Sangue, tripas e o s-e-x-o mais bizarro que você já viu!

Quem gosta de chamar as pessoas que curtem páginas dos anos 70, 80 e 90 de “saudosistas” deveria observar que, provavelmente, não haverá ninguém daqui a duas décadas dando cartaz a qualquer publicação que faça referência a coisas que aconteceram nas duas primeiras décadas dos anos 2000. Não importa se teve ou não coisas dignas de lembrança: as pessoas NÃO vão lembrar.

Bom, feita a minha pequena observação, gostaria de chamar a atenção dos possíveis jovens (ou dos adultos que já estão apresentando os primeiros sinais de demência, provavelmente por conta do abuso de bebida) para um fenômeno ocorrido apenas há alguns anos: a onda zumbi, capitaneada pelo sucesso da hq (depois série de TV, beeeeeeem aquém do material original) The Walking Dead. Por algum tempo, nos vimos cercados por programas de todos os tipos utilizando a temática dos mortos-vivos: séries, quadrinhos, filmes (de todos gêneros, inclusive pornô), livros, etc. Tudo mais ou menos dentro do esquema, sendo a diferença, normalmente, a velocidade com que os zumbis se locomoviam e, principalmente, atacavam. No mais, era sempre a mesma coisa: um vírus que vem do nada, contamina boa parte da população e, da noite pro dia, destrói a sociedade organizada, fazendo com  que pequenos grupos de sobreviventes passem por apertos diversos para continuar em uma existência sem recompensas.

Eu não gostava de zumbis. Foi lendo The Walking Dead que passei a curtir. E foi assistindo coisas como The Walking Dead que comecei a cansar. Mas aí começaram a falar de algo que, embora bebesse na mesma fonte, tinha suas diferenças. E, em um mundo em que a TV passava no meio da tarde criaturas em decomposição comendo cérebros, fiquei chocado (e animado) com a reação de algumas pessoas, que afirmavam que Crossed não era pra qualquer um. Descobrir que esta hq tão falada tinha saído da mente de Garth Ennis, o sujeito que criou coisas como Preacher, elevou o nível de Hellblazer e salvou o Justiceiro como personagem, serviu para atiçar a minha curiosidade.

Quem lê coisas do Ennis, como The Boys, sabe que ele gosta de pegar os clichês dos gêneros e distorcê-los de forma grotesca, com muita apelação e humor negro. E foi isso que ele fez nas dez edições originais de Crossed, publicadas entre 2008 e 2010: saem os mortos-vivos monossilábicos e inexpressivos que, coitados, querem apenas se alimentar, e aparece algo totalmente diferente e muito mais assustador. Na visão de Garth, o vírus que se espalha entre as pessoas em uma velocidade incomum parece apenas levantar todas as barreiras sociais, morais e legais que os seres humanos se impuseram para poder viver em sociedade: os cruzados (assim chamados por conta da laceração que surge nos rostos, em forma de cruz) se tornam psicopatas que visam única e exclusivamente satisfazer seus instintos mais baixos, principalmente os sexuais (o que o vocabulário adotado por eles mostra a cada letra!). Os infectados praticam canibalismo, sim, mas também mutilam, torturam, estupram, esfolam, pervertem… Atacam principalmente seres humanos mas, na falta destes, também investem contra animais, outros infectados e, em casos extremos, até contra si mesmos. Pra piorar, estas criaturas retém a maioria das habilidades que possuíam antes de se transformar, embora a própria insanidade que os acomete lhes tire a concentração necessária para utilizar boa parte delas.

“No meu aniversário de dezenove anos, atirei em um homem pelas costas. Gostaria de dizer que fiz por piedade. Mas parei de mentir para mim mesma há tempos. Caguei lajotas praquele imbecil barulhento. Se me importasse, teria matado. Mas isso não atrairia os cruzados.”

Apesar da boa recepção da série, Garth Ennis (que criou e detém os direitos de Crossed ao lado do desenhista Jacen Burrows) não se sentia tentado a revisitar aquele ambiente, o que o levou a aceitar uma ideia do pessoal da editora Avatar e chamar David Lapham (conhecido por seu trabalho autoral Balas Perdidas e pelo arco Cidade do Crime, estrelado pelo Batman e publicado entre os números 800-808 e 811-814 de Detective Comics, entre 2005 e 2006) para produzir novas aventuras ambientadas neste universo.

“Àquela altura, simplesmente precisávamos ter fé de que tínhamos algum valor… apesar do fato de que mais de nós tinham morrido pelas nossas próprias mãos do que por qualquer coisa que os cruzados tinham feito.”

