Sem querer atrapalhar demais o cronograma, ela resolveu levar toda a banda junto para que pudessem continuar compondo. Na Inglaterra, eles visitaram Dave A. Stewart, ex-Eurythmics, a quem ainda não conheciam pessoalmente. Em cerca de quinze minutos, na cozinha de Stewart, ele e Stefani compuseram Underneath it All.  Em março, o grupo foi pra Port Antonio, na Jamaica, onde gravaram a música, com a produção compartilhada de Sly and Robbie. Há uma inusitada participação de Lady Saw (atualmente conhecida como Marion Hall): a artista foi ao estúdio, ouviu a canção e ali mesmo escreveu e gravou a sua parte. Mesmo sendo uma balada, o arranjo é dançante e ajudou a trazer algumas das melhores performances ao vivo do grupo.

O No Doubt (Tony Kanal, Gwen Stefani, Adrian Young e Tom Dumont) começou a sua trajetória em 1987, como cover do Madness, estourando em 1995, com o álbum Tragic Kingdom, graças principalmente ao hit Don’t Speak. Sem lançar álbuns desde 2012 nem se apresentar ao vivo desde 2015, o grupo nunca foi oficialmente extinto.

O videoclipe conta com a direção de Sophie Müller (de longa relação profissional com os Eurythmics). A ideia original era brincar com as imagens, buscando um contraste com a letra inocente, mostrando Gwen como uma stripper que iria aos poucos se despindo. Mas a diretora desistiu da ideia e Stefani vai adotando um visual progressivamente mais clean: começa com roupas pesadas e maquiagem forte, em um local escuro, mas termina deitada na cama, de roupas brancas e leves, sem maquiagem e iluminada pela luz do sol. O vídeo termina se complicando nas passagens em que aparecem os demais integrantes da banda, jogando basquete e andando de bicicleta, numa verdadeira explosão de cores, destoando com mau gosto. Mas o resto compensa, principalmente porque a vocalista não apenas fica cada vez mais bonita ao longo do clipe, como entrega uma interpretação enternecedora: deve ter amolecido mais de um coração frio quando, num determinado momento, limpa lágrimas que escorrem sinceras pelo seu rosto, enquanto entoa “You’ve used up all your coupons / And all you’ve got left is me / And somehow I’m full of forgiveness / I guess it’s meant to be.”

https://www.youtube.com/watch?v=YdSSlMJKzgI

Na letra temos que apenas a pessoa sentimentalmente enredada consegue enxergar por baixo da fachada pública de alguém que, pro mundo em geral, não apresenta as qualidades necessárias para receber bons sentimentos. Estes atributos existem, mas não estão na superfície, precisando ter um envolvimento maior para poder conhecê-los. Mas há também uma ideia de amor incondicional, superior, disposto a tudo para triunfar, inclusive perdoar todas as mancadas do outro lado. Obviamente, a inspiração vem da relação entre Stefani e Gavin Rossdale, vocalista do Bush (e também ex-modelo e ex-jogador de futebol amador). Inclusive os versos “You-re really lovely / Underneath it all” foram retirados do diário de Gwen, depois de ela ter passado o que imagino terem sido horas agradáveis com Gavin num parque.

Gavin e Gwen, cujo relacionamento virou casamento em 2002 e terminou em 2015. Ele interpretou Balthazar, o mestiço infernal que enfrenta Keanu Reeves no filme Constantine (idem, 2005).

Usar seus relacionamentos pessoais para compor não foi nenhuma novidade para Gwen: Tragic Kingdom, o álbum de 1995 que levou o No Doubt pro sucesso mundial, tem as composições de Stefani inspiradas no término do seu relacionamento com o colega Tony Kanal, baixista da banda. 

Kanal e Stefani, muito tempo antes do sucesso...
Tony e Stefani, beeeeeeeem antes da fama.

Se você também nunca nem sempre foi o “mocinho(a)” na história dos seus relacionamentos, vai se reconhecer na letra. Se, pelo contrário, foi a parte boazinha do casal, lembrará que usou palavras parecidas para justificar a relação para outras pessoas. E o Bom Dia de hoje vai pra todos vocês, que viveram, mas quase nunca conseguiram explicar, um relacionamento onde, como Shakespeare escreveu, alguém não amou como a outra pessoa queria ser amada, mas com tudo o que podia.

E pra quem conseguiu enxergar… underneath it all.