O fim para um recomeço?

Salve, salve, cambada de Enxutos e Enxutetes que choram em salas de cinema. Eis que após 22 filmes, dez anos, milhões de especulações…. finalmente, o ápice de toda a megalomania do Mickey chega ao fim em Vingadores: Ultimato. Não irei me preocupar com spoilers, afinal a esta altura do campeonato, poucos dos mais ‘fiéis’ ainda não assistiram, então…

A la Jack, comecemos pelos pontos fracos. De longe, muito longe e põe longe nisso, é o filme com mais decisões Deus Ex-Machina de toda a filmografia da Marvel. Desde uma ratazana andando sobre complexos instrumentos que trazem Scott Lang de volta, passando pelo empoderamento reforçado da Capitã Marvel que quase não tem falas, até o final derradeiro do Tony Pinga, conseguindo a única possibilidade de salvação em cenários de bilhões de oportunidades ao ‘roubar’ as Jóias do Infinito na ‘mão grande’ de Thanos. Fica evidente que não seria possível fechar as pontas soltas, sem uma ‘mãozinha’ do roteirista, como uma boa hq de megassagas. Em linhas gerais, não comprometeu a percepção do todo, mas incomodou um pouco no andamento da película, na torrente dos altos e baixos das emoções. Ademais, o ritmo foi interessante, entretanto, houve uma certa ‘lentidão’ entre o epílogo de Guerra Infinita com o início mesmo de Ultimato, especialmente no terço inicial.

De tudo isso escrito aí em cima, atenção especial à Capitã Marvel. Notadamente a Marvel precisa de uma personagem feminina forte para encarar os novos tempos. E não há demérito algum nisso. O problema reside na total falta de carisma desta personagem. A existência dela neste filme em particular, foi uma tremenda bola fora, ou melhor, o maior de todos Deus Ex-Machina. Precisam salvar Stark da morte certa no espaço? Coloquem ela para salvá-lo. Porque e como? PORQUE SIM e ponto. Enfim, há de ser utilizada de melhor forma, salvo grande possibilidade de transformar o discurso de inclusão feminina em um vazio comercial para atender nicho. Há exemplo da Mulher Maravilha, enquadrada de melhor forma na história, representando muito mais o poder feminino, sem apelações em demasia.

Pontos fortes? Apesar da previsibilidade de algumas mortes esperadas, o ‘carrossel’ de emoções foi grande. Tivemos as tradicionais piadas, entretanto, talvez pelo ‘filme-evento’ em si, não foi algo que incomodasse tanto como em outras oportunidades. Destaque para a ‘auto-crítica’ de sempre mostrar o belo corpo (ui) torneado do Thor e agora o mesmo estar barrigudo. Para quem não assistiu trailers ou leu a respeito antes, foi uma grata surpresa pelo inusitado, ainda mais com o histórico mencionado acima. 

As cenas ‘fanservice’ merecem ser comentadas e creio que o Majjim fez um trabalho melhor que o meu em sua resenha neste sentido. Não tecerei comentários sobre todas, como por exemplo, o Hulk inteligente mixado com o Banner. Entretanto, quando o Capitão América usa o Mjolnir para enfrentar o Thanos, o cinema foi abaixo. Analisando em perspectiva, era um movimento evidente que aconteceria, uma das ‘pontas soltas’ que precisava ser fechada. Ainda sim, destaca-se que, no contexto da história, mesmo para os mais críticos, o momento foi estrategicamente posicionado. 

E esse foi o grande achado da película: amarrar as pontas e referências nos principais filmes de toda a franquia. Desde a anciã conversando com Hulk sobre o uso da Joia do Tempo e como Strange seria o maior dos Magos, passando pelo ‘revival’ das cenas dos filmes anteriores associados a alguma Joia do Infinito com a volta dos Vingadores no tempo. Entretanto, três são épicas no contexto da mitologia criada. A primeira, óbvio, a do Capitão já mencionada anteriormente. Além de fanservice, ao usar o Mjolnir, respondeu a questão lá da Era de Ultron quando ‘quase’ conseguiu erguer. A segunda, foi após roubar as Jóias, Tony pinga mandar um ‘Eu sou o Homem de Ferro’ antes de estalar os dedos, fechando o ciclo iniciado por ele mesmo lá em 2008 com esta frase icônica por significar tanto para o ator pessoa física quanto para o personagem, sua afirmação como ‘herói’. A última, também com o Capitão, ao finalmente conceder a dança para sua amada. Um final digno e muito belo para a participação do herói, resolvendo o ciclo que também iniciou lá no modorreno Primeiro Vingador.

Sobre os atores e enredo, muitos personagens aparecendo e tendo seu ‘momento’ destaque. Ficando somente nos principais, Gavião e Viúva, tiveram a química de sempre e cumpriram bem o papel. Mark ‘Hulk’ Rufallo, cada vez mais confortável como o Verdão, mereceria uma filme só dele (coisa que sabemos não ocorrer tão cedo). Thor é o de sempre, favorecido pela ‘virada’ no personagem, especialmente na questão física. Poderia ser mais, mas pelo papel em si, não compromete. Evans… no início eu duvidei. Não é um ator estupendo, mas fez o Capitão América ideal. Difícil imaginar alguém que não ele como este personagem. Foi evoluindo junto com o próprio herói e chegou a um bom termo, onde consegui torcer por ele. Ingênuo e determinado, ele conseguiu passar o que o personagem precisa.

E Downey Jr. Em sua trajetória como pessoa, há muita semelhança com o próprio Tony Stark. Egocêntrico, um ator improvável para se tornar um personagem heroico. Mas ele foi lá e provou que ‘era o Homem de Ferro’. Depois houve altos e baixos, muitos baixos com seus exageros e quase mostrando que Tony Stark na verdade nunca foi um papel, senão a própria persona do ator. Entretanto, neste último, mostra sua verdadeira faceta de ator e nos brinda como uma das melhores atuações no personagem. Quase impossível não se emocionar com o seu Stark, atormentado pelo passado e temeroso por sua família. Sua cena final é mesmo de arrancar lágrimas. Ele realmente pode dizer: “EU SOU O HOMEM DE FERRO”.

Entre acertos e erros, uso excessivo de uma formula que pareceu já batida em momentos, a Marvel conseguiu encerrar de forma épica esta sua ‘megassaga’ nos cinemas. Durante anos, dificilmente conseguiremos assistir algo desta magnitude, impensável para velhos como eu, oriundos de infância na década de 80. Este Ultimato pode não ser o melhor filme da história do cinema, entretanto é um final digno de se aplaudir de pé por toda a trajetória até então traçada. Um filme-evento. Daqueles que daqui uns anos você poderá dizer com orgulho: assisti no cinema. 

E torçamos para que Mickey saiba o que fará a partir de agora….

Nota 10 pelo conjunto da obra.