Tem que prender estes VA-GA-BUN-DOS….

Salve, salve cambada de Enxutos e Enxutetes que participam de esquemas mas não ganham nada com isso. Na minha completa ausência do mundo dos quadrinhos ultimamente, volto minhas baterias as séries televisivas e tento ‘brindá-los’ com minha opinião ‘isenta’ e totalmente ‘parcial’. A escolhida de hoje, a não menos ‘polêmica’ segunda temporada de O Mecanismo da Netflix. 

Como habitual, aquele resumo safadão que não tenho como saber de onde veio na internet: A segunda temporada começa seguindo os eventos de 2014, com a presidente Dilma Rousseff ainda no poder e 12 dos 13 maiores empreiteiros do Brasil já atrás das grades. A força-tarefa liderada pela delegada Verena (Caroline Abras) com a ajuda do ex-policial Marco Ruffo (Selton Mello) está tentando prender o mais importante dos empreiteiros, Ricardo Brecht (Emílio Orciollo Netto).

O impeachment da então presidente e a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparecem no centro de uma manipulação orquestrada por políticos de diferentes partidos interessados em perpetuar seus interesses no poder. Procuradores, policiais e um certo juiz de Curitiba tentam investigar os crimes de corrupção sem politizar o trabalho, mas a tarefa se revela impossível.

E eu com isso? Well, a análise aqui precisa separar no lado técnico e o político, considerando o segundo uma expressão e opinião de José Padilha sobre todos os eventos. Explico mais à frente. Seguindo esta linha, a série tem um desenrolar para lá de conhecido ao se reportar como inspirada em ‘fatos reais’ que desaguam no resumo posto dois parágrafos acima. Em linhas gerais, entremeando estes ‘fatos históricos’, temos algumas sub tramas envolvendo os protagonistas, tornando o mundo mais ficcional e ‘vendável’ para a tv. Sob este aspecto, o ritmo para uma série policial investigativa é até certo ponto lento. Mantida a narração em off de Selton Mello, mais audível desta vez ainda que sussurrante, não há muitas reviravoltas importantes, salvo o final de Ruffo (boa sacada para termos um antagonismo mais forte, apesar de forçando a amizade). 

Entretanto, e talvez por causa disso, a forma retratada da política nacional em seu âmago, prende sua atenção e faz com que assista os 8 episódios quase que de uma vez. Esse também é um ponto alto: não há o que enrolar e não se estende muito em tramas menos importantes que o caminho principal. Tiro curto, com alguns desvios como a Operação Paraguai criada para dar mais dramaticidade, a série cumpre bem o seu papel e tu terminas sem um sentimento de quero mais ou arrependimento por ter assistido.

Ainda no campo técnico, Selton parece com ele mesmo, ou seja, para mim não atua. É como o ator se comporta e não um personagem. Nesse caso, não atrapalha, mas fica a sensação de conhecer aquele Delegado da PF de outros carnavais. Só um pouco mais contido que, por exemplo, em Auto da Compadecida. Carol Abras (diliça) faz bem seu papel de Verena, sem grandes destaques. A dupla de Procuradores dá para o gasto, Marcelo, digo, Ricardo Brecht (Emílio Orciollo Netto) faz um paranoico competente. Entretanto, quem rouba a cena é Emilio Diaz com seu Ibrahim. Canastrão dentro da medida, seu tom blasée de ter tudo sob domínio mesmo quando em apuros, faz com que queiras saber mais do personagem. A conversa final com Ruffo, onde até o Bátemã é citado, mostra o personagem em sua essência. Muito bom. O resto do elenco, sem grandes destaques, sendo alguns até caricatos demais.

Por fim, o lado político. Esse foi um tema polêmico na primeira temporada com a ‘demonização’ de um partido em detrimento do outro. Não há como saber se por conta ou apesar disso, a segunda temporada vai em linha oposta: literalmente, atira para todos os lados. Salvo Ruffo, Verena e o núcleo da PF, todos são atingidos de alguma forma, sem heróis ou vilões. Mesmo Moro (Rigo) é criticado de forma explícita. E aí, como é muito difícil encontrar nos dias de hoje, reside um dos méritos da série. Padilha tenta, dentro do possível, mostrar a dualidade de alguns personagens e como em vários momentos, em nome de um bem maior, algumas linhas éticas e morais são transpostas. Há um episódio intitulado “O fim e os meios” que, só pelo nome, indica as intenções pretendidas. Há de se ressaltar que vivemos um período rico, historicamente falando. Como a série não é um documentário e busca isenção, não há como se cobrar este ponto e os autores não fazem questão de serem. De fato, a grande pergunta é: vale tudo mesmo por um ideal, mesmo corrompendo outros? Será mesmo que tomando certas atitudes, o bem maior virá? Não tenho as respostas. Cada um faça seu julgamento. A resposta é de foro íntimo, influenciada em grande pauta por sua ideologia ou convicção de vida.

Para deixar claro: aqui não defendo A ou B, esquerda ou direita, centro ou epicentro. Ninguém é inocente neste mundo retratado pela série e no Brasil. Como diria um já quase esquecido poeta gaúcho “todos iguais / todos iguais / mas uns mais iguais que os outros”. A única certeza que tenho é que extremismos (azuis ou vermelhos) nunca funcionaram na História e não será no Brasil hão de funcionar…

Enfim, inferior a primeira, mas ainda sim boa para assistir.

Nota 7 de 10