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Sabe aquele momento em que você resolve revirar seus arquivos quadrinhísticos e desenterra um monte de absurdos que você não entende por que cargas d’água gastou seu rico dinheirinho nelas? E quem viveu a “maravilha editorial” que foi a indústria dos quadrinhos dos anos 90, sabe que encontrar material desse naipe não é tarefa difícil. Se você empilhar tudo que saiu naquela época e brincar de sorteio de cartinhas da Xuxa, a chance de merdas caírem em sua cabeça é de 99%! Pois é… eu fiz isso recentemente e topei com várias “pérolas” que fizeram meu coração sertanejo doer…

Uma delas em especial me faz verter uma lágrima de angustia até os dias de hoje, por ter me feito gastar ricos R$ 16,90, numa época em que isso era muito dinheiro (se bem que, pra mim, esse fato não mudou muito atualmente…)! Trata-se de Crimson: A Marca do Vampiro, escrito por Bryan Augustyn (Gotham City 1889) e desenhado pelo artista supremo do melhor Homem-Aranha de todos, toDOS, TODOS: Humberto Ramos! E, acreditem, esses dois estavam inspirados… NOT!

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A história começa com uma teoria até interessante sobre a origem dos vampiros: Antes de criar Adão e Eva, Deus criou os Grigori, a primeira leva do que viriam a ser os seres humanos. Esses, por sua vez, eram guardados pelos Chalkydris, poderosos dragões criados por Deus, que eram responsáveis pela segurança do mundo recém criado. Porém os Grigoris não tinham alma e, por isso, não adoravam a Deus e, por isso, caíram em desgraça. Deus, então, criou Adão e Eva e ficou satisfeito. Mas eis que havia Lisseth, a primeira mulher feita para o primeiro homem, mas, ao contrário de Eva, Lisseth não havia sido criada da mesma carne que Adão e, por isso , foi rejeitada. Tomada pela inveja, Lisseth esperou o momento de sua vingança. Aproveitando-se desses acontecimentos, Lúcifer se aproximou do agora desamparado povo Grigori para influenciá-los em prol de seus vindouros planos de revolta.

Lúcifer, então, lança sua investida contra os Céus e é derrotado e banido para as trevas. Mesmo assim ele não desiste e lança sua semente da discórdia entre os Grigoris que entram em guerra com os Chalkydri. Ambos os lados tem baixas numerosas. Ao ver todo o caos instaurado por Lúcifer, Deus ordena que as guerras cessem e assim acontece. Percebendo que os Grigoris haviam sido manipulados pela ganância de Lúcifer, Deus poupa os sobreviventes. Ele, então, permite que Adão e Eva deixem o Édem e busquem novos caminhos pela Terra. O Édem, por sua vez, é transformado em um deserto que tem como o centro a Árvore da Vida, a qual existe para manter o equilíbrio entre o bem e o mal. Os Grigoris e os Chalkydris são forçados a viverem presos nesse deserto até o dia em que se redimirem diante de Deus. Mas um dos Grigoris consegue escapar e passa a vagar pelo mundo, assim como Lisseth. E do ressentimento de ambos e de sua conjunção carnal, nasceriam as criaturas que dominariam as noites. Não… não são os travestis da Augusta…

Essa breve introdução, em tom de filme bíblico do Michael Bay, é contada em cinco miseras páginas. Cinco páginas que servem como prólogo para tempestade de merda que está por vir…

Em seguida somos jogados de venta na história principal que começa com quatro adolescentes voltando de uma festa e discutindo o por que de um deles estar tendo uma crise emo, cheia de conflitos gays da puberdade e tentando entender por que o mundo é injusto, por que os pais não o entendem e por que está crescendo pelos em lugares engraçados de seu corpo juvenil. E este é Alex Elder, a bichinha mirim que será nosso protagonista.

Em meio aos conselhos de seus amigos que tentam convencê-lo que o negócio é comer c# e B#$&T@, uma gangue de motoqueiros, que mais parece uma cruza do fã clube da Madonna com o do The Black Eyed Peas, para em frente ao carro dos moleques e a líder deles larga a frase nada clichê: “Vejam, Morcegos! Achamos nosso jantar”!  Morcegos…? Esse troço só melhora…

Os Morcegos Sem Lei! E sem bom gosto...
Os Morcegos Sem Lei! E sem bom gosto…

Tomados pelo pânico de verem uma gangue de motociclistas tão mal trajada, o moleque que dirige o carro esquece que existe marcha ré e manda todo mundo sabiamente sair do veículo e correr pro meio do nada! Óbviamente eles não vão muito longe e Alex vê seus amikinhus sendo desmembrados e devorados um a um, enquanto corre feito sacoleiro quando foge do rapa. Porém nem mesmo seu momento Papa-Léguas o salvou da fúria da líder dos Morcegos Sem Lei (hein…?), a terrível Rose Fantoche (HEIN???), que o alcança com facilidade e crava-lhe os caninos na jugular!

