Resenha Enxuta: Guerra das Rosas, de Conn Iggulden

Resenha Enxuta: Guerra das Rosas, de Conn Iggulden

Ou “Como é difícil quando um personagem antipático se torna o centro da história”.

Começo falando de As Crônicas de Gelo e Fogo (Game of Thrones é apenas o título do primeiro livro e de uma série de TV muito superestimada): como qualquer outro que leu os livros até aqui, eu sinto não ter ainda em mãos o desfecho dos acontecimentos, por conta da demora do autor George R. R. Martin de pôr um término ao seu épico. Nada mais natural, portanto, que eu procurasse alguma coisa que servisse de paliativo para a minha ansiedade. Também foi normal que buscasse alguma coisa ligada à Guerra das Rosas, conflito que inspirou inicialmente a história de Martin. 

Guerra das Rosas – ou Guerra das Duas Rosas – foi uma longa (1455 a 1485) disputa pelo trono inglês, que colocou em lados opostos as casas Lancaster e York, e seus aliados de momento. O esgotamento inglês ao fim da Guerra dos Cem Anos, aliado ao poder ter chegado ás mãos de um homem fraco (Henrique VI, da casa Lancaster), fez com que Ricardo Plantageneta, duque de York, pretendesse o trono. Ele e seu principal aliado, Ricardo Neville, conde de Salisbury, foram executados na Batalha de Wakefield, no fim de 1460. Mas seus herdeiros assumiram o comando e já no ano seguinte o filho de York, Eduardo Plantageneta, conde de March, se tornou o rei Eduardo IV. Em 1467, o rei rompeu com seu principal aliado, Ricardo Neville, conde de Warwick, que chegou a aprisionar Eduardo e depois o soltou, partindo posteriormente para o exílio na França, onde se aliou a Margarida de Anjou, esposa de Henrique VI. Em 1470, Warwick devolveu este ao trono (quando ganhou a alcunha de Fazedor de Reis), mas depois é derrotado e morto pelas forças de Eduardo IV na batalha de Barnet, em 1471.Posteriormente, o exército yorkista também venceu e matou Eduardo de Westminster, príncipe de Gales e herdeiro de Henrique VI. Sem seu antigo aliado e depois maior inimigo, principalmente por conta de sua vasta fortuna, Eduardo IV manda Margarida para o exílio e providencia também o assassinato de Henrique VI, a fim de terminar com contestações ao seu direito de reinar. Mas ele morreu repentinamente em 1483 e seu irmão, Ricardo de Gloucester, depôs o próprio sobrinho e assumiu o trono, com o nome de Ricardo III. Em 1485, Henrique Tudor, com ascendência entre os Lancaster, desembarcou na Inglaterra com o apoio de uma tropa francesa e derrotou Ricardo III  (que supostamente teria mandado assassinar os dois sobrinhos, filhos de Eduardo IV, para evitar contestações ao seu direito ao trono) na batalha de Bosworth Field, e ascendeu ao trono, com o nome de Henrique VII, pondo fim ao longo conflito.

Depois de um pouco de pesquisa, descobri uma série de livros que tratava o tema de forma romanceada. Mesmo sabendo que apenas três dos quatro volumes (naquele tempo) tinham sido lançados no Brasil, eu os adquiri. Obviamente depois me senti um palerma por, mais uma vez, ter que aguardar para poder ver o fim. Menos mal que a espera não foi demorada, já que o último volume já tinha sido publicado lá fora, sendo apenas uma questão de tempo para que a versão traduzida fosse lançada por aqui.

Conn Iggulden, de cinquenta anos, é londrino e formado em inglês. Além de Guerra das Rosas (em quatro volumes), também é famoso pelas séries literárias O Imperador (sobre Júlio César, em cinco volumes) e O Conquistador (sobre o mongol Gêngis Khan, também em cinco volumes).