Valores Familiares (Family Values) é o primeiro trabalho cruzado de Lapham, aqui trabalhando ao lado do artista Javier Barreno. A série em sete partes conta a luta da família Pratt, criadores de cavalos na Carolina do Norte, para escapar dos cruzados. A dificuldade, já alta, cresce por conta dos segredos sujos entranhados no seio do grupo, liderado pelo patriarca, um homem violento e indigno, que sempre usa justificativas baseadas na religião para justificar suas decisões e atitudes. Ele é confrontado apenas pela filha Adaline, enquanto seus nove irmãos e sua mãe, assim como todos os empregados da fazenda, parecem viver em negação sobre as sujeiras praticadas pelo pai.

Fica claro que, assim como Robert Kirkman executa de forma brilhante em alguns arcos de The Walking Dead, Lapham está disposto a mostrar que, mesmo em um mundo tomado por criaturas apavorantes, é o ser humano dito normal quem se torna mais assustador, pois não apenas consegue dissimular o que se passa em seu íntimo, como age com plena consciência do mal que faz ao seu semelhante. David também mostra que a realidade que cerca seus protagonistas às vezes cobra um preço alto no quesito sanidade.

Adaline, que narra a história, ainda tem que viver com a dificuldade de nutrir uma certa admiração pelo próprio pai, além do fato de, com o passar dos anos, ir aos poucos se tornando um pouco parecida com ele, no tocante ao que está disposta a fazer para garantir a sobrevivência dos seus. Ela também sofre por não conseguir lidar com o próprio instinto de sobrevivência, que a instiga a adotar atitudes que sua consciência considera desprezíveis, como abandonar crianças e feridos por estes serem um estorvo para a fuga dos demais.

No mais, os autores se esmeram em trazer as indispensáveis (para o universo cruzado, claro) cenas de revirar o estômago. Necrofilia, eviscerações, coprofilia, decapitações, incesto, canibalismo, amputações, piromania, urofilia, infanticídio… Claramente, os autores estão buscando alcançar o ponto de desconforto do maior número de pessoas possível. Da minha parte, que curto as histórias de Crossed, fiquei incomodado com as cenas envolvendo crianças, principalmente nas cenas que se passam na maternidade. 

Bom, David Lapham faz um trabalho competente. Acho que ele está muito mais à vontade no arco posterior, Psicopata (Psychopath, no original, publicado em 2012), mas não compromete aqui. Os personagens carecem de carisma, você não consegue torcer por eles (nem acho que este seja o objetivo), mas todos tem a sua importância na história. Os diálogos são bem construídos e a coleção de insultos e escatologia que escapa dos lábios dos cruzados está adequada às cenas descritas acima. Há o problema de não conseguir fazer com que adolescentes e crianças soem como crianças e adolescentes em vez de mini-adultos irritantes e burros. O final é um pouco capenga, mas longe de mim criticar alguém por trazer um pouco de esperança a um mundo tão desprovido de luz.

Javier Barreno tenta manter o padrão estabelecido pelo criador Jacen Burrows, mas decepciona em alguns momentos, principalmente por conta do seu traço. Possui a clássica dificuldade dos artistas de comics para desenhar ciranças, inclusive bebês. Raulo Caceres, que desenhou o arco Psicopata, manda muito melhor, inclusive na hora de criar visuais bizarros para os cruzados.

“Botei um rifle na mão da minha irmã e a transformei numa assassina. Naquele momento, foi uma das poucas coisas que me fazia sentir segura.”

A edição da Panini, com capa dura, compila as sete edições da história original, trazendo como extras apenas as capas originais e algumas variantes. O barato de algumas delas delas é que não fazem relação direta com o conteúdo da história, trazendo versões cruzadas de imagens ou quadros históricos, como os fuzileiros fincando a bandeira americana em Iwo Jima. Quanto ao preço salgado, a edição (assim como os volumes 1 e 3, também) já há algum tempo pode ser encontrada com preços bem mais em conta. 

Se você for chegado filmes de terror splatter, não tem problemas com nudez e cenas de sexo muito pouco convencionais e ainda está são o suficiente para diferenciar ficção de realidade, mesmo quando se trata de uma história em quadrinhos, divirta-se com a continuação de Crossed.  

Crossed Volume 2 – Valores Familiares. Roteiro de David Lapham. Arte de Javier Barreno, com Julien Hogonnard-Bert e Paul Duffield. Editora original Avatar. Editora no Brasil Panini Comics. 176 páginas. R$ 62,00.

 

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