Tá em preto e branco mas eu JURO que a imagem é colorida na HQ...
Tá em preto e branco, mas eu JURO que a imagem é colorida na HQ…
Não falei?
Não falei?

Quando já estava sem esperanças de viver o bastante para ver o próximo CD da Restart, Alex é salvo por um ser misterioso vestindo um manto negro que aparece flutuando. A tal figura parece meter medo nos Morcegos Sem Lei (puta que me pariu… que nome…), que fogem dizendo não querer treta com o Walter Mercado das trevas. A figureta flutuante pega Alex nos braços e diz que vai levá-lo para um local seguro, mesmo achando que pode ser tarde demais…

Depois disso temos um flashback que mostra o que aconteceu antes de Alex sair naquela noite e é nesse momento que temos um exemplo fenomenal das incríveis capacidades narrativas de Humberto Ramos! Além de desenhar tomo mundo com elefantíase nas pernas, tireoide nível 100 e água na cabeça, ele desenha Alex pedindo aos pais para ir a uma festa com a cara de quem acabou de levar uma dedada com a unha quadrada e quer matar o responsável! Sério! Chega-se a concluir que além de emo, a porra desse moleque é um bipolar do caralho!

Depois de vermos o ataque de pelanca de Alex, porque seus pais não o deixaram brincar no play, e depois de vermos ele dar um chega pra lá em sua namorada, Julie, por estar “raivosa” com a vida injusta, voltamos para o presente onde Alex acorda completamente nu em uma igreja abandonada e cercado por pombos mortos a mordidas (cof,cof… ENTREVISTA COM O VAMPIRO… cof,cof…). Sem entender que merda está acontecendo e preocupado se alguém lhe comeu o rabo enquanto estava inconsciente, Alex é logo posto a par da situação pelo seu salvador do incidente anterior. Ele se revela como sendo Ekimus (ééé… aquele maluco láááá do começo das tretas!) e diz que sua missão agora é proteger Alex e que ele agora não é apenas um vampiro e, sim, o escolhido (que original…). Sem acreditar nesse troço todo, Alex tenta fugir, mas, quando abre a porta, é chamuscado pelos raios de sol. Ekimus diz que não há escapatória para o destino que o aguarda. Alex tem mais um ataque de pelanca e acaba levando uma biaba na fuça de Ekimus que manda ele parar de ser fresco. Revoltadinho, Alex acha uma roupa de coroinha e sai correndo feito uma bicha louca cidade a fora numa cena ridícula de doer! Mas… paraí… não tava sol lá fora…?! Êêêêê, Brian Augustyn…

Alex é um emo do cacete...
Alex é um emo do cacete…

Correndo ao entardecer pelo Central Park, Alex encontra um vampiro Mexicano tatuado, com o rosto pintado e meio malucão, no melhor estilo John Leguizamo, chamado Joe. Joe o explica que Alex tem que tomar sangue de um jeito ou de outro ou vai entrar em um frenesi maluco e atacar quem estiver na frente. Joe apresenta uma alternativa para que Alex não se sinta tão mal: Atacar bandidos! Joe faz uma pequena demonstração atacando dois traficantes que caminhavam pelo Central Park. Após quase ceder aos seus instintos, esta bicha afrescalhada que é Alex Elder corre feito uma louca sem rumo mais uma vez! No meio do caminho encontra um cartaz de procura-se e lembra-se de sua família. Ao chegar em sua casa as escondidas, Alex vai até o quarto da sua irmãzinha pequena que dorme e, subitamente, ele é acometido pelo tal frenesi que Joe o alertara. Percebendo que é um perigo para sua família, Alex decide se afastar em definitivo.

Alex decide deixar de frescura e aceita o treinamento de Ekimus e é aí que descobrimos que vampiros, além de poder voar, podem produzir fogo! Ótimo… grandes isqueiros chupadores de sangue… é disso que o mundo precisa…

Após falhar miseravelmente no seu primeiro dia de treinamento, Alex sai pra gandaia com Joe, que lhe dá uma roupa de tiras de couro (hmmmm… boiola). No meio da “night”, enquanto tenta comer um hamburguer sem sentir gosto de nada, Alex reencontra a gangue dos Morcegos Sem Lei e resolve que é hora de ir a desforra. Ele os segue e entra em confronto com a vampiraiada  e… quase morre DE NOVO! Que inútil do caralho…

Dessa vez Alex é salvo por Joe e ambos ralam peito pro muquifo de Ekimus. Depois de uma breve discussão entre Ekimus e Joe por divergências de estilo de vida, Joe rala peito e Alex traça um paralelo entre o vampiro maluco e sua familia, dizendo que não quer mais perder ninguém e aí o roteiro vai na direção mais óbvia: Vamos matar a namoradinha desse viadinho!

