Warner um dia corta o Snyder, agora vai lançar o corte do cara…

E na semana passada o diretor Zack Snyder aproveitou uma live em que assistiu O Homem de Aço (Man of Steel, 2013) junto aos fãs para  anunciar oficialmente que a Warner Bros finalmente deu o sinal verde para o lançamento de uma versão do diretor (no caso, ele) para Liga da Justiça (Justice League, 2017). Ela sairá em 2021 como uma série de seis episódios na HBO Max

https://www.youtube.com/watch?v=Xkd-RlGpwYM

A história é velha e todo nerd de segunda divisão conhece. Diante das bilheterias mornas e uma avalanche de críticas ao seu trabalho tanto em O Homem de Aço como em Batman Vs Superman – A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016), o diretor sofreu desde o início do filme da Liga uma pressão incomensurável. Pra piorar, executivos presentes aos sets de filmagem perceberam que o sujeito não estava disposto a ceder e mudar a forma como havia concebido sua visão particular do Universo DC, que já tinha a esta altura recebido na internet a alcunha pejorativa de Snyderverso. O estúdio, de forma pouco dissimulada, aproveitou uma tragédia familiar (o suicídio de Autumn, filha do cineasta, em março de 2017) para afastá-lo da produção e colocar no comando o diretor/roteirista Joss Whedon, com ordens para que ele (que tinha vindo pra Warner trabalhar em um filme solo da Batgirl) fizesse pela equipe da DC algo parecido com o que tinha realizado com os Vingadores, da rival Marvel.

“Arre! A Warner cancela Mulher-Maravilha, cancela Batgirl… Mas lança Liga da Justiça! E queima o meu filme!”

O resultado é um filme confuso, que não cola com as produções anteriores e escancara verdadeiros cânions de roteiro. Pra piorar, a pressa – eterna inimiga da perfeição – ainda fez com que a película chegasse aos cinemas mal acabada, com efeitos risíveis e cenas mal arranjadas. O filme não apenas fracassou nas bilheterias, como virou motivo de piada.

“Não entendi, Batman! Esta cena não faz sentido!” “Oh, Comissário, é só pra mostrar o J K Simmons mais uma vez visualmente perfeito como um personagem de hq e, de quebra, inserir mais uma piadinha sem graça do Flash!”

No entanto, Zack Snyder deixou claro que tinha muito material filmado (falam que o primeiro corte que ele apresentou para o estúdio teria quase seis horas de duração). A Warner se manifestou, declarando não ter plano algum para voltar a mexer com esta produção, até porque estaria interessada em rebootar seu universo cinematográfico (provavelmente através da adaptação de Flashpoint) ou mesmo deixar de lado estes planos, voltando a apostar em visões individuais de cada herói (como parece que será o Batman do diretor Matt Reeves).

Na saga Flashpoint – ou Ponto de Ignição -, Barry Allen acorda em uma linha temporal alternativa, onde sua mãe nunca morreu, ele não adquiriu os poderes de velocidade, a Liga da Justiça jamais existiu e o Batman é Thomas Wayne, o pai de Bruce. Esta história serviu para dar início aos Novos 52, pois Barry não consegue restaurar a linha temporal anterior tal qual ela era antes, causando certas mudanças, entre elas a volta do Multiverso DC.

Mas aí aquilo que é a verdadeira força da DC: ela desperta reações extremas! Quem gosta, ama; quem não gosta, odeia! E TODOS parecem fazer questão de demonstrar a extensão destes sentimentos na internet. Enquanto a Marvel/Disney surfa tranquila na onda de grandes sucessos esquecíveis, os fracassos da Warner com seus personagens de quadrinhos parecem nunca sair de pauta. Até hoje se discute a destruição que o Superman (Henry Cavill) promoveu no seu filme de 2013, a forma risível como Lex Luthor Jr. (Jesse Eisenberg) manipulou Bruce Wayne (Ben Affleck) e Clark Kent para que trocassem sopapos em Batman vs Superman e até mesmo a participação descartável e o visual ridículo do Coringa (Jared Leto) em Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016). E, na onda disso, continuou o burburinho sobre o agora apelidado Snydercut.

Desde 2016 as pessoas discutem o méritos e deméritos de Batman vs Superman. Para mim? Um filme muito mediano, cujo principal problema é a inabilidade de Zack Snyder de compreender os personagens principais.

