Eu PROMETO que não vou citar O Cavaleiro das Trevas!

A quarentena afetou todos, ainda que muitos realmente não tenham sido obrigados a ficar em casa: a redução considerável de toda a atividade econômica fez com que mesmo aqueles que permaneceram trabalhando – por força de suas obrigações – acabassem tendo mais tempo livre, nem que seja por não terem precisado desperdiçar tempo saindo de seus lares para ir trabalhar.

Com o tempo livre, acho que a maioria dos nerds resolveu avançar nas suas pilhas de leitura, colocar suas séries preferidas em dia e, claro, aproveitar para reler aqueles quadrinhos que o corre-corre do dia-a-dia obrigam a sempre ficar pra depois. 

Curioso sobre o que os amigos Enxutos revisitaram em matéria de hqs nestes dias cinzentos, eu puxo o assunto, entregando aqui a minha lista de preferidos neste quesito.

05. PREACHER, de Garth Ennis (roteiro) e Steve Dillon (arte).

Uma hq tão boa que rapidamente tira da alma o gosto amargo que a péssima série de TV deixou depois de quase duas temporadas (juro que não consigo terminar a segunda, por mais que tente: não desisti porque o Majjin me garante que fica boa à partir da terceira!!!). Aproveitando uma ideia que utilizou em sua passagem pelo título Hellblazer, Ennis tece uma trama onde os elementos grandiosos não ofuscam os pequenos dramas dos seres humanos (ou não tão humanos), como o valor de uma amizade, o amor por uma garota e o compromisso com as  promessas feitas aos seus pais.

Publicada originalmente pelo selo Vertigo da DC Comics entre 1995 e 2000, dificilmente encontraria abrigo numa grande editora nos dias de hoje, por seu conteúdo recheado de humor negro, violência gráfica e diálogos com referências pouco elogiosas a temas caros para alguns, como religião, política, Vietnam, questão racial, identidade sexual, feminismo e por aí vai… Todas as 66 edições (e os seis trabalhos relacionados, cinco especiais e uma mini de quatro números, que conta a origem do Santo dos Assassinos) foram publicadas no Brasil pela Panini em nove encadernados de luxo, que podem ser encontrados em alguns sites, com preços convidativos. 

04. OS SUPREMOS, Volumes 1 e 2, de Mark Millar (roteiro) e Bryan Hitch (lápis).

A quadrilogia dos Vingadores no cinema deixa de parecer tão legal quando você vê o material que Millar e Hitch entregaram para a Marvel publicar entre 2002 e 2007. Personagens há muito sem sal na continuidade normal (ou o Universo 616) ganharam novamente destaque nesta versão. É sério: ponto a ponto, Os Supremos vence sua versão live action com folga. No primeiro volume (ou temporada) temos a formação de uma equipe de super-heróis para agir no mundo como uma espécie de polícia de elite, comandada por um Capitão América recém descongelado e que tem dificuldades para aceitar um mundo onde a maior parte das coisas que conhecia e prezava não existe mais, culminando com a ameaça ao planeta relacionada a um antigo inimigo de Steve Rogers. E no volume 2, claro, temos a reação do resto do mundo a esta “polícia”, que é predominantemente norte-americana, com uma traição que deixou mais de um fã transtornado.

Bryan se esmera, com farto uso de referências fotográficas, para trazer um clima realmente de Hollywood para os quadrinhos. E Millar entrega, a despeito de Guerra Civil (2006-2007) ter feito mais sucesso, seu melhor trabalho com os personagens da Casa das Ideias! A Panini lançou por aqui, em dois encadernados de luxo que já ganharam republicação ao longo dos anos.

03. O LONGO DIA DAS BRUXAS, de Jeph Loeb (roteiro) e Tim Sale (arte).

Para provar mais uma vez que os anos 90 não foram tão ruins, aquela que é a autêntica sequência de Ano Um (de Frank Miller e David Mazzuchelli) traz um sem número de personagens para ajudar a contar o que, no fim das contas, é a origem do Duas-Caras. O trabalho da dupla de criadores é tão bem coordenado que a presença de personagens fantasiados em momento algum permite que o leitor se livre da sensação de estar diante de uma história de gângster “séria”. Não por acaso, influenciou o filme O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008) – ei, eu disse que não iria citar a hq do Miller! – e consta que será a a base do novo filme do Vigilante de Gotham, do diretor Matt Reeves.

Esta hq, com os mesmos autores, tem uma continuação – Vitória Sombria – e um spin-off com a Mulher-Gato: Cidade Eterna. Ambos são legais, mas desnecessários. 

