Em terra de cego quem tem um Mercenário é Rei do Crime…

Salve, salve cambada de Enxutos e Enxutetes. Eis que volto a este boteco internético (salve, Jota Jota!) para trocar umas ideias sobre a terceira e última temporada de Demolidor pela Netflix. Poucos spoilers ahead, folks!

Para variar, segue sinopse chupinhada de algum lugar desta grande rede ao qual não faço ideia de onde tirei, tão pouco vou dar (ui) créditos:

Sumido por meses, Matt Murdock (Charlie Cox) reaparece como um homem perdido, questionando seu futuro como o vigilante Demolidor e o advogado Matthew Murdock. Mas quando seu arqui-inimigo Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) é libertado da prisão, Matt deve escolher entre se esconder do mundo ou abraçar seu destino como herói.

Indo um pouco além: a história se passa após os eventos de Defensores e com Matt se recuperando escondido na Igreja do seu bom amigo padre Lantom. Por sinal e para bom entendedor da Queda de Murdock, obra no qual foi inspirada esta temporada, temos uma freira (Irmã Maggie) como um suporte psicológico, Karen Page revelando seu passado sombrio e o agente Benjamin Pointdexter revelando-se ao longo dos capítulos como uma grata surpresa.

Sem mais delongas, as análises. O enredo se desenvolve muito bem e mesmo a tradicional ‘barriga’ das séries netflixianas sobre personagens do Mickey quase não é percebida. O ritmo é bem interessante e há equilíbrio com a ação. Ao contrário da segunda temporada onde a química entre Matt e Elektra não faz liga e um certo devaneio no mote principal que pedia mais e entregou menos, ouso dizer que seja a melhor das três no quesito construção da história. Há um crescente e um clímax bem aproveitado. Destaque especial a construção do Mercenário pelo Rei do Crime. Talvez a única falha tenha sido a última cena do seriado e um certo ‘fantasminha camarada’ que acompanhou o Atrevido, mas nada que possa comprometer o todo, longe disso.

As atuações. Para variar Vincent ‘Kingpin’ D’Onofrio faz um excelente vilão. Incrível como seu equilíbrio instável como se fosse uma fúria contida do Fisk te convence. De fato e de direito, o grande destaque da série. E não por conta disso o trabalho de Charlie Cox deva ser diminuído. Matt Murdock afundado e destroçado, com poucas esperanças de sair do fundo do poço, apresenta um amadurecimento do ator na compreensão do personagem. Ao longo das três temporadas, Cox conseguiu entender melhor os anseios e motivações do protagonista e é uma pena (ou não, digo depois) não termos mais temporadas. Em relação aos demais, até mesmo Ann Woll faz um trabalho razoável para mediano. Wilson Bethel entrega um Mercenário bem convincente, com camadas que não são o preto no branco ou caricato. Foggy bem como sempre e os demais atores também, sem maiores destaques.

Grandes clássicos da Umanidade

Escrever sobre as cenas de luta, suas coreografias em espaço confinado, é chover no molhado, não precisamos.

Antes do veredito, peço a vênia aos meritíssimos para um adendo. Como demorei muito a escrever a respeito, antes de digitar estas mal pensadas palavras, a Netflix anunciou o fim do ciclo de Demolidor na empresa, fazendo companhia ao Punho de Ferro (Deus o tenha e não traga de volta!) e Luke Cage.  Especulações a parte, seria ingenuidade pensar que iriam continuar a desenvolver estes personagens com o novo serviço de streaming do Mickey batendo as portas. Ao contrário das demais (e sim, acho Xéssica Xones sucesso apenas por tratar de empoderamento feminino, pois a série é muito fraca), Demolidor mostrou-se um produto de qualidade superior, mesmo considerando a segunda temporada, ficando a sensação de que haveria espaço para mais histórias do Atrevido a serem contadas.

Olha mãe: o Batman vermelho!

Entretanto, irei nadar contra a correnteza. Um dos grandes problemas de inúmeras séries televisivas é a pretensão de que são ‘eternas’ podem ser estendidas ao limite. O mesmo vale para quadrinhos, onde longos arcos ou amarrações em demasia fazem com que não exista mais saídas ou inovações, tornando ou o escritor preso a uma fórmula pré-estabelecida ou esgota sua cota de criatividade em manter o interesse do público. Seguindo esta linha, o cancelamento de Demolidor no seu ‘auge’, faz termos a boa sensação de fim de ciclo. Um arco fechado de histórias, entendem? Mal comparando (e não estou dizendo de ser um clássico, mesmo que ainda não): é um Watchmen ou Reino do Amanhã. Fechado em si mesmo, com início, meio e fim, mesmo um ‘fim’ não encerrado. Por sinal, dos exemplos citados, as continuações … bem, vocês sabem.

Encerrando, afinal nesta modernidade qualquer texto com mais de dois parágrafos está fadado a não ser lido: a terceira temporada de Demolidor fecha com chave de ouro uma série de qualidade. Não só esta temporada, mas o conjunto da obra, com alguns deslizes aqui e acolá, é uma daquelas que qualquer fã do Cegueta de Hell’s Kitchen poderia ter sonhado em ter sido realizada. Ah, mas não foi fiel stricto sensu aos quadrinhos? Relaxe e goze curta.

Nota 9 de 10