Só que o burburinho cresceu e se tornou uma verdadeira bomba quando ganhou um pequeno símbolo: #. Não demorou para que crescesse e virasse #releasesnydercut e ganhasse a adesão de diversas celebridades do mundo nerd, inclusive atores do filme, como Jason Momoa, Gal Gadot (*suspiro*) e – pasmem! – Ben Affleck! Este, inclusive, fez questão de parabenizar Snyder e os fãs pela vitória alcançada:

Sim, porque, gostando ou não, a liberação da versão snyderiana para Liga da Justiça sinaliza uma nova possibilidade para as adaptações de super-heróis ligadas a Warner Media. Saem os egos inflados de diretores e executivos que acham que entendem de filmes, mas com certeza não sacam nada de quadrinhos, e entra a opinião do fã de verdade, que vinha sendo marginalizado por uma estúpida argumentação que defendia mudanças terríveis em personagens estabelecidos alegando que filmes/séries são “adaptações, não transposições”. 

Claro que ninguém aqui é tolo e sabemos que outros fatores terminaram por influenciar a liberação do $nydercut. Além da necessidade de um produto de forte apelo para o novo canal de streaming da Warner e o impacto que a atual pandemia exerce na produção de material de entretenimento, a mais determinante foi a saída, em março de 2019, do CEO Kevin Tsujihara, uma vez que dificilmente o responsável pela contratação de Joss Whedon gostaria de ver chegar ao público a versão que ele próprio desprezou. Tsujihara pediu demissão em meio a acusações de “má conduta sexual”. 

Se a Warner tivesse dado mais atenção à reação dos fãs quando viram esta imagem, a primeira de Jared Leto como o Coringa, talvez as coisas pudessem ter sido diferentes para o Esquadrão Suicida… Tipo o que a Paramount fez com o Sonic, saca?

Mas, afinal, o que tem de tão legal nesta versão do Snyder?

Todos aí ganharam diálogos constrangedores, mas acho que ninguém sofreu mais do que a Mulher-Maravilha de Gal Gadot,: “Estou trabalhando com crianças!” fala a imortal!

Em primeiro lugar, algumas cenas deletadas que foram exibidas ou descritas na internet poderão finalmente ser apreciadas dentro de um contexto, como o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) tentando transformar uma amazona em um parademônio, a Liga chegando na Batcaverna, várias cenas com o Cyborg (Ray Fisher) e o Superman conhecendo o Alfred (Jeremy Irons). E a mítica cena extra que mostraria o Batman lutando com o Exterminador (Joe Manganiello), no que seria uma prévia para The Batman, o projeto que seria protagonizado, escrito e dirigido por Affleck, antes deste desistir do personagem.

Também haverá um retorno ao estilo visual mais rebuscado de Snyder. O já citado Lobo da Estepe, por exemplo, deverá ser apresentado como visto rapidamente na versão estendida de Batman vs Superman. O último kryptoniano aparecerá com o uniforme negro após ser ressuscitado. E não se espantem se virmos mais alguma(s) outra(s) versão(ões) do bat-traje.

Personagens também devem  aparecer ou ganhar mais destaque e até alguns diálogos: Iris West, deuses gregos, um outro Lanterna Verde (além de Yalan Gur, visto rapidamente na versão de Whedon), a Supergirl, o confirmadíssimo Caçador de Marte e, claro, Darkseid!

O enredo também sofrerá mudanças drásticas. Saem as piadas infames e os confrontos sem sentido (o Superman com visual de mendigo dando um pau na Liga inteira depois de renascer chega a ser vergonhoso), entram uma explicação mais crível para a ressurreição do Homem de Aço (talvez com o envolvimento direto de Kara Zor-El, a Supergirl), um plano mais elaborado pra justificar a presença do Lobo da Estepe no nosso planeta (ele, na verdade, busca o poder das caixas maternas para poder desafiar Darkseid) e referências ao estranhos sonhos do Batman vistos no filme anterior e completamente ignorados na versão da Liga levada aos cinemas.

O General Calvin Swanwick (Harry Lennix) nada mais é do que o J’onn J’onzz. Palavra do próprio Snyder. Resta saber se desde o começo, lá em 2013, ou se ele tomou o lugar do verdadeiro militar em algum momento depois de Batman vs Superman.