Há uma séries de publicações desta série, tanto da Abril e da Panini como da Eaglemoss. Foi relançada recentemente em uma versão em preto e branco, mas eu aconselharia aos Enxutos que não abrissem mão do trabalho fantástico de Gregory Wright

 

02. REINO DO AMANHÃ, de Mark Waid (roteiro) e Alex Ross (arte).

Parece estranho que os malfadados anos 90 tenham trazido uma hq tão genial quanto esta, mas Reino do Amanhã é, em vários aspectos, a resposta de dois artistas apaixonados pelos personagens clássicos da DC ao que se convencionou chamar de Era Image, com seus personagens violentos e carentes de profundidade. Publicada originalmente entre maio e agosto de 1996, Reino do Amanhã usou uma versão do futuro do Universo DC para mostrar que é a falta de talento, e não o tempo, que destrói a reputação de alguns personagens. E se você for ligado no Universo DC, em particular, e na cultura pop dos anos 1960-1990, em geral, poderá se divertir identificando um sem número de referências que o ilustrador Alex Ross espalhou ao longo das páginas. 

É bom dizer que tanto a Editora Abril como a Panini sempre trataram bem esta obra. Mas não há como deixar de indicar preferência à Edição Definitiva, por ter um formato maior. Mas saliento que a primeira publicação da editora italiana por aqui, com capa cartão e tamanho padrão, tem o mesmo conteúdo da Definitiva (inclusive extras, páginas inéditas e o epílogo que não constava nas edições originais). Ambas as versões e até as da Abril não são difíceis de encontrar em sebos virtuais, a preços… acessíveis. 

01. DEMOLIDOR, por Frank Miller (roteiro e lápis) e Klaus Janson (arte-final).

 

Um personagem sem apelo, uma revista à beira do cancelamento e um artista novato, tentando mostrar o seu valor. Podemos dizer que o Demolidor e sua revista solo pareciam estar esperando a chegada do jovem Frank Miller. Tanto que o desenhista inexperiente teve a sorte de encontrar Roger McKenzie (um competente roteirista, ainda que não fosse brilhante) e, principalmente, o arte-finalista Klaus Janson, que tinha o toque de ser fã do personagem e abraçou as ideias de Miller, ao ponto de ter influenciado enormemente o traço deste no futuro. 

Com a saída de McKenzie, Miller e Janson ficaram livres para ousar. Criaram de cara uma personagem icônica – Elektra, a ex-namorada de Matt Murdock que virou uma assassina profissional – e desenvolveram duas tramas paralelas dignas de nota máxima: de um lado, o combate que o Diabo da Cozinha do Inferno dá ao crime organizado, personificado na figura de Wilson Fisk, o Rei do Crime; do outro, o envolvimento de Matt e sua ex-namorada com o eterno combate entre o Tentáculo, que treinou Elektra, e os Virtuosos, comandados por Stick, o homem que ajudou o herói a “enxergar” com seus novos sentidos. No meio disso, ainda transformaram a rivalidade entre o Demolidor e o Mercenário em uma das maiores das histórias em quadrinhos, com direito a dois dos momentos mais dramáticos que eu já vi em uma revista colorida!

Apesar de a maioria dos fãs considerar A Queda de Murdock (que contou com o traço de Mazzuchelli) o auge do trabalho de Miller com o Demolidor, as sementes foram plantadas aqui, principalmente a rivalidade com o Rei. Só por isso, já valeria a leitura. Claro que é preciso analisar as histórias com o espírito da época e deixar de lado algumas coisas estranhas, como o vigilante ir ao hospital e ficar de máscara o tempo todo. Também há alguns problemas com o traço, mas isto por Miller, com prazos apertados, em alguns momentos entregar para Janson meros layouts

Demolidor de Frank Miller – ao lado dos X-Men de Chris Claremont e John Byrne, marcaram uma época nas publicações nacionais, sendo os títulos de destaque no mix da legendária Superaventuras Marvel (ou SAM, para os mais velhos). A Panini já republicou esta fase duas, vezes, sendo uma em quatro encadernados em capa cartão e outra, recente, em três encadernados de luxo. Lembrando que apenas estes últimos contém a fase em que Roger McKenzie escrevia. Infelizmente, desta vez, devo dizer que não encontrei nenhuma das edições citadas a preços acessíveis para a maioria. 

Bom, é isso. Não citei algumas pra não chover no molhado (Watchmen) e outras para não precisar estender o post (Elektra Assassina). Mas e vocês? O que releram de legal nesses dias?