Que Soneca…

Salve, salve cambada de Enxutos e Enxutetes que curtem uma dobra. Que tal singrarmos novamente o espaço (e agora o espaço-tempo) na mais nova temporada da série inspirada na clássica sessentista capitaneada pelo Kirk, Spock e sua trupe? Puxe seu comunicador e venha conosco analisar a segunda temporada de Star Trek: Discovery.

Vamos a um resumão, com poucos spoilers. A segunda temporada é focada na aparição de estranhos sinais em diversos pontos do espaço, sinais estes apresentados por um ‘anjo vermelho’. Com a saída do Capitão Lorca na última temporada, a Discovery acaba ‘esbarrando’ com a Enterprise e por motivos gerais aos quais não gastarei linhas aqui, Capitão Pike assume o comando da tripulação e parte na pesquisa sobre os tais sinais. Neste interim, Michael Burnham precisa ajudar Spock, acusado de matar oficiais da Tropa. Spock está piradão das cabeças e há algo que o relaciona ao tal ‘anjo vermelho’. A coisa ganha corpo ao longo dos episódios, quando descobrimos que o futuro de toda a vida no universo depende de Burnham e da Discovery

Como habitual, as análises a la Jack. Diferente de outras resenhas, começarei pelo enredo. A série, originalmente pensada em ter episódios autocontidos em si, trabalha no fio da navalha ao estar no passado (cerca de 10 anos) da série clássica. Entre agradar aos fãs antigos, com o cuidado de não interferir muito na ‘lógica’ temporal, os autores conseguem entregar um produto de qualidade. Gostando ou não, o final da temporada ‘encaixa’ perfeitamente na cronologia original, principalmente por deixar claro do porquê ninguém mencionar sobre o motor de esporos ou sobre a ‘irmã’ de Spock. Flutuando entre homenagens, algum saudosismo (especialmente em episódio que remete ao piloto original, com a Enterprise sob o comando de Pike), a serie navega bem com seu enredo, prendendo a atenção ao longo de seus 13 episódios. Há um problema que falarei mais adiante, mas a história em si é boa, levemente inferior ao primeiro ano, mas totalmente assistível, com bom ritmo e sem as tradicionais barrigas netflixianas. Ou pelo menos, nada que atrapalhe…

Sobre os problemas, na verdade são dois. O primeiro, ainda no enredo, é a falta de sutileza ao empregar o feminismo. Calma, explico. Tradicionalmente, a serie clássica é reconhecida por sua inclusão, ao apresentar personagens que não eram representados historicamente em series. Havia uma oficial negra, um russo (na época da Guerra Fria!), asiáticos, dentre outros, sem maiores ou menores explicações. A história era aquela e ponto. Todos com sua importância no contexto, sem uma bandeira explícita. A mensagem era clara e inequívoca, com a sutileza da simplicidade: todos participam e tem seu momento, independente de qualquer questão racial. A igualdade era explícita. A sociedade era mais igualitária. Só. E o que me incomodou na Discovery? Não há este equilíbrio. O ‘empoderamento’ passa do ponto e, ao invés de ser algo natural da história, precisa esfregar nas fuças do espectador de uma forma nada sutil. Todos os protagonistas que tem alguma ação relevante para o foco do enredo são as personagens femininas. Desde a protagonista (falarei mais tarde), passando pela Chanceler Klingon, a Almirante da Tropa, a Capitã Terráquea Georgiou e até mesmo uma rainha gênia colocada no contexto só para causar. E aqui o disclaimer: não sou um machista e entendo a necessidade de maior participação do papel feminino no mundo. Entretanto, há formas e formas de se fazer isso e no objeto em pauta, houve notadamente um exagero que, se não compromete, incomoda.

O segundo problema, remete a protagonista. E aí não venham com mimimi de que estou escrevendo isso por que é uma mulher negra. A atriz não convence. Ela melhorou? Sim, muito. Entretanto, não consigo comprar a personagem. Até compreendo que fora criada como uma Vulcana e suas emoções precisam ser mais contidas, mas os momentos em que afloram as emoções, sempre são as mesmas caras que não convencem. Sonequa de fato é o elo fraco da corrente. Doug Jones está confortável em seu já tradicional papel de ser esquisito, assim como Anson Mount como Capitão Pike (por sinal, mereceria uma série da Enterprise sob seu comando). Ethan Peck é quem tem o maior peso sob sua responsabilidade por interpretar Spock e o entrega de forma correta, sem comprometer. Do restante, o vilão Leland / Alan van Sprang é bidimensional, entretanto funciona. Mary Wiseman faz o mais do mesmo com a oficial novata e chata. Anthony Rapp tem menos protagonismo. E o resto é o resto…

Enfim, qual o veredito? Com efeitos especiais justos para uma série televisiva, apesar dos pesares informados anteriormente, é uma série obrigatória para os fãs de Star Trek. Para quem não o é, ainda sim é uma boa ficção científica e opção para assistir. Vá com calma na imersão, deixe os poréns de lado e vá onde nenhum homem, ou mulher, jamais esteve…

Nota 7 de 5 de 10 (após reflexões e ponderações junto aos colegas em especial ao Infame e ao JotaJota. Nota original no calor do momento de escrever ao fim da serie)