A carga bem se leva, a sobrecarga causa a Queda de Gondolin

Salve, salve cambada de Enxutos e Enxutetes tolkienzetes. Sem preocupações com a audiência, tendo em vista a pouca visibilidade deste tema em terras enxutas, venho por meio desta trazer as minhas impressões sobre mais um texto post-mortem de J.R.R editado por seu rebento Christopher Tolkien: A Queda de Gondolin. Sigam-me os bons…

Mais uma vez uma sinopse chupinhada de qualquer lugar da Grande Rede ao qual não faço questão de dar créditos:

O último dos três Grandes Contos Perdidos do legendário de J.R.R.Tolkien narra a jornada de Tuor rumo à cidade secreta de Gondolin, refúgio élfico do povo do Rei Turgon. Contra a bela cidade, levanta-se Morgoth, o Inimigo Sombrio, com seu exército de seres malévolos. A história da Queda de Gondolin começou a ser escrita em 1916 e agora ganha vida graças ao trabalho editorial de Christopher Tolkien, filho e executor legal das obras de Tolkien. Dessa forma cumprem-se duas sinas: a dos Elfos noldorin na Primeira Era do mundo e a do autor, ao conseguir publicar individualmente os três Grandes Contos dos Dias Antigos Fechando a mitologia da Terra-média, a Queda de Gondolin, assim como Beren e Lúthien e Os Filhos de Húrin, foi ricamente ilustrada pelo renomado artista britânico Alan Lee, que retrata a fantasia de Tolkien há mais de 30 anos.

Vamos as impressões. Para começo de conversa, não é um livro para aqueles desavisados. No mínimo, o leitor desta obra precisa ter passado os olhos n`O Silmarillion que, por uma obra do destino, ainda não fiz resenha apesar de anualmente lê-lo (sim, sou um tolkienzete com aquilo roxo). A necessidade desta leitura prévia tem como justificativa o fato de que o texto isolado, sem conhecimento do contexto geral, faz com que o leitor não consiga capturar onde e em qual momento  `histórico` se baseia. Para os familiarizados, é como se pegássemos um trecho do Silmarillion nos aprofundando em detalhes.

Como em obras anteriores, Christopher, com base em manuscritos do pai, faz um estudo aprofundado buscando tornar público um texto coeso e inédito, traçando sempre um paralelo com o contexto onde foi escrito e quais eram os objetivos dentro da história maior que J.R.R contava. Basicamente são duas versões da mesma história, com enfoques diferentes. A primeira, mais simples na sua primeira parte de como Tuor chega a Gondolin, foca mais na queda e destruição da cidade. A segunda, muda e enriquece as passagens que levaram o herói para chegar na Cidade Oculta e não chega a entrar na Queda.

O autor não chega a concluir o porque das mudanças de versões, pois se trata de uma obra inacabada do pai, especulando em alguns trechos sobre o papel dos editores em não publicar O Silmarillion em detrimento da `continuação` do Hobbit. Este último fato não irei esgotar e é conhecido dos fãs, mas em linhas gerais, como o texto sobre o Bilbo fora um sucesso muito grande, com certo contra-gosto de Tolkien, houve priorização sobre o Senhor dos Anéis em detrimento da história maior da Terra Média, muito pelo qual se dizia um texto deveras `céltico` para os gostos anglo-saxões. Mas isso seria tema para outro texto longo e cheio de letrinhas…

Voltando à narrativa, Christopher à parte, Tolkien senior nos entrega uma história rica em detalhes que poderia merecer um filme se houve uma composição do `conto 1` com o `conto 2`. A narrativa do segundo, motrando como Ulmo (um dos Valar, Senhor das Águas) leva Tuor a se confrontar com seu destino, é um daqueles épicos tradicionais que faz qualquer fã de histórias querer mais. Para evitar muitos spoilers, seria uma jornada épica de D&D que qualquer mestre gostaria de ter mestrado. Não se baseiem, caros enxutos, com as longas e maçantes descrições da genealogia Hobbit que introduzem O SdA. Está muito mais para o Retorno do Rei ou mesmo o trecho das Minas de Moria do primeiro livro. Há dinamismo, apesar de não termos cenas de lutas ou batalhas.

Aí entraria o `conto 1`. Como foi escrito antes, JRR se preocupou mais em detalhar a Gondolin e a invasão das tropas de Morgoth, com Balrogs e Dragões. Sim, houve alterações em relação a como Tuor chega à cidade e o papel de Ulmo, tornando menos épica sua jornada, mas a compensação é mostrada por meio da destruição da Cidade Oculta e como Tuor consegue salvar parte da população, levando-os em uma fuga desesperada, sendo açoitados por Orcs e Balrogs no caminho. E aqui há sim o sacrifício para o bem de todos, lutas épicas e um certo deja-vu, especialmente com um Balrog. Parece que o Professor gostava de colocar os heróis em situações com esta criatura, sacrificando-se. Pequeno spoiler: não é com Tuor e o sacrificado da vez não volta depois como Branco.

A partir do `conto 2`, o livro segue uma linha de pegar diversos textos associados ao assunto e faz uma análise, seja complementando informações, seja fazendo um estudo das diferenças. Nesta parte, a depender do interesse do leitor pela obra do Professor, o texto pode perder sentido, pois cai em uma linha quase didática e parcimoniosa, mais próximo de um ensaio sobre esta parte da Obra do que propriamente uma narrativa. Para quem leu os Contos Inacabados, sabem do que estou escrevendo.

Então, qual veredito? Como esperado, não é um livro para os não iniciados na obra do JRR. Se este for o seu caso, não compre. Se tiver interesse e curiosidade, não comece pelo Senhor dos Anéis, pois o primeiro trecho poder ser frustrante (Tom Bombadil estou olhando e falando contigo). Vá direto para Silmarillion que é o melhor livro do Professor, não à toa já editado por seu filho, sem muito dos devaneios linguísticos ou árvores genealógicas. Agora, se o ilustre leitor é fã do Professor, sem dúvidas é um item obrigatório em sua estante. Afinal, além do texto em si, temos as ilustrações de Alan Lee que são no mínimo fantásticas. Imperdível.

Nota 9 de 10