Publicada originalmente entre 2013 e 2016, Guerra das Rosas é composta de quatro volumes: Pássaro da Tempestade, Trindade, Herança de Sangue e Ravenspur. Os dois primeiros volumes fluem muito bem, com o autor fazendo algumas jogadas interessantes, ente elas colocar um personagem fictício no centro dos acontecimentos. Derry Brewer é uma espécie de chefe do serviço secreto do rei Henrique VI. Espirituoso, o agente leva sua fidelidade à Casa Lancaster ao ponto de executar mesmo ordens temerárias (como negociar a devolução de terras conquistadas dos franceses, provocando a ira dos colonos ingleses) e colecionar inimigos poderosos, principalmente Ricardo Plantageneta, duque de York e pretendente ao trono.

“Acho que não há ouro suficiente no mundo para impedir a guerra agora. Rezarei pela paz, Maud, mas existem épocas em que há bolhas que precisam ser perfuradas, quando a imundície tem de ser extraída para limpar o ferimento.”

 

A comparação entre o rei e seu inimigo merece destaque. Henrique VI é fraco, tanto no aspecto físico como psicológico. Entre seus súditos, desperta mais piedade do que admiração. Já Ricardo Plantageneta é inteligente, ambicioso, rico e demonstra força. Apesar de em suas primeiras aparições parecer o vilão clássico, sem moral e debochado, aos poucos aflora um lado humano seu, evidenciado quando não consegue executar o rei, o que poderia ter consolidado a sua tomada do poder.

“Enquanto falava, alguém saiu pela porta e a rua foi tomada pelo silêncio. A armadura de Somerset estava rubra de sangue, que escorria abundantemente pelas superfícies untadas, pingando enquanto ele permanecia ali, em pé na soleira. Ofegava, mas ao ver Salisbury, ergueu o machado com ambas as mãos, seus olhos ganhando vida. Não havia sinal dos que entraram para matá-lo nem de nenhum dos seus guardas. Somerset estava sozinho.”

Sem pressa e com algumas liberdades narrativas, alterando datas e invertendo acontecimentos, Conn Iggulden vai mostrando como as rivalidades locais, entre famílias nobres (principalmente os Neville e os Percy) influíram decisivamente no início da luta, por patriarcas verem ali uma forma de destruir seus adversários. Um considerável espaço é tomado para mostrar a situação caótica em que se encontrava o reino, muito por conta das perdas frente aos franceses, com o autor dedicando um bom número de páginas a personagens do povo, diretamente desinteressados da luta pelo poder, mas com ambições pessoais que podem ser saciadas (ou frustradas) se aproveitando da instabilidade, através de revoltas populares. 

“Nós três somos Neville – declarou Salisbury com orgulho. – Alguns ainda não aprenderam o que é ofender esse nome, mas aprenderão, prometo a vocês dois. Aprenderão, mesmo que o rei Henrique fique no caminho.”

Outros personagens chamam a atenção, como o conde de Salisbury, líder dos Neville, que manipula o duque de York, levando-o a uma situação irreversível contra o rei. Margarida de Anjou, a francesa que desposa Henrique VI e, diante da inapetência do marido, termina por assumir a defesa do trono, sendo, assim como vários outros personagens, corajosa e incrivelmente inábil. Aliás, a dificuldade de antecipar a consequência de suas ações e, em várias ocasiões, agir como um escravo de suas emoções são aspectos que humanizam personagens e convencem ao leitor que se pergunta como um conflito interno tão devastador pôde se arrastar por tanto tempo.

“Por algum tempo, haverá dois reis da Inglaterra – tinha dito Warwick na estrada escura. – Como rei Eduardo, você conseguirá os homens de que precisamos. Cavaleiros e lordes virão correndo para junto de um rei Plantageneta, com seus homens de armas. Não importa o que mais aconteça, você não deve sair de Londres sem uma coroa na cabeça. Com ela, você verdadeiramente passará a reinar. Sem ela, Eduardo, sua vingança e sua ambição serão pisoteadas com seus estandartes. Você precisa falar em voz alta e fazer com que seja verdade. Ou permanecer calado por falta de ousadia.”