E depois? Claro, todos na Warner garantem que para aqui, não passando de um mimo (que vai custar vinte milhões de dólares, diga-se de passagem) pros fãs. Mas eles também deram certeza de que jamais haveria este mimo. Snyder já garantiu, claro, que tem o roteiro pronto pros dois próximos filmes, com amplo destaque para o Superman. Henry Cavill (um dos poucos atores que não lamentou a saída de Zack do comando da produção anos atrás, mas inclusive participou da live em que foi anunciado o Snydercut) parece mais do que disposto a continuar seu trabalho na DC, tanto em uma continuação para O Homem de Aço, como participações em outras produções: ele deve aparecer tanto na sequência de Shazam! (idem, 2019) como no filme do Adão Negro, que será vivido por Dwayne Johnson (a empresária e ex-esposa do eterno The Rock ser também a responsável pela carreira de Cavill ajuda, né?). Por que não em duas sequências do filme da Liga? Gal Gadot e Jason Momoa se amarram tanto em seus papéis que dificilmente colocariam empecilhos. E Ben Affleck, agora recuperado de uma série de problemas pessoais que o fizeram desistir do papel de Homem-Morcego, poderia ser convencido a ter uma participação simbólica nos longas, mais como um financiador e estrategista da equipe do que alguém que iria a linha de frente lutar com parademônios.

Nos planos originais de Snyder, os heróis da Liga, depois de derrotarem o Lobo da Estepe, usariam os tubos de explosão para levar a luta para Apokolips, mas seriam derrotados por Darkseid, que viria pro nosso planeta e mataria Lois Lane (Amy Adams). A morte do amor da sua vida desestabilizaria o Superman, que seria corrompido pela Equação Anti-Vida e se tornaria um servo do Senhor de Apokolips, surgindo assim a versão do nosso planeta vislumbrada pelo Batman durante seu “sonho” no filme de 2016. Na terceira parte, Cyborg enviaria o Flash para avisar Wayne a tempo de salvar Lois e, assim, evitar a queda do Homem de Aço para o lado sombrio. Só que ele chega antes do momento certo (mais uma vez, em BvS), levando o Morcego a uma interpretação equivocada. Então o próprio Batman viajaria no tempo, para um momento mais próximo dos acontecimentos que teriam ocorrido em Liga da Justiça 2, para resgatar o velocista (perdido na linha temporal) e assim tornar possível que sua versão passada receba o recado de forma correta, impeça a morte de Lane, a queda de Kal-El e a vitória de Darkseid.

A reação a liberação do Snydercut está sendo tão positiva que os executivos da Warner provavelmente estão lançando boatos na internet para testar a recepção para projetos similares. David Ayer já garante existir uma “versão do diretor” para Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016) e que a mesma poderia ser rapidamente finalizada. E já se especula até mesmo que Ben Affleck poderia desengavetar a sua ideia para The Batman e lançá-la pela HBO Max (um sinal de que o estúdio não está tão empolgado assim com o projeto protagonizado por Robert Pattinson?).

Na versão original, o filme do Esquadrão teria grande foco sobre a Arlequina (Margot Robbie), que estaria buscando uma forma de se afastar da relação abusiva que tinha com o Coringa, sendo perseguida pelo vilão inconformado com o rompimento. Magia (Cara Delevingne) estaria agindo sob a influência de Darkseid e transformaria as pessoas em parademônios, não naquelas criaturas esquisitas que vimos. Ela, inclusive, em determinado momento seria visto abrindo um tubo de explosão, talvez para trazer o Lobo da Estepe de volta ao nosso mundo. O Coringa  faria um pacto com a feiticeira para que ele e a Arlequina se tornassem os reis de Gotham, se tornando o alvo do próprio Esquadrão Suicida. El Diablo (Jay Hernandez) não morreria e a Arlequina terminaria o filme romanticamente envolvida com o Pistoleiro (Will Smith).

Apesar de estar curioso para dar uma olhada no que vem por aí, não nego uma ponta de decepção por a Warner mais uma vez estar mexendo em um passado incômodo. Poucos filmes foram tão ruins quanto Liga da Justiça, muito por conta (isso é fato) do trabalho de Joss Whedon (“Qual o seu superpoder?” “Eu sou rico!”). Mas eu sempre tive severas reservas a forma como Snyder trabalhou os ícones da DC. Minha opinião é de que ele é tão focado no visual que não consegue entender uma história em quadrinhos, consequentemente dando pouca atenção a coisas simples, mas fundamentais na formação de alguns personagens, como o Batman não matar e o Superman ser incapaz de destruir cidades lutando contra vilões. Aliás, ele sequer parece entender o conceito de identidade secreta, né? Portanto, apesar do interesse, a expectativa é baixa, até porque será uma história sem final, que não terá desenvolvimento. Voltar mais uma vez a isto me dá uma sensação de que só servirá para adiar (provavelmente para uma outra vida) o sonho de finalmente ver, de forma ordenada e digna, os heróis e vilões da DC interagindo em um universo cinematográfico compartilhado, espelhando no cinema a grandiosidade que nos acostumamos a ver nos quadrinhos (antes de tantos reboots, relaunchs e renascimentos) e nas animações. 

 

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