E lá vou eu de novo, coração nos olhos …. (só os velhos e fortes entenderão)




Salve, salve, Enxutos e Enxutetes que falam élfico mas que gostam é de um anão (e não é o Reverendo do BdE). Após a leitura da Queda de Gondolin e Filhos de Húrin (cuja Resenha foi tragada e perdida na memória da internet), encerro finalmente a tríade post mortem dedicada à obra de J.R.R Tolkien por seu filho Christopher. Apesar de fora da ordem das publicações, afinal o último livro a ser publicado pelo nonagenário pimpolho, em tese, seria a Queda, vamos as impressões deste vosso escriba a respeito Beren e Lúthien.


Para os leitores mais ferrenhos da obra Tolkeniana, não há muito mistério no enredo. Considerando que dificilmente um não-iniciado e curioso no trabalho do Professor começaria por este texto, escreverei sem preocupações em relação aos spoilers. Enfim, seguindo um roteiro similar à Queda (na verdade a Queda que seguiu este roteiro), Tolkienzinho nos brinda com 50 tons, digo, versões de uma história que evoluiu desde seu rabisco original até uma versão ‘acabada’ e maior do que a publicada no Silmarillion. A versão ‘tradicional’ é a seguinte:


[…] o romance e a jornada épica de Beren, um homem mortal, e Lúthien, uma princesa élfica. O pai dela, um grande senhor élfico, opõe-se à união e, para permitir o casamento com Lúthien, impõe a Beren uma tarefa impossível de ser realizada. É este o foco central da lenda: a tentativa incrivelmente heroica de Beren e Lúthien de, juntos, roubar uma Silmaril do maior de todos os seres malignos, Morgoth, o Sombrio Inimigo do Mundo. […] (fonte de algum lugar ao qual nem sei mais onde é)


Como escrito anteriormente, esta é a base central e Christopher faz novamente um trabalho minucioso de pesquisa desta que é uma das três histórias centrais do mundo imaginado por seu pai (não à toa os três livros do parágrafo inicial). A grande sacada do ‘jovem’ é brindar o leitor com as sutilezas da evolução entre o que posso dividir em três ‘versões’ deste arco. A primeira, mais antiga, onde Beren é um elfo e antes de encontrar Morgoth, acaba enfrentando um … gato! Isso mesmo! E seu nome era Tegildo! Por mais estranho que pareça, existia um gato perverso, fiel seguidor de Thû (o nome antigo de Sauron) e líder de uma horda de vis felinos. Por meio desta história, Tolkien Sênior busca explicar (do seu jeito) a origem da rixa entre gatos e cães, pois aqui Huan, o cão que auxilia Beren e Luthien na ‘versão Silmarillion’, derrota o bichano, roubando um colar especifico, ato este imperdoável ‘até os dias de hoje’ por parte dos gatos.


Desta versão para a publicada no Silmarillion, Tolkenzinho relata as mudanças e algumas respostas que conseguiu inferir nos manuscritos do pai. Por exemplo, não consegue explicar do porquê de Tegildo não ser mais citado em nenhuma obra, mas busca mostrar a coerência que o pai tentava fazer ao transformar o antigo elfo em um humano na versão mais conhecida da história. Vale ressaltar que, apesar de não escrito no livro base desta análise, a história de Beren e Lúthien é inspirada na própria história de JRR e Edith, sua esposa…


A terceira parte, a qual chamarei de ‘estendida’, Christopher busca compilar e ordenar todos os manuscritos do pai associados a esta história, buscando um texto coeso e mais completo do arco. As diferenças da “Silmarillion” residem em um detalhamento maior de algumas passagens, entretanto a principal é que papis Tolkien escreveu um longo trecho não em prosa, mas em versos. Para deleite de uns e desespero de outros, quase dois terços desta ‘estendida’ é escrita deste jeito. Uma curiosidade para os aficionados: as páginas deste trecho possuem duas colunas, onde tu poderás ler a tradução em nossa língua pátria e  you can read the other column in English. Difficult and extremely interesting.


Nos aproximando do fim. A história é uma jornada épica dupla. A primeira, de Beren, nos brinda com o sacrifício extremo de um homem por sua amada. Temos de tudo um pouco, desde lugares sombrios às florestas encantadas, além de heróis nobres à Noldorins invejosos e amaldiçoados. Um herói caído e uma redenção apenas citada, mas não narrada de forma direta. A segunda jornada épica foi a de Christopher. Desde buscar manuscritos perdidos, até ler histórias em rascunhos mal apagados e sobrescritos por outras histórias. Difícil imaginar o quão trabalhoso foi e como há uma certa deferência e amor pelo seu pai. Como habitual, isso remete a vida pessoal deste escriba e não há como deixar de acontecer. Ok, o cabra está ganhando algum com isso, mas sabemos que muitas vezes i$$o supera o resto, o que não é o caso. Obrigado Christopher. É o mínimo de reconhecimento que posso lhe dar.


Nota 8 de 10.