E é um ato deste tipo de Margarida de Anjou que traz a substituição de inimigos: saem o duque de York e o conde de Salisbury, e entram em cena os seus filhos, principalmente Eduardo Plantageneta (que viria a ser o rei Eduardo IV) e Ricardo Neville, conde de Warwick, o “fazedor de reis”.

E foi aí, realmente, que as coisas desandaram um pouco para mim.

Todo mundo que curte uma história se envolve de alguma forma com a mesma. Uma das formas mais comuns é o envolvimento passional com alguns personagens. Minha mãe tem uma amiga, por exemplo, que até hoje detesta a atriz Glória Pires por conta do papel de Raquel, a gêmea malvada de Ruth, ambas interpretadas por ela no remake da novela Mulheres de Areia, que foi ao ar em 1993. De lá pra cá, acreditem, ela nunca mais assistiu outra novela, série ou filme com a atriz. Por outro lado, eu tenho um afilhado que gosta tantos dos filmes do John Wick que assiste (e, invariavelmente, curte) qualquer produção que tenha o Keanu Reeves, intérprete do personagem. 

“Agora o senhor tem a oportunidade que a maioria dos homens jamais tem: desfazer parte do mal que causou. Só espero que a agarre pelo pescoço quando ela aparecer. Deus sabe que não haverá outra.”

Aconteceu comigo algo parecido: desde as primeiras aparições, eu DETESTEI o personagem Eduardo Plantageneta. E isso tornou-se um problema porque minha aversão ao personagem terminou sendo diretamente proporcional à adoração do autor pelo mesmo. Eduardo salta do nada para o centro dos acontecimentos. Sempre que surge, se comporta quase como uma força da natureza. Sua estatura formidável e sua habilidade no uso da espada longa e do machado de batalha, além de sua agressividade nos atos e na fala, parecem ser suas credenciais únicas, porém suficientes para que Iggulden lhe dê todo o brilho. Com isso, outros personagens que vinham sendo bem trabalhados vão sendo deixados de lado e terminam por sumir depois de um tempo. Alguns morrem sem destaque ou mesmo alguns pequenos detalhes.

Um jovem soldado de grande estatura levanta-se contra o rei por questões pessoais, auxiliado por um amigo mais experiente, inteligente e com melhores contatos, que também está no barco por questões pessoais. Mesmo assim, é o gigante,  um grande guerreiro, mas não um grande líder militar, taticamente falando, que se toma pra si a coroa, pois possui “melhor pretensão”. Casa-se com uma mulher que passa a defender os interesses da própria família, fazendo com que o novo monarca deixe de lado seu antigo (e poderoso) aliado e fique cada vez mais nas mãos da família da mulher. Este rei perde aos poucos sua boa aparência e seu ar imponente por conta de seus exageros culinários e etílicos. Por fim, sua morte repentina mergulha o reino em um novo conflito, com outros pretendentes ao trono. Eduardo IV? Sim, mas também podem lembrar, com razão, de Robert Baratheon, de As Crônicas de Gelo e Fogo e Game of Thrones.

Dois pequenos exemplos de como Eduardo dominou a mente do autor. O quarto livro se chama Ravenspur, que é o porto onde Eduardo IV desembarcou para retomar o poder, algo que não deveria se sobrepor, por exemplo, à traição de Ricardo de Gloucester à memória do irmão ou à ascensão dos Tudor. Outro ponto é que, após a morte do rei querido do escritor, a história acelera muito e se encerra em pouco mais de cem páginas. Além disso, em duas das Notas Históricas (que acompanham o fim de todo volume), Iggulden se derrama sobre a capacidade guerreira de Eduardo IV, segundo ele “simplesmente um dos maiores reis guerreiros da história inglesa”.

