Tem que ver isso daí, tá ok?

Salve, salve cambada de Enxutos e Enxutetes que curtem um regime e não é fazer dieta. Serious business… Sem arvorar em polêmicas desnecessárias sobre se foi ou não uma coisa ou outra, trago-lhes minhas impressões sobre este documentário do longínquo ano de 2013, intitulado O Dia que Durou 21 Anos

Aquela sinopse chupinhada de algum rancão da internet, de onde, claro, não darei o menor crédito: O Dia que Durou 21 Anos é um documentário brasileiro, dirigido por Camilo Galli Tavares (Cidade do México, 1971), sobre a participação do governo dos Estados Unidos na preparação, desde 1962, do golpe de estado de 1964, no Brasil. O filme tem como ponto de partida a crise provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros, em agosto de 1961, e prossegue até o ano de 1969, com o sequestro do então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick, por grupos armados. Em troca de sua libertação, 15 presos políticos são soltos e posteriormente banidos do país. Um deles, o jornalista Flávio Tavares, 27 meses depois de se radicar na Cidade do México, seria pai de Camilo, o cineasta cujo nome é uma homenagem ao padre católico e guerrilheiro colombiano Camilo Torres, morto em 1966.

 

E eu com isso? Well, apesar de reconhecidamente em tempos atuais se apresentar como um tema polêmico, assistir um pouco da História faz bem para entendermos melhor o que se passou, em qual contexto e tudo o mais para se ter uma opinião baseada em fatos. Diante deste contexto, Camilo Tavares nos brinda com um documentário relativamente curto, onde consegue apresentar os ‘lados’ daquilo que se convencionou historicamente se chamar de Golpe Militar iniciado em 31/03/1964 (mas que, de fato, começou com o movimento de Mourão Filho na madrugada de 01/04).

Com testemunhos de alguns personagens que ainda estavam vivos na época da gravação e que vivenciaram o período in loco, o diretor fez estudo minucioso do material divulgado pelos EUA, mostrando a influência de direta de John Kennedy e, após o seu assassinato, Lyndon Johnson como articuladores do processo. Com grande riqueza de informações e referendado em material dos yankees, é descortinado o papel preponderante de Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil, com a percepção de que João Goulart ‘claramente’ levava o Brasil a um caminho similar ao que tomou Cuba Castrista.

No decorrer dos fatos, apresentando a atuação de Brizola como ‘resistência’ e as ações de Goulart culminando com uma visita à China e a proposta de uma reformar agrária de grande porte, fica evidente que todo o pano de fundo de fato era o receio dos militares brasileiros e os EUA em que o Brasil de fato viesse a se tornar comunista.

Por outro lado, os próprios norte-americanos não previram as mudanças e radicalização adotada, especialmente com o AI-5 e a cassação dos direitos individuais. Neste aspecto, a defesa contra o comunismo perde força e há grande constrangimento no tocante ao caminho trilhado. Interessante notar que alguns mecanismos recorrentes nos dias de hoje, lamentavelmente, estão de volta: a classificação do opositor como um ‘inimigo’ (seja um ‘subversivo’, ‘comunista’ ou colaborador do regime), sem criar pontes de diálogo. Claro que não há como comparar o antigo contexto e propor diálogo naquele cenário, mas o ‘modus operandi’ tem uma similaridade assustadora com os extremistas atuais (de todos os lados).

Enfim, uma excelente oportunidade para você assistir e tirar suas próprias conclusões sobre o período em análise. Sem intermediários. Claro que há alguma parcialidade no material, entretanto com as fontes históricas disponíveis, o nobre colega que o assistir terá plena capacidade para avaliar o que é fato ou exagero, especialmente quando se toma as redes sociais atuais com suas simplificações baratas. Gaste esta hora e meia de sua vida assistindo isso. Um pouco de História ajuda a entender não só o passado e o presente, mas até a evitar erros no futuro.

Nota 9 de 10.