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Alex, Ekimus e Joe: Os Hanson das trevas!

Por uma armadilha do destino, os Morcegos Sem Lei descobrem que Julie era a namorada de Alex e transformam a minazinha em mingau, deixando um recado para Alex com o sangue dela escrito “Segundo Assalto”. Joe é o primeiro a descobrir o assassinato da garota e avisa a Alex, que sai virado num saco de batata pra cima dos Morcegos Sem Lei, que observavam ali perto. Durante sua fúria, Alex descobre que pode controlar a água, coisa que, segundo Joe, nenhum vampiro pode fazer! Essa porra já virou Avatar agora…?!

Depois de uma breve troca de tapas, Alex com a ajuda de Joe e quase nenhuma de Ekimus, derrota os Morcegos Sem Lei e acaba por arrancar o coração da Rose Fantoche e queimá-lo! Depois eles comemoram, Alex aceita seu destino como o escolhido e essa merda chega ao fim!

Adeus, Miley Cyrus do sétimo círculo!
Adeus, Miley Cyrus do sétimo círculo!

Lançado em 1998 pela Cliffhanger, sub-selo da DC Comics, Crimson: A Marca do Vampiro chegou ao Brasil em 2002 pela Pandora Books. Eu, um juvenil serelepe e feliz na época, era um viciado em animação japonesa e vivia assistindo Yu Yu Hakusho e Us Mangá nas Manchetes da vida. Naquela época não se havia mangás originais nas bancas, só algumas coisas com a estética, mas produzidos no Brasil, como Holly Avenger e o Megaman brazucão, título no qual o senhor Daniel HDR já passou a caneta duas vezes. E houve o surgimento do Joe Madureira no mercado de Comics e eu fiquei maluco com aquilo! X-Men e Homem-Aranha estilo Made in Japan?! Meus olhinhos de nerd juvenil punheteiro estavam maravilhados! Em seguida eu conheci o traço do Humberto Ramos em uma edição especial dos Melhores do Mundo, numa história onde Robin, Superboy e Kid Flash tinham que resolver o mistério do sumiço dos adultos do mundo todo. Fiquei maravilhado de novo! Foi aí que vi Crimson nas bancas, sendo ignorado por todos e pensei: por que comprá-la, por que não comprá-la, por que comprá-la… compreia-a-a! E anos depois eu me pergunto… MAS QUE PORRA EU TINHA NA CABEÇA?!!!

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Dezessete contos num show de horrores impresso! Puta merda! Se eu tivesse um Delorean voltaria no tempo e me daria uma surra! E o pior é que nessa mesma época a Abril estava relançando coisas como Batman: Ano Um e  O Cavaleiro das trevas a preço de banana! Por sorte ainda comprei Batman: Ano Um, mesmo sem saber do que se tratava. Sério! Por anos eu fiquei esperando a segunda edição com a aparição do Coringa! Eu era um cabaço de merda no mundo das HQs…

Os desenhos do senhor Humberto Ramos dispensam apresentações! Todos aqui acompanhamos ávidos suas histórias ao lado do genial Dan Slot Quer Chocolate, e sabemos de seu talento incomensurável e de sua genial contribuição para a evolução da narrativa visual impressa enquanto arte! Já Brian Augustyn, não me soa um nome familiar… eu posso já ter lido algo desse indivíduo, mas parece que seus maiores trabalhos foram pela DC, o que explica meu estranhamento, já que sou uns 90% Marveco seboso. Ademais, o que esse desgraçado achou de clichê e de pieguice pelo caminho, ele jogou nesse troço! E parece que lá fora essa porqueira fez sucesso! O que não é surpresa nenhuma, já que o Homem-Aranha é um dos títulos mais vendidos atualmente ! Pelo visto, bom GOSTO e bom SENSO são coisas de terceiro mundo pra eles…

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O engraçado é ver a empolgação da Pandora Books anunciando a continuação da “saga”, no fim da edição, com Crimson II: Filhos de Judas. Porém, o Senhor é piedoso e não permitiu que essa barbárie continuasse!  E o negócio passou tão despercebido que, se você procurar por este troço no Google, vai encontrar 97% de anúncios no Mercado Livre! E só uma notícia em um “certo site a base de ovos”…

Mas, pra não dizer que não falei de flores, existe uma coisa boa na edição: uma propaganda em prol da doação de sangue na última página, empreendida pelo governo de São Paulo! Muito legal a iniciativa!

Enfim crianças, está é uma das minhas vergonhas, mas tenho muitas outras. Se você tem algo assim e precisar expulsar esse peso de seu peito, divida conosco nos comentários! E sinta-se abraçado pois, acredite… eu sinto a sua dor…

E, pra terminar, uma rápida regra 13 das trevas!

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