“No segundo dia eles queimaram um velho vivo dentro de casa. O velho diabo magricela aparecera quando eles passaram, erguendo o punho em riste e xingando Eduardo de traidor yorkista. Rivers havia fechado e pregado a sua porta, e eles esperaram o velho tentar abri-la mais uma vez. A maçaneta sequer balançara conforme o fogo se espalhava. O ancião ficara sentado lá dentro, sem dar um único grito até a a fumaça e o calor o consumirem”

Eu acho um grande exagero tanta dedicação, pelo que li nos livros da série. Mesmo reconhecendo a coragem e a habilidade militar individual de Eduardo, ele deixa a desejar como líder tático e político. Suas vitórias parecem sempre se dever a fatores que vão além das armas. Há fenômenos naturais inexplicáveis que lhe dão vantagens inesperadas. Há traições às hostes Lancaster (que, diga-se de passagem, são costuradas por outros que não o rei yorkista). E há falhas e hesitações de seus próprios inimigos. E, em batalha, Eduardo limita-se quase sempre a comandar pelo exemplo, pela audácia e pela ascendência que qualquer guerreiro de destaque obtém sobre os outros soldados. Planos de ataque e defesa não são, nem de longe, seu forte. 

“por algum tempo, pensara em pedir outro filho a ana, mas soube então que ela não viveria o suficiente para tê-lo. ricardo ficaria sozinho. seus irmãos já tinham partido. ele ficaria sem esposa, sem filhos nem filhas. não teria ninguém, com todos os anos vazios de seu reinado se estendendo adiante.”

Como administrador, Eduardo IV não se compara, por exemplo, ao pai. Ele nunca teria a coroa se não fosse Warwick e seus irmãos, os verdadeiros autores políticos, intelectuais e até religiosos de toda a trama que o levou ao poder. E essas pessoas são deixadas de lado em benefício da família da esposa, com sede insaciável por títulos, terras e fortuna. Seu governo é tão pouco atraente que, quando da retomada do poder, Iggulden salta para a morte dele, sem praticamente dar nenhum destaque a nada que ocorreu em onze anos.

Livre de Eduardo, senti que mais uma vez a história ganhava meu apreço, mas aí o ritmo vertiginoso cobrou seu preço. Mesmo Ricardo de Gloucester (depois Ricardo III) sendo um personagem muito mais interessante do que o irmão, padece da pressa com que sua história é contada e pelo pouco esforço de Iggulden em construir de forma satisfatória para o leitor a personalidade de Henrique Tudor, o filho de uma Lancaster que venceu o usurpador e casou com uma das filhas de Eduardo IV, trazendo a paz tão esperada para um reino cansado. 

De toda forma, recomendo a leitura, pois nestas questões de simpatia ou antipatia nunca haverá consenso. O final apressado (insisto: Ricardo III merecia bem mais) deixa a desejar, mas a jornada até ali é bem interessante. Cuidado apenas com os nome dos personagens. Como deu pra perceber um pouco por aqui, há vários com o mesmo primeiro nome e alguns que dividem também o segundo (como os condes de Salisbury e de Warwick, pai e filho, ambos Ricardo Neville). Há mais de uma Margarida, mais de uma Elizabeth, mais de um Henrique, bem mais de um Eduardo e muito mais de um Ricardo ao longo dos quatro livros. A questão do títulos não ajuda em nada também: quando lemos duque de Buckingham, não sabemos se este é filho, neto, sobrinho ou primo do homem que detinha o mesmo título no começo da história. É fácil, num momento de desconcentração ou se ficar algum tempo com a leitura pausada, não saber mais sobre as ações de qual figura exatamente você está lendo. E olha que todos os volumes trazem uma lista de personagens (infelizmente um pouco complicada de consultar, por não estar em ordem alfabética).

Guerra das Rosas: Pássaro da Tempestade. 406 páginas. R$ 59,90. Guerra das Rosas: Trindade. 420 páginas. R$ 59,90. Guerra das Rosas: Herança de Sangue. 420 páginas. R$ 59,90. Guerra das Rosas: Ravenspur. De Conn Iggulden. 476 páginas. R$ 69,99. Todos os livros de Conn Iggulden, lançados no Brasil pela Editora Record. Os preços são sem desconto.

